sábado, 4 de maio de 2013

"O novo e os velhos do PS"


Embora não concordando a 100% com a opinião de Clara Ferreira Alves, este artigo, publicado hoje no Expresso, é, na minha opinião, muito bom e transparece, sem dúvida, a infeliz realidade da política portuguesa.

TALVEZ A CULPA SEJA MINHA. Talvez eu esteja a ficar cínica, ou talvez a situação portuguesa nos deixe cínicos. Ou talvez não. A política portuguesa está a tornar-se carrossel de feira, em que um grupo de candidatos a andar à roda espera a vez para girar sempre no mesmo sentido e da mesma maneira anterior.
Recapitulemos.
Há uns dois anos, o povo português estava farto do Partido Socialista e dos ministros e secretários de Estado do Partido Socialista e das caras do Partido Socialista e das promessas e utopias do Partido Socialista, todas em segunda mão. Com a ajuda providencial de um Presidente da República reformado que acha que a reforma do sistema começa no facto de ele preferir receber a reforma do que o salário da Presidência, a par de outros ilustres reformados como a presidente da Assembleia da República, embora a reforma do primeiro seja, nas palavras do dito, uma miséria, adiante, o povo português apeou aquele grupo e elegeu outro grupo. Como se viu, em breve percebemos que o novíssimo grupo eleito não fazia ideia do que era governar com transparência, desígnio, rigor e, digamos, uma certa elegância litúrgica. Apascentado por um jovem bem falante que contrastava com o estilo ríspido do primeiro-ministro anterior, o Governo passou dois anos a tentar vender Portugal a retalho, com contratos assinados por um analfabeto encartado que comprou um curso superior, e a guerrear com toda a gente e sobretudo com o povo português que o tinha eleito. Renegando todas as promessas eleitorais, o programa do partido, e a confiança que tinham depositado na urna ao elegê-lo. O Governo manteve o analfabeto em funções tempo demais e não conseguiu reformar o que se tinha proposto, o Estado, a administração, as leis. Não conseguiu combater as corporações. Não conseguiu fazer crescer a economia, executar os orçamentos, apresentar contas, respeitar compromissos internos.
Externamente, rastejou entre a ideologia e a subserviência, recusando a realidade do falhanço da austeridade. Uma realidade que a Europa, hoje, admite como provável. De caminho, destruiu a paz social, rebentou com a sociedade portuguesa, enquanto o analfabeto convidava à emigração e o primeiro-ministro ao empobrecimento de um povo de "cigarras" piegas. Não esqueçamos.
A única coisa boa do Governo são dois ou três ministros que continuaram a fazer o seu trabalho metodicamente, alguns deles ganhando experiência no exercício do cargo, experiência útil em qualquer Governo que suceda. Os ministros da Saúde, Educação e dos Negócios Estrangeiros, quer se goste deles ou não, tentaram fazer com competência o que se lhes pedia, ou o que o das Finanças pedia, e era impossível de fazer. Não são perfeitos, ninguém é, deixemos de lado a querela partidária. O analfabeto foi corrido e bem substituído. O neoliberal agudo continua lá, mas será corrido, juntamente com o conselheiro bórgia.
E agora? Agora, a avaliar pelas caras que vimos no congresso do Partido Socialista, e que já lá estavam todas no tempo do anterior congresso do Partido Socialista, elegendo líderes a 100%, prometem que vão ganhar as eleições e continuar a governar, mas desta vez bem, com rigor e austeridade, com transparência e boas intenções reformistas. Aí vem de novo o Carrilho, a Estrela, o Ferro, a Maria de Belém, o Martins, quiçá o Vitorino, e outras excelentes criaturas, mais os boys e as juvenis promessas, e desta vez capitaneados pelo inefável António José Seguro, amigo e companheiro do analfabeto, ou ex-amigo, e cuja experiência de governo em altas e difíceis funções é, digamos, nula, embora os colegas reconheçam mestria na intriga "aparelhística". Sublime vantagem. E os dois génios de serviço, que ninguém percebe se são seguristas ou socorristas, Assis e Costa. Costa é um bom presidente da Câmara e assim vai continuar, embora fosse a óbvia escolha para primeiro-ministro (o partido não quis). Assis é um daqueles moderados sem convicção que também aprendem depressa o cargo.
E o povo português irá eleger estas luminárias, que se sucedem às luminárias anteriores, enquanto continuamos a pedir dinheiro emprestado a juros agiotas. As luminárias, com exceção de Costa e mais três ou quatro, excluindo os anciãos, não sabem governar ou governaram mal.
Dois anos e dois mil assessores mais tarde, os juvenis perceberão o que andam ali a fazer. Nessa altura, mais endividado, o povo português ameaçará apeá-los aos gritos de bandidos, bandidos. É assim. Será assim. O Estado continuará por reformar, o país continuará a definhar, porque o cartel é o do costume, a clientela não mudou e a burocracia também não.
O carrossel gira, comentado cá em baixo por aqueles que enjoaram nas voltas da roda. Segurem-se bem.
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