segunda-feira, 3 de março de 2014

"Sentado no lugar certo na hora certa?" - a opinião de São José Almeida


“O homem anda há que tempos para discutir se é o Assis, se não é o Assis (…). Agora como é que é? Ele acelera e avança antes de 5 de Março porque foi Paulo Rangel que o obrigou ou fica a falar de borboletas até ao dia 5 de Março?” A fórmula usada por Marcelo Rebelo de Sousa, no congresso do PSD, para se referir ao líder do PS, António José Seguro, recorre a um tipo de linguagem desrespeitosa do que deve ser o tratamento institucional a dar a um líder partidário.

Marcelo Rebelo de Sousa usou um tom chacoteiro, mas outros intervenientes no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foram mais agressivos. E, já terminado o congresso, Nuno Morais Sarmento, antigo dirigente do PSD e ex-ministro e Durão Barroso, ao fazer uma palestra a convite da Câmara de Comércio Luso-Britânica, em Lisboa, num tom mais institucional e educado, não deixou de defender que Seguro está em risco na sua liderança, caso o PS ganhe as eleições europeias por pequena margem.

Por que razão será que os ataques a Seguro no congresso do PSD atingiram um grau de desrespeito em relação ao que deve ser o trato institucional? É normal que no congresso do principal partido que suporta o Governo se eleja como adversário político o líder do maior partido da oposição. É também normal que lhe sejam feitas críticas e desafios. Mas será normal dizer que Seguro “fica a falar de borboletas”?

Considerando que não houve um ataque de disparate colectivo no PSD e que os militantes e dirigentes deste partido não passaram a ter comportamentos deselegantes só porque estavam numa reunião partidária, tal como que Morais Sarmento não inventou a existência de instabilidade dentro do PS e o questionamento de Seguro por correntes internas do PS que gostariam de ver António Costa na liderança, a questão que se coloca é a de saber quais as razões desta fragilidade de Seguro? Ou seja, até que ponto Seguro contribui para que o vejam como um líder frágil e os seus opositores o desrespeitem.

O líder do PS promove iniciativas, mas por razões que se desconhece parece que o que pode correr mal corre sempre pior. No sábado, tentando "marcar" o congresso do PSD, a direcção do PS anunciou que ia avançar com um pedido de comissão parlamentar de inquérito ao negócio dos submarinos e dos blindados Pandur. Há mesmo quem tenha defendido que o presidente do PSD anunciou a candidatura de Paulo Rangel ao Parlamento Europeu para anular a pressão mediática da comissão de inquérito. Mas na quarta-feira, quando a iniciativa foi apresentada e votada, algumas das figuras de peso na bancada socialista – Jorge Lacão, Miranda Calha, Marcos Perestrello, Ana Catarina Mendonça Mendes, Isabel Moreira – abstiveram-se e assumiram que não subscreviam o pedido de inquérito (PÚBLICO 27/02/2014).

Já as conferências Novo Rumo, onde estará a ser preparado o programa de governo que o PS quer apresentar ao país, parecem não passar de uma reedição desfasada e requentada dos Estados Gerais de António Guterres, há quase 20 anos. As ideias que Seguro tem proposto, naquele fórum ou noutros, vacilam entre a polémica dos tribunais especiais e o lançamento de propostas como a de um “novo desenvolvimento” baseado em clusters, uma ideia que foi importada para Portugal há 20 anos no consulado de Cavaco Silva por um estudo de Michael Porter e que se baseia na ideia de que Portugal deve apostar na especialização em áreas em que pode ter vantagens competitivas.

Se é um facto que Seguro parece não conseguir fazer propostas que renovem o programa político da social-democracia, tem de ser reconhecido que ele faz política baseado em princípios e de acordo com o que são os pressupostos ideológicos em que acredita. Mas o que é facto é que há uma imensa pressão do Governo, do Presidente, de muita da opinião publicada para que o PS aceite um acordo sobre o modo de aplicar a política de austeridade e efectuar o reajustamento económico e financeiro do país. E aqui é legítimo perguntarmo-nos se esta pressão toda não significa apenas uma tentativa de vergar Seguro?

Observando a questão do ponto de vista da opinião pública, a realidade é que o PS está à frente do PSD nas sondagens com alguma expressão. Será que isto significa que o eleitorado está agradado com a prestação da direcção de Seguro no PS? Será que os analistas políticos e a opinião publicada estão desfasados do eleitorado? Será que as sondagens pecam por erro de distorção de amostra? Ou será que o PS sobe apenas porque beneficia da revolta e da azia em relação ao Governo que têm sectores da população como os funcionários públicos, os pensionistas, os desempregados? Será que se Seguro ficar calado ou propuser não importa o quê é a mesma coisa? Será que irá recolher os votos e até poderá chegar a primeiro-ministro apenas porque está na liderança do PS no momento em que o PSD for eleitoralmente castigado? Ou seja, sentado no lugar certo na hora certa?

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