quarta-feira, 29 de junho de 2016

"Disorder under the heaven" - Slavoj Žižek


Slavoj Žižek, a DiEM25 early signatory, casts his critical eye on the ‘disorder’ of the EU in the light of Brexit. He reminds us that “crises are painful and dangerous” but they are also “the terrain on which battles have to be waged and won”. He writes that the Brexit outcome offers us “a unique chance to react to the need for a radical change in a more appropriate way, with a project that will break the vicious cycle of EU technocracy and nationalist populism.” In a manner reflecting fully the DiEM25 manifesto, he concludes that” “The true division of our heaven is not between anaemic technocracy and nationalist passions, but between their vicious cycle and a new pan-European project which will addresses the true challenges that humanity confronts today.”

"Um tiro no porta-aviões alemão" - Garcia Pereira


O “BREXIT” – Um rotundo Não ao império Germânico

"Fear wins in Spain's elections" - Luis de Nadal


Sunday’s results were an important blow. They showed that Spain, at least in one sense, “is not different.” As all over the Old Continent, fear is taking over. But if Podemos members and leaders draw the right conclusions, this defeat will only make them stronger.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

"Esterilização de deficientes"



Retro report - "Nuclear Winter"



Os 50 melhores discos da música brasileira - 29



Assim vai a Europa! - Eleições em Espanha: "Tudo como dantes, quartel general em Abrantes"


Os resultados eleitorais em Espanha não alteraram o quadro político que existia: o PP ganhou sem maioria absoluta, o PSOE ficou em 2º lugar, o Podemos (agora em coligação) ficou em 3º.

Isto é - ou o PP consegue um acordo com o PSOE ou este faz um acordo com o Podemos.

De acordo com as declarações de Pedro Sanchéz, o PSOE não deverá apoiar ou abster-se para que Rajoy possa formar governo. Espero que isto signifique abertura a uma coligação à esquerda. Caso contrário... temos um mistério sobre o que querem os dirigentes políticos espanhóis.

domingo, 26 de junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016

"O “Brexit” pode ser o abanão de que a Europa precisa" - José Pacheco Pereira



Mais do que uma vez disse que tinha “mixed feelings” em relação ao Brexit, era sensível a argumentos a favor ou contra a permanência do Reino Unido, embora estivesse convencido que no fim ganharia o “remain” por uma pequena margem. Depois do assassinato da deputada trabalhista, pensei que o efeito perverso seria inverter as tendências que apontavam para a vitória do “Brexit” e foi isso que pareceu nas últimas sondagens. No entanto, nada disso se verificou e basta olhar para o mapa dos resultados para percebermos como a divisão do voto no referendo penetrou fundo no tecido social, nacional e político inglês. Vai muito para além dos anátemas com que os europeístas quiseram exorcizar um monstro que em grande parte criaram quando estão há décadas a erodir a democracia na Europa.

“Take our country back” é um slogan poderoso, entre outras coisas, porque é verdadeiro. O “país”, sob formas mais ou menos capciosas e nunca legitimadas pelo voto com a clareza que é precisa nestas matérias, tinha de facto sido “roubado”, como aliás acontece com muitos países da Europa, a começar pela Europa do Sul. Querer impor sanções a Portugal e Espanha e não à França, porque “a França é a França”, como diz Juncker, é o exemplo do que é a Europa de hoje, indiferente ao voto nacional, comportando-se de forma diferente conforme o tamanho dos países, e correndo para punições como um polícia velho. Aliás o referendo inglês teve algo de parecido com o grego: as tácticas do medo reforçaram o sentimento nacional.

No Reino Unido não votaram os anti-emigrantes contra os amigos dos emigrantes, porque o benefício que Cameron levou para a campanha, dado por uma Europa sem princípios, foi exactamente a excepção para o Reino Unido de poder retirar direitos aos emigrantes. No Reino Unido não votaram os velhos contra os jovens, o campo contra cidade, os populistas emotivos contra os “racionais”, os que olham para o “futuro” contra os que olham para o “passado”. Votaram os escoceses a favor da independência da Escócia por via do sim à Europa, votaram os irlandeses do Norte que não querem uma fronteira externa da União ao lado da República da Irlanda, e votaram os mais pobres e mais excluídos, tirando o tapete ao Partido Trabalhista, e recusaram o voto a tudo quanto é grande interesse, a começar pelo capital financeiro e pelas grandes empresas que são, há muito, mais internacionalistas do que qualquer Internacional Comunista.

Era uma combinação muitas vezes contraditória de intenções de voto? Era, mas as democracias são assim. E os ingleses têm uma velha democracia, e um conjunto de “peculiaridades”, que permitiram a E. P. Thompson um dos mais notáveis ensaios sobre como o adquirido democrático e liberal, penetrou tão fundo no Reino Unido sem paralelo na Europa, e “pertence” a todos. Dohabeas corpus, ao julgamento por um júri, do respeito pelas tradições próprias mesmo quando parecem irracionais e pouco eficazes, como seja a recusa do sistema métrico, ou a condução pela esquerda, a resistência ao controlo de identificação, a momentos que só podiam acontecer em Inglaterra como o apoio dos homossexuais aos mineiros durante as grandes greves contra Thatcher, que ainda hoje faz com que um dos sindicatos mais duros do Reino Unido, participe por gratidão nas paradas gay. Existe uma forte cultura nacional identitária. Umas coisas são mais importantes, outras menos e nem todas são boas, mas isso é que significa “ser inglês”, um complexo de história, cultura, tradição, laços de identidade, que justificaram o “take our country back”.

Os burocratas europeus e os interesses internacionais do dinheiro não percebem esta realidade, e acham que é um anacronismo, mas Jean Monnet, um dos fundadores de uma Europa que já não existe, percebia-o bem demais. E por isso defendia uma Europa de iguais, de “pequenos passos”, de solidariedade e que, para existir, tinha de ter em conta a diversidade das nações. Uma classe política como a portuguesa, que andou anos a jurar nas campanhas eleitorais que não era federalista e que agora acordou toda federalista e hiper-europeia, não percebe isso, porque há muito perdeu os laços com a identidade nacional e aceita tudo. Aceita tudo agora porque o modelo económico imposto é próximo dos seus interesses, porque se a política europeia fosse keynesiana, havíamos de os ver todos anti-europeus.

De há muito que de cada vez que há um sobressalto ao acelerar de “mais Europa” prometem-se juras de reforma e “debate” e, mal o susto passa, tudo continua na mesma ou pior, torneia-se o voto de que não se gosta através de estratagemas muito pouco democráticos. A actual liderança europeia já vinha de ter feito um Tratado de Lisboa que é um verdadeiro exemplo de dolo na vida pública, visto que foi assente no engano de fazer passar as medidas que tinham sido recusadas nos referendos holandês e francês debaixo da mesa, com a traição de vários governos e partidos de fazer um referendo. Como, em Portugal, fizeram o PS e PSD.

Claro que o referendo tem riscos e o mecanismo referendário não pode sobrepor-se ao normal funcionamento dos parlamentos. Mas o que acontece é que não há um normal funcionamento dos parlamentos, em que maiorias “centrais” de conservadores e partidos muito virados à direita e socialistas que abandonaram o socialismo, aceitaram um caminho que punha em causa a soberania das nações europeias e o próprio poder dos parlamentos nacionais que nenhum tratado, nem nenhum debate público eleitoral clarificou a nível nacional. Como em Portugal, a União Europeia usurpou poderes nacionais sem nunca ter havido uma discussão democrática que dissesse claramente “o meu Parlamento vai perder este e aquele poder, estão de acordo?”, sendo que os poderes perdidos estavam, como estão, no centro da democracia, como seja o poder orçamental. Bem pelo contrário, uma discussão com puros objectivos de marketing, como aconteceu quando do Tratado de Lisboa, dizia exactamente que o contrário ia acontecer: ia haver “devolução” de poderes aos parlamentos nacionais.

A saída do Reino Unido pode ser muito positiva para a União Europeia, que, já se viu, se não muda “a bem” só pode mudar “a mal”. Claro que os países da União podem acantonar-se numa atitude revanchista contra o Reino Unido para lhe fazer “pagar” a ousadia. Não é impossível que isso aconteça, numremake do que se fez à Grécia com os brilhantes resultados conhecidos. Ou podem compreender que há um vasto conjunto de laços com o Reino Unido que nada impede serem mantidos, mesmo que o país não faça parte das instituições políticas da União. O Reino Unido continua a ser fundamental para a defesa da Europa, por exemplo, numa Europa que deixou de ter forças armadas credíveis. É parceiro na NATO de muitos países europeus, que precisam desse laço para manterem a sua soberania face à Rússia. E por aí adiante.

Se seguirem uma linha à grega de vingança, que é o que presumo passa pela cabeça de alguns gnomos europeus e pela burocracia, cujo comportamento teve um grande papel em alimentar o “Brexit”, os problemas da Europa só se agravarão. Uma negociação punitiva com o Reino Unido favorece a independência escocesa com os efeitos que isso tem em Espanha, e agravará nas opiniões públicas a reacção soberanista que tem crescido com a política de dolo das últimas décadas e com a transformação da política “austeritária” na vulgata imposta na Europa.

O que aconteceu no Reino Unido não é da mesma natureza da ascensão da Frente Nacional em França, embora a ecologia que a União Europeia está a criar seja propícia a estes movimentos. Por isso, o abanão inglês pode incentivar uma crescente contestação, à direita em França, na Hungria, na Polónia, e à esquerda em Espanha e em Portugal. Não adianta, como fazem os nossos europeístas, que nunca percebem nada do que se passa a não ser quando têm o fogo à porta, meter todos os movimentos de contestação ao actual estado de coisas na Europa no mesmo saco de “populistas e extremistas”. Mas deviam meter no mesmo saco as causas dessa ascensão, porque as causas são de sua responsabilidade: a engenharia política do “mais Europa” à revelia da vontade dos povos e feita com truques e sem democracia, a erosão das democracias que, verifica-se agora, funcionam apenas no espaço da soberania, o poder solitário de um país e dos seus aliados com políticas económicas e sociais de “austeridade” que levaram à estagnação económica da Europa, a captura pelo poder financeiro dos centros de poder, a mono política de ir atrás de salários e pensões enquanto se fecha os olhos aos paraísos fiscais, e o tratamento inaceitável dos refugiados (anote-se, muito pior do que o do Reino Unido) inscrito no acordo sinistro com a Turquia.

Continuem assim e o fim da União não vai ser bonito de se ver. O abanão do Reino Unido pode ser a última oportunidade de a mudança na Europa não ser convulsiva.


Daqui

Assim vai a Europa - Brexit


A minha opinião publicada ontem no Facebook:


Brexit, e agora?

Algumas questões para refletir:

A Grã Bretanha não foi fundadora daquilo a que hoje se chama União Europeia. Aliás, é sabido que essa adesão nunca foi consensual - não faz parte do Euro nem do Espaço Schengen.

A evolução da União Europeia levou a que hoje muitos contestem aquilo que ela é: um espaço anti-democrático, governado por burocratas não eleitos e que tem como objetivo principal a manutenção do statu quo neo-liberal. Um espaço em que os países ricos exercem uma ditadura sobre os países "periféricos". Basta ver os exemplos da Grécia e de Portugal.

É verdade que a União trouxe, por exemplo a Portugal, fluxos financeiros que permitiram um desenvolvimento nunca antes alcançado. Mas também é verdade que, a bem da "União", a agricultura, as pescas e a indústria foram destruídas. E os mesmos que o fizeram, andam agora a dizer que é preciso desenvolver a indústria, apoiar a agricultura e a voltar ao mar. Em que ficamos?

O euro retirou capacidade de resposta a crises e obrigou os governos nacionais à dependência do BCE e da Alemanha, o país que mais lucrou com a desgraça dos outros.

O único órgão eleito na União Europeia, o Parlamento Europeu, tem poderes restritos e, na maior parte das vezes, a maioria dos deputados nacionais, em vez de defenderem os interesses dos seus povos, defendem os interesses das suas famílias políticas.

O estado a que chegou esta União é da única e exclusiva responsabilidade dos partidos que nunca consultaram a sua população sobre os tratados que foram aprovando.

Não façamos do Brexit uma catástrofe. Antes uma oportunidade.

É verdade que muitas das motivações daqueles que defendem a desintregação da UE não são os melhores: xenofobismo, racismo, anti-imigração, etc. Veja-se como a direita radical em França e na Holanda, por exemplo, já se está a aproveitar deste resultado. Mas a esquerda pode repensar as suas posições e fazer delas uma forma de reformar uma União que até pode ser muito positiva.

Mas se continuarmos a lavar as mãos relativamente aos valores da solidariedade (veja-se o caso dos refugiados), da democracia, se não for dada voz aos cidadãos, então a União vai continuar doente e a morrer.

Espero que os responsáveis políticos tenham o bom senso de refletir.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Livro recomendado - "Cidade em chamas"


De Garth Risk Hallberg

World Press Cartoons 2015 - 14


Untitled - Michael Kountouris - Grécia, 1º prémio gag cartoon

Portugal na imprensa estrangeira - "Portugal runs for four days straight on renewable energy alone"


Zero emission milestone reached as country is powered by just wind, solar and hydro-generated electricity for 107 hours

"White Ebony" - um projeto de Patricia Willocq


I was born and raised in the Congo (DRC). After leaving Africa, I spent my life traveling around the globe and came back to my native country in June 2013.

I remember as a child, I was absolutely fascinated with people with albinism. Twenty years later, this fascination is even more rooted in me than what I thought.

Being a person with albinism in many part of Africa is not the best gift life could grant you. Although, the Ndundus (albino in Lingala) in the Congo are better off then their Tanzanian and Burundian counterparts - killed and mutilated by witch doctors - they are stigmatised and discriminated by the society.

But people with albinism in the Congo are gathering and slowly making their way towards integration.

This photo report is a testimony of hope, courage, love and success to give them the dignity they deserve. It can hopefully be used to promote understanding and tolerance towards people with albinism in the Congo and in the rest of Africa.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Eleições em Espanha - "Un manifiesto de 177 economistas pide el voto para Unidos Podemos"



Un total de 177 economistas de universidades españolas e internacionales ha suscrito un manifiesto que reclama el fin de las políticas de austeridad en España y en Europa, y pide el voto para la candidatura de Unidos Podemos a las elecciones generales del próximo 26 de junio.

Thomas Piketty, James Galbraith, Francisco Louçã, José Castro Caldas,Dimitri B Papadimitriou, Santiago Garma estão entre os subscritores.

Clássicos do "Film Noir" - "Beat the devil"


Realização de John Huston

"FALEMOS ENTÃO DO BREXIT" - "Mundo Cão"


Está em curso uma intoxicação epidémica, que tem contornos de uma operação de terror, sobre as terríveis consequências que se abateriam sobre o mundo, a Europa e até este pobre cantinho lusitano se o Reino Unido, por sinal o braço europeu mais fraterno do grande império, sair da União Europeia.

"A União Europeia transformou a Europa num bordel" - José Vítor Malheiros



É por isso que, na próxima quinta-feira, quando conhecermos os resultados do referendo no Reino Unido, eu espero ardentemente que o resultado seja a vitória do “Brexit”.

Não porque penso que o Reino Unido vá ficar melhor fora da UE. Não porque pense que a UE vai ficar melhor sem o Reino Unido. Mas apenas porque espero que a saída do Reino Unido seja o choque que irá provocar o abalo político, o exame de consciência e o toque a rebate democrático de que a União Europeia precisa para se reformar de forma radical e para se reconstruir, num formato e com regras diferentes, sob o signo da decência. E não penso que isso seja possível sem uma vitória do “Brexit”.

Na íntegra aqui.

domingo, 19 de junho de 2016

Livro recomendado - "O Senhor das almas"


"And the oscar goes to": Brie Larson (Atriz principal)



Lettre de Barbara à Jean-Claude Brialy



Mon petit amour joli,

Je sais bien tes angoisses : diriger, jouer, être attentif aux autres.

J’aime pas du tout faire du « cinéma ».

J’aime regarder, alors je te remercie de me laisser voir quand tu diriges.

Je te fais tout à fait confiance.

Je voudrais tant être prête à ce que tu veux, mais je suis incapable de faire ça.

Pourquoi que tu prends pas Bernadette Lafont ?

En tous cas mon amour, sois très à l’aise. Coupe-moi dans les « rushs », je serai pas du tout vexée.

Remercie toute ton équipe et ne te fais aucun soucis, je serai là le 26 au matin. Car je t’aime.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Quarante ans de conflit au Sahara occidental" - "La jeunesse sahraouie révolutionne le discours politique marocain" - Omar Brouksy


Les jeunes du Sahara occidental sont plus qu’un simple poids démographique, davantage qu’une catégorie sociale. Ils sont devenus depuis quelques années des acteurs politiques dont le degré d’autonomie pèse indéniablement sur l’évolution d’un conflit qui fêtera cette année ses quarante ans. En prise avec les mutations de leur société, ils forment une force dynamique aussi complexe que multiforme.

"Interview: Ethiopia’s Bloody Crackdown on Peaceful Dissent"


Since November 2015, Ethiopia’s Oromia region has been rocked by widespread protests. State security forces have responded to the largely peaceful protests with lethal force, resulting in the loss of more than 400 lives. Thousands have been wounded. Tens of thousands have been arrested and many remain in detention without charge. Many of those killed or detained by security forces are students. Human Rights Watch’s Birgit Schwarz talks to Ethiopia researcher Felix Horne about what triggered the protests, why the government’s brutal crackdown has received so little attention, and how he went about gathering credible evidence for his latest report, “Such a Brutal Crackdown,” in a highly repressive country that refuses to let in human rights researchers.

"Mobilisations féminines à l’heure des révolutions arabes"


Dans le sillage des révolutions du monde arabe et musulman, les femmes se sont mobilisées pour la dignité et pour l’égalité. Des chercheures et des militantes analysent les combats des féministes, religieuses ou « laïques » comme ceux des femmes « ordinaires ».

quinta-feira, 16 de junho de 2016


David Mourão-Ferreira partiu há 20 anos



E por Vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira, in Matura Idade

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Contra-sensos na educação" - Sandra Monteiro


O sistema educativo português vive tempos marcados por uma contradição que merece ser intelectualmente compreendida e politicamente resolvida. A contradição não é inédita nem difícil de enunciar: as escolhas políticas relativas aos ciclos básico e secundário da educação estão a traduzir uma concepção de defesa do ensino público, universal e tendencialmente gratuito; as escolhas políticas relativas ao ensino superior estão a determinar, ou pelo menos a encorajar, uma visão neoliberal, elitista e não democrática do ensino superior. Senão vejamos.

Por um lado, o governo e o Ministério da Educação, com o apoio da generalidade da sociedade e com grande visibilidade na comunicação social, estão a travar um verdadeiro combate em defesa da escola pública. O fim dos contratos de associação com estabelecimentos de ensino privado onde há oferta de escola pública assinala a interrupção de uma trajectória neoliberal que apostava em financiar crescentemente os colégios com dinheiro público, financiamento esse que escassearia cada vez mais numa rede pública reduzida, desaproveitada, incapaz de atrair e de se pensar a si própria como garante de um bem e de um serviço público – a educação. Esta modalidade da captura do Estado e dos seus recursos resolvia dois problemas ao projecto neoliberal.

Em primeiro lugar, resolvia um problema económico: as escolas privadas podem escolher um modelo de gestão assente em lógicas puramente empresariais; professores e funcionários mais baratos e precários; ou alunos que partem com mais vantagens socioeducativas e ficam melhor na fotografia dosrankings – tudo coisas que favorecem os lucros de um negócio garantido pelo Estado num mercado concorrencial. Em segundo lugar, o modelo neoliberal dos contratos de associação é uma peça fundamental de corrosão da escola pública e inclusiva, que deve combater as desigualdades socioeconómicas antes mesmo de elas se reproduzirem no prosseguimento dos estudos, nas condições laborais e salariais, ou nas pensões de reforma.

A elitização e a empresarialização de escolas financiadas pelo Estado não é apenas, portanto, um aproveitamento abusivo de recursos públicos que seriam mais bem empregues de outro modo. São uma engenharia neoliberal destinada a garantir lucros para alguns e, sobretudo, a degradar o trabalho e afastar sindicatos, a anular a gestão democrática e colegial, a perpetuar as desigualdades. Quando o governo acaba com contratos de associação e investe na oferta pública está a fazer uma escolha de modelo de sociedade – uma escolha política e ideológica, mas de sinal contrário a outras escolhas. Está a afirmar que este Estado não aceita ser mobilizado pelo«intervencionismo de mercado», como afirma João Rodrigues nesta edição. Como alerta o economista, «este vírus [neoliberal] espalha-se também sempre que descuramos as relações sociais subjacentes à provisão».

Espalha-se sempre. Isto leva-nos ao segundo termo da contradição referida. O mesmo governo que acaba com contratos de associação prevê no seu programa medidas em sentido contrário para o ensino superior público. A questão não tem tido muita discussão pública, mas deve ter. Diz o programa que o governo irá garantir «o reforço e estímulo à adoção do regime fundacional pelas instituições de ensino superior públicas, o estabelecimento de consórcios e a otimização do sistema de governo das instituições públicas, consagrando a responsabilidade de membros externos às instituições nos seus órgãos de governo» [1].

O «reforço do regime fundacional» traduz-se numa engenharia, há muito criticada neste jornal [2], de passagem de universidades públicas a fundações públicas em regime de direito privado. Já em 2007, o então criado Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) previa a passagem a regime fundacional. Em 2009, esse passo foi dado pelo ISCTE, em Lisboa, e pelas Universidades do Porto e de Aveiro. Sem grande discussão pública nem um balanço rigoroso dessas experiências – e até sem a avaliação que o próprio RJIES marcava para 2012 (artigo 185) –, em 2016 foi a vez de a Universidade do Minho passar a universidade-fundação, mesmo com um referendo interno que mostrou a oposição da comunidade académica. Chegou agora a vez da reitoria da Universidade Nova de Lisboa, que enfrenta uma crescente oposição de estudantes, docentes e seus sindicatos, mas que tenciona evitar referendos e concluir o processo ainda em 2016.

O que explica este furor fundacional num país sem fundos? As universidades-fundação são uma resposta profundamente errada, mas a problemas realmente existentes. Desde a primeira fase de neoliberalização do ensino superior público, com o aumento das propinas de forma regular a partir de 1997 e consequentes desinvestimento público, que o ensino superior sofreu importantes transformações. Não as anunciadas (melhoria da qualidade do ensino ou mais apoio social escolar), mas certamente outras: mais levantamento de barreiras de classe à frequência; mais concentração da gestão e quase desaparecimento da gestão democrática; mais adaptação dos currículos e das aprendizagens aos interesses do mercado; mais dificuldades de financiamento, administração dos recursos e do património; e mais pressão para precarizar carreiras, diminuir salários e depender de trabalho gratuito de docentes, investigadores e bolseiros.

Com o anos da Troika tudo piorou. Quem gere as universidades – ainda por cima num contexto de grande isolamento, pois o RJIES afastara já dos órgãos universitários grande da comunidade académica – entrou num inferno de burocracias, de caça ao financiamento, de ligação a empresas e a um mercado que, por definição, não pode substituir-se à universidade quando se trata de lutar por um projecto científico e pedagógico autónomo. O aliado dessa luta têm de ser, em primeiro lugar, os poderes públicos, num quadro de financiamento que permita que as universidades cumpram a sua missão de serviço público e o façam num quadro democrático e de autonomia.

As experiências existentes de regime fundacional mostram, entretanto, que as novas estruturas não resolveram os problemas que anunciaram resolver (os prometidos «dotes» não chegaram, as receitas próprias não foram suficientes para optarem pelas as regras contabilísticas do privado, etc.) e criaram vários outros: concentração de poder nos curadores, fragilização das carreiras dos docentes e «carreiras paralelas», etc.

Os «consórcios» através dos quais se pretende fazer o «reforço do regime fundacional» fazem lembrar, neste contexto, uma espécie de «contratos de fundação». Como nos contratos de associação, colocar os desígnios do ensino universal e tendencialmente gratuito, assim como a autonomia (de gestão, científica e pedagógica) nas mãos de investidores privados só pode trazer elitização da frequência, mercantilização dos saberes e das aprendizagens, regressão dos direitos laborais e da gestão democrática. Não será altura, como propõe nesta edição João Cunha e Serra, da FENPROF, de os órgãos das universidades negociarem, «com o governo e a Assembleia da República», «um regime de autonomia reforçada» das universidades que seja «acompanhado de exigentes medidas de prestação de contas e de responsabilização pelo interesse público»? Se este momento não for aproveitado para resolver esta contradição na concepção dos diferentes graus de ensino, que legitimidade haverá para se afirmar a aposta nas qualificações do país, no combate às desigualdades e no cumprimento das exigências de exercício da gestão democrática que há 40 anos a Constituição fixou?

quinta-feira 9 de Junho de 2016

Notas

[1] www.portugal.gov.pt/pt/o-gov....

[2] Ver Maria Eduarda Gonçalves, «Que universidade queremos?», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Abril de 2008

"Learning from Namibia" - Joseph E. Stiglitz e Anya Schiffrin


Sandwiched between Angola and South Africa, Namibia suffered mightily during the long struggle against apartheid. Yet, since winning independence from South Africa in 1990, this country of 2.4 million people has achieved enormous gains, especially in the last couple of years.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

António Variações - 32 anos de saudade




António Variações

"ISIS Anti-Gay Jihad Long Overlooked" - Evan Gahr


Thought puzzle for liberals: Does calling ISIS “homophobic” qualify as “Islamophobia?”

Fernando Pessoa faz hoje anos



O poema

Cada palavra dita é a voz de um morto.
Aniquilou-se quem se não velou
Quem na voz, não em si, viveu absorto.
Se ser Homem é pouco, e grande só
Em dar voz ao valor das nossas penas
E ao que de sonho e nosso fica em nós
Do universo que por nós roçou
Se é maior ser um Deus, que diz apenas
Com a vida o que o Homem com a voz:
Maior ainda é ser como o Destino
Que tem o silêncio por seu hino
E cuja face nunca se mostrou.


"The European Referendum" - Professor Vikas S. Shah

On June 23, 2016 the people of the United Kingdom will be asked the single most important political question in modern history, “Should the United Kingdom remain a member of the European Union?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

"Latin America’s Rising Right" - Mohamed A. El-Erian

From changes in government in Argentina and Brazil to mid-course policy corrections in Chile, Latin American politics appears to be undergoing a rightward shift. But rather than being “pulled” by the attractiveness of the economic policies that the right is advocating, this complex phenomenon is predominantly a reflection of the “push” implied by anemic growth and the disappointing provision of public goods, especially social services.

"Edward Snowden, Glenn Greenwald & Noam Chomsky - A Conversation on Privacy"


The balance between national security and government intrusion on the rights of private citizens will be the topic of a panel discussion featuring renowned linguist and MIT professor Noam Chomsky, NSA whistleblower Edward Snowden, and Intercept co-founding editor Glenn Greenwald. Nuala O’Connor, president and CEO of the Center for Democracy and Technology, will act as moderator.

Chomsky and Greenwald will appear in person at the event, hosted in Tucson by the University of Arizona College of Behavioral Sciences, while Snowden will appear via videoconference.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Em homenagem a Peter Shaffer - "Equus"



Realização de Sidney Lumet, argumento de Peter Shaffer

World Press Cartoons 2015 - 13


Future Special - Angel Boligán - México, 2º prémio gag cartoon

Lettre de Franz Kafka à Milena Jesenská


Voilà déjà bien longtemps, Madame Milena, que je ne vous ai plus écrit, et, aujourd’hui encore, je ne le fais que par suite d’un hasard. Je n’aurais pas au fond à excuser mon silence, vous savez comme je hais les lettres. Tout le malheur de ma vie — je ne le dis pas pour me plaindre, mais pour en tirer une leçon d’intérêt général — vient, si l’on veut, des lettres ou de la possibilité d’en écrire. Je n’ai pour ainsi dire jamais été trompé par les gens, par des lettres toujours ; et cette fois ce n’est pas par celles des autres mais par les miennes. Il y a là en ce qui me concerne un désagrément personnel sur lequel je ne veux pas m’étendre, mais c’est aussi un malheur général. La grande facilité d’écrire des lettres doit avoir introduit dans le monde — du point de vue purement théorique — une terrible dislocation des âmes : c’est un commerce avec des fantômes, non seulement avec celui du destinataire, mais encore avec le sien propre ; le fantôme grandit sous la main qui écrit, dans la lettre qu’elle rédige, à plus forte raison dans une suite de lettres, ou l’une corrobore l’autre et peut l’appeler à témoin. Comment a pu naître l’idée que des lettres donneraient aux hommes le moyen de communiquer ? On peut penser à un être lointain, on peut saisir un être proche : le reste passe la force humaine. Ecrire des lettres, c’est se mettre nu devant les fantômes ; ils attendent ce moment avidement. Les baisers écrits ne parviennent pas à destination, les fantômes les boivent en route. C’est grâce à cette copieuse nourriture qu’ils se multiplient si fabuleusement. L’humanité le sent et lutte contre le péril ; elle a cherché à éliminer le plus qu’elle le pouvait le fantomatique entre les hommes, elle a cherché à obtenir entre eux des relations naturelles, à restaurer la paix des âmes en inventant le chemin de fer, l’auto, l’aéroplane ; mais cela ne sert plus de rien (ces inventions ont été faites une fois la chute déclenchée) ; l’adversaire est tellement plus calme, tellement plus fort ; après la poste, il a inventé le télégraphe sans fil. Les esprits ne mourront pas de faim, mais nous, nous périrons.

Je m’étonne que vous n’ayez encore rien publié à ce sujet ; non pour empêcher, par exemple, ou pour obtenir quelque chose en faisant éditer vos considérations ; il est trop tard ; mais pour « leur » montrer que du moins on les a reconnus.

L’exception peut d’ailleurs aussi permettre de les identifier ; ils laissent parfois, en effet, passer une lettre sans obstacle, elle vient se poser dans votre main, légère, affectueuse comme la main d’un ami. Attention ! Ce n’est encore là vraisemblablement qu’apparence. De tels cas sont peut-être les plus dangereux, ceux dont il faut se méfier le plus ! Mais, du moins, si c’est une illusion, elle est parfaite.

Il m’est arrivé aujourd’hui une aventure de ce genre, c’est elle qui me pousse à vous écrire ; j’ai reçu la lettre d’un ami, que vous connaissez, vous aussi : il y a longtemps que nous ne nous écrivons plus, ce qui est extrêmement raisonnable : les lettres, vous avez vu plus haut ce que j’en disais, sont en effet un prodigieux antisomnifère. En quel état n’arrivent-elles pas ! Désséchées, vides et irritantes, joies de l’instant, que suit une longue souffrance. Tandis qu’on s’oublie à les lire, le peu de sommeil qu’on a se lève et s’envole par la fenêtre ouverte ; il ne reviendra pas de sitôt. Aussi ne nous écrivons-nous pas. Mais je pense souvent à cet ami, bien que trop fugitivement : ma pensée tout entière est bien trop fugitive. Pourtant, hier soir, j’ai songé à lui pendant des heures ; ces heures de nuit, qui me sont si précieuses à cause de leur hostilité, je les ai employées à lui écrire dans ma tête une lettre où je ne cessais de lui répéter sans fin avec les mêmes mots des choses qui me paraissaient d’une extrême importance. Et, de fait, j’ai reçu de lui une lettre ce matin ; elle disait que, depuis un mois, il avait l’impression qu’il devait venir me voir, ou, plus exactement, qu’il avait eu ce sentiment il y a un mois, et cette remarque coïncide singulièrement avec des choses que j’ai vécues.

Cette histoire de lettre m’a incité à en écrire une, et maintenant que c’est chose faite, comment ne pas vous écrire à vous aussi, Madame Milena, qui êtes peut-être la personne du monde à qui j’aime le mieux écrire (pour autant qu’on puisse aimer cette occupation ; mais je n’entends parler ici que pour les fantômes qui assiègent ma table avec concupiscence).