quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A escravatura nunca acabou" - Alexandra Lucas Coelho


Querer lutar contra a escravatura que existe hoje é mais uma razão — e não menos uma razão — para enfrentar o que aconteceu há séculos.


1. Esta semana, a CNN revelou imagens de homens a serem vendidos na Líbia por algumas centenas de dólares. As imagens foram replicadas pelo globo, e entregues às autoridades líbias. O leilão filmado pela CNN, com câmara escondida, nos arredores de Tripoli, aconteceu no mês passado. Vários outros estavam a acontecer não muito longe, disse a repórter. Em Agosto, a CNN recebera imagens de homens a serem licitados na Líbia pelo equivalente a 400, 700, 800 dólares. Foi assim que, ao fim de dois meses de preparativos, uma equipa aterrou em Tripoli para tentar filmar essas vendas de migrantes do Niger, do Gana, da Nigéria, do Mali. No leilão a que os enviados tiveram acesso, a licitação sucedeu rapidamente: 400, 450, 550, 600, 650, 700... Em minutos, 12 nigerianos foram vendidos. Os traficantes chamaram-lhes “mercadoria”.

A reportagem mostra também um dos centros de detenção líbios em que se concentram dezenas de milhares de migrantes. Alguns deles confirmam a existência de leilões, contam que foram vendidos, sujeitos a trabalho forçado, abusos, espancamentos, mutilações.

A Líbia é um trampolim para tentar passar o Mediterrâneo. As autoridades estão a impedir as viagens de barco, de acordo com os interesses da União Europeia. Reféns dos traficantes que lhes prometiam a Europa, incontáveis migrantes acabam vendidos e revendidos.

2. As imagens da CNN mostram o que geralmente não é filmado, e têm grande poder de circulação. Mas a escravatura actual está longe de se resumir aos leilões na Líbia. O relatório do Global Slavery Index 2016 contabiliza 45,8 milhões de pessoas escravizadas em todo o mundo. Por escravizadas entende-se: trabalho forçado, casamento forçado, exploração sexual e trabalho imposto pelo estado. Mais de metade destes escravizados (58 por cento) vivem em cinco países asiáticos: Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Uzbequistão. Em termos absolutos, a Índia é, de longe, o país do mundo com mais escravizados: acima de 18 milhões. Em termos relativos, quanto à percentagem de população escravizada, a Coreia do Norte está em primeiro lugar. Depois da Ásia, a África é a parte mais significativa deste horror, com vários países nos 10 primeiros lugares, quanto a percentagem de população escravizada. Como o índex sublinha, muitas destes cativos contemporâneos, sobretudo na Ásia, são a mão-de-obra de produtos depois comercializados na Europa, nos Estados Unidos, no Japão ou na Austrália.

Portugal aparece mais para o fim do índice (122º país) com 12.800 pessoas em situação de escravatura. O relatório indica-o como um dos 10 países do mundo que mais se têm esforçado para combater a escravatura moderna. Mas 12.800 pessoas ser um dos números mais baixos dá a dimensão do horror.
A grande maioria das pessoas escravizadas no mundo é mulher, 71 por cento. Elas são maioritárias em três categorias, incluindo trabalho forçado. A excepção é o trabalho forçado pelo estado, aí os homens são mais. E uma em cada quatro pessoas escravizadas não é adulta: 25 por cento de crianças.

3. Nigéria, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Líbia, Somália, Sudão, Sudão do Sul, Mauritânia são os países africanos nos dez primeiros lugares do index, em termos proporcionais (vários deles empatados). Mas, dada a dificuldade de registos, é provável que os números reais sejam muito maiores. Em alguns destes países vigora ainda, ou vigorou até há pouco, o estatuto oficioso de “servo” ou “descendente de escravo”: pessoas, por vezes famílias inteiras, que podem ser herdadas, vendidas ou dadas de presente. Muitas das mulheres com esse estatuto são usadas sexualmente, incluindo crianças. Muitas das crianças com esse estatuto não têm direito a escola. Em países como a Mauritânia esse estatuto pode abranger uma larga fatia da população. O antropólogo português Francisco Freire — que há anos acompanha a Mauritânia, e com quem falei antes de escrever esta crónica — acha que os 43 mil escravizados mauritanos referidos no Global Slavery Index 2016 estão muito aquém da realidade. Talvez um terço da população (pouco mais de quatro milhões) sofra ainda o impacto desse estigma.

4. A escravatura existe desde tempos imemoriais e nunca acabou. Algumas regiões de África praticavam-na antes de os navegadores portugueses terem chegado para a multiplicar e estimular, encorajando africanos a trazerem do interior cada vez mais “peças” humanas, de modo a alimentar o tráfico atlântico.
E a escravatura continuar a existir hoje, querer combatê-la, é mais uma razão — e não menos uma razão — para enfrentar de facto o que aconteceu há séculos, reconhecendo uma continuidade histórica de abuso e violência. No caso particular de Portugal, o que aconteceu entre os séculos XV e XIX. Se o império português foi a maior potência esclavagista do Atlântico durante vários séculos, essa memória tem de ser tributo e acção no presente. Não se trata de perder tempo com o tempo que já lá vai, quando o presente nos convoca para vidas em perigo. É também por essas vidas em perigo agora, essa desumanização brutal, que as crianças devem receber na escola uma imagem mais completa e justa do que aconteceu durante a expansão marítima portuguesa, terem acesso à escala: 5,8 milhões de pessoas escravizadas, tiradas de África, pelo império português. Tal como os políticos têm de integrar isto nos seus discursos de louvação à empreitada marítima. Tal como a cidade de Lisboa tem de reconhecer a existência destes milhões de pessoas junto aos monumentos glorificadores das navegações. Tudo isso junto é presente e futuro, é dignificação dos retirados da história, é tributo aos netos dos escravizados, é política aqui e agora, relevante para todos os que vivem juntos, de todas as cores e tons. Dará força a quem está vivo hoje, sobretudo aos que diariamente são alvo de indignidades, discriminação.
Que as crianças possam ter uma noção do horror da escravatura é a primeira base para combater o horror de hoje, bem além das notícias como o leilão da Líbia que em breve desaparecerão do “prime time”, e da comoção.
Líbia onde, aliás, a NATO interveio em 2011, para não falar da Somália ou dos tantos pedaços de caos espalhados por África, com mão das alianças do Norte.





terça-feira, 21 de novembro de 2017

Hoje é dia de Magritte


"China’s Vision for the Next 30 Years" - Zhang Jun


Achieving the lofty development goals China's leaders have set will not be easy. But with a clear development blueprint and a powerful leader whose political clout all but guarantees continued reform, the country seems to be in a strong position to sustain its unprecedented economic success in the coming decades.

"'The Darkness of Humans’: Investigating Mass Rape in Burma"


The Burmese military is carrying out a campaign of ethnic cleansing against Rohingya Muslims in northern Rakhine State. Scores of people have been murdered and hundreds of villages destroyed, and more than 600,000 Rohingya have fled to neighboring Bangladesh. One of the military’s most feared weapons is mass sexual violence, with untold numbers of women and girls brutally gang raped by government soldiers. Human Rights Watch’s emergencies women’s rights researcher, Skye Wheeler, tells Stephanie Hancock how she was able to investigate these disturbing crimes.

domingo, 12 de novembro de 2017

Hoje é dia de Paulinho da Viola


Paulinho da Viola

"Paradises of the earth", Part 1: Gabes


Defying the artificial borders that divide them, a “solidarity caravan” of North African activists embarks on an unlikely trip to visit Tunisian communities fighting social and environmental injustice. As their white bus skirts across southern Tunisia’s arid landscape, they stop by three towns deeply affected by the country’s rabid phosphate industry and one where farmers have successfully taken back their lands. Not coincidentally, these towns are also the cradles of the 2011 revolutions which swept through their countries. For many in this caravan, these uprisings failed to not only confront oppressive socio-economic conditions in which their people lived for decades, but also environmental ones. Like many other places in the world, North Africa, has seen its resources plundered by extractivist industries which plow through the natural landscape. Often anchoring itself by making poor communities dependent on polluting industries, extractivism maintains the accumulation of capital by sacrificing people and nature. It destroys the ecosystems in its path, displacing people and leaving those who remain with nothing more than toxic waste. For this solidarity caravan, these polluting industries are just one aspect of the neocolonialism that subjugates their peoples. Each of the four episodes focuses on a different town: the polluted coastal oasis of Gabes; the dusty phosphate mining towns of Redeyef and Oum Laarayes and, finally the hope-filled experience of the collectivised lands in Djemna.

Part 1: Gabes - قابس (English subtitles) from Paradises of the Earth on Vimeo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Hoje é dia de Dylan Thomas



"The Most Influential Images of All Time" - 20: Unknown photographer


Lunch Atop a Skyscraper - Unknown

It’s the most perilous yet playful lunch break ever captured: 11 men casually eating, chatting and sneaking a smoke as if they weren’t 840 feet above Manhattan with nothing but a thin beam keeping them aloft. That comfort is real; the men are among the construction workers who helped build Rockefeller Center. But the picture, taken on the 69th floor of the flagship RCA Building (now the GE Building), was staged as part of a promotional campaign for the massive skyscraper complex. While the photographer and the identities of most of the subjects remain a mystery—the photographers Charles C. Ebbets, Thomas Kelley and William Leftwich were all present that day, and it’s not known which one took it—there isn’t an ironworker in New York City who doesn’t see the picture as a badge of their bold tribe. In that way they are not alone. By thumbing its nose at both danger and the Depression, Lunch Atop a Skyscraper came to symbolize American resilience and ambition at a time when both were desperately needed. It has since become an iconic emblem of the city in which it was taken, affirming the romantic belief that New York is a place unafraid to tackle projects that would cow less brazen cities. And like all symbols in a city built on hustle, Lunch Atop a Skyscraper has spawned its own economy. It is the Corbis photo agency’s most reproduced image. And good luck walking through Times Square without someone hawking it on a mug, magnet or T-shirt.

"The Germans are making contingency plans for the collapse of Europe. Let’s hope we are, too" - Paul Mason


A leaked defence document has revealed the country’s worries about the breakup of the global order – a scenario with serious consequences for post-Brexit Britain

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"This is not just about Catalonia. This is about democracy itself" - Carles Puigdemont


Spain has imposed a political agenda that goes against the will of the majority of Catalans. We will defend our rights to the end

Hoje é dia de Sophia de Mello Breyner



Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia



terça-feira, 24 de outubro de 2017

"ONU" - 72 anos






ONU

"The Most Influential Images of All Time" - 19: Philippe Halsman


Dalí Atomicus - Phillipe Halsman

Capturing the essence of those he photographed was Philippe Halsman’s life’s work. So when Halsman set out to shoot his friend and longtime collaborator the Surrealist painter Salvador Dalí, he knew a simple seated portrait would not suffice. Inspired by Dalí’s painting Leda Atomica, Halsman created an elaborate scene to surround the artist that included the original work, a floating chair and an in-progress easel suspended by thin wires. Assistants, including Halsman’s wife and young daughter Irene, stood out of the frame and, on the photographer’s count, threw three cats and a bucket of water into the air while Dalí leaped up. It took the assembled cast 26 takes to capture a composition that satisfied Halsman. And no wonder. The final result, published in LIFE, evokes Dalí’s own work. The artist even painted an image directly onto the print before publication.

Before Halsman, portrait photography was often stilted and softly blurred, with a clear sense of detachment between the photographer and the subject. Halsman’s approach, to bring subjects such as Albert Einstein, Marilyn Monroe and Alfred Hitchcock into sharp focus as they moved before the camera, redefined portrait photography and inspired generations of photographers to collaborate with their subjects.


"The Architecture of Democracy’s Processes" - Arun Maira


It is not enough for a democracy in the 21st century to make decisions by up-down majoritarian votes.

domingo, 22 de outubro de 2017

"How to hide evidence of torture inside Russia’s prison system" - Anastasia Zotova


In Russia, law enforcement quickly puts pressure on prisoners who come forward about torture inside the prison system.

World Press Cartoon 2017- 2º prémio Editorial


Attack to Nice - Michael Kountouris

Lettre de Camille Claudel à Auguste Rodin


Camille Claudel (8 décembre 1864 – 19 octobre 1943) figure aujourd’hui parmi les femmes artistes les plus célèbres, grâce à une oeuvre aussi puissante que subtilement sensible. Cette lettre envoyée à Auguste Rodin fait figurer l’une des phrases les plus célèbres de la sculptrice ; phrase qui se retrouvera plus tard inscrite sur sa pierre tombale, dessinant le portrait d’une artiste engagée dans son art et qui reste encore, à bien des égards, incomprise.


Cher ami,

Je suis bien fâchée d’apprendre que vous êtes encore malade. Je suis sûre que vous avez encore fait des excès de nourriture dans vos maudits dîners, avec le maudit monde que je déteste, qui vous prend votre santé et qui ne vous rend rien. Mais je ne veux rien dire car je sais que je suis impuissante à vous préserver du mal que je vois.

Comment faites-vous pour travailler à la maquette de votre figure sans modèle ? Dites-le moi, j’en suis très inquiète. Vous me reprochez de ne pas vous écrire assez long. Mais vous-même vous m’envoyez quelques lignes banales et indifférentes qui ne m’amusent pas.

Vous pensez bien que je ne suis pas très gaie ici ; il me semble que je suis loin de vous ! et que je vous suis complètement étrangère. Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente.

Je vous raconterai mieux ce que j’ai fait quand je vous verrai. Je vais jeudi prochain chez Miss Faucett, je vous écrirai le jour de mon départ d’Angleterre. D’ici là, je vous en prie, travaillez, gardez tout le plaisir pour moi. Je vous embrasse.