sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

"Acabou o teatro dos EUA entre Israel e Palestina" - Alexandra Lucas Coelho


Tendo os EUA declarado unilateralmente o vencedor, algo vai explodir, gente vai morrer, o mal vai dar-se bem, e os oportunistas do mal vão surfar. Se a ONU ou a Europa querem fazer cumprir as resoluções que aprovaram, este será um bom momento para fazer a diferença. Fazer algo, enfim.

1. Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017, foi um dia bombástico, daqueles que vão aparecer nas cronologias do futuro. “Hoje, finalmente reconhecemos o óbvio: que Jerusalém é a capital de Israel”, anunciou Donald Trump. “Isto não é mais, nem menos, do que o reconhecimento da realidade. É também a coisa certa a fazer.” Como tal, a embaixada dos Estados Unidos da América será transferida de Telavive para Jerusalém, adiantou. Um ególatra imprevisível, colhendo o mundo de surpresa, incluindo os que supostamente têm sido seus interlocutores.

Eu estava em Jerusalém quando Trump visitou a cidade, em Maio passado. Acompanhei a histeria da expectativa, se a transferência da embaixada seria anunciada. Não. E agora este súbito anúncio põe fim a uma encenação de décadas: a dos EUA como mediador do “processo de paz” israelo-palestiniano. As aspas são porque não há processo de paz nenhum. Portanto, o anúncio de Trump não o inviabiliza, como muita gente tem lamentado. O que faz é puxar o tapete a quem se esforçava por manter a ideia de que os EUA estavam empenhados num “processo de paz”. Desde que Israel é Israel, todos os presidentes americanos fizeram, mais ou menos, esse esforço. Era estratégico, dominou a política da Casa Branca, e o que muitos comentadores americanos parecem lastimar mais no anúncio de Trump é que ele retire aos EUA o protagonismo de sempre.

2. Trump sendo Trump, ainda teve o desplante de dizer: “Mas estamos confiantes de que, no fim, depois de trabalharmos os desentendimentos, chegaremos a um lugar de maior compreensão e cooperação”. Mais: “Queremos um acordo que seja óptimo para israelitas e para palestinianos.” Qual o sentido disto? O mundo não sabe. Trump continua a ter um plano para aquela parte do mundo? O mundo não sabe, mas seja qual for esse plano Trump já declarou unilateralmente o vencedor, portanto não é um plano de paz.

A única coisa certa é que, tendo os EUA declarado unilateralmente o seu vencedor, algo vai explodir, gente vai morrer, o mal vai dar-se bem, e os oportunistas do mal vão surfar. Se a ONU ou a Europa querem fazer cumprir as resoluções que aprovaram, este será um bom momento para fazer a diferença. Fazer algo, enfim.

3. Porque é que reconhecer Jerusalém como capital de Israel chuta os EUA para fora de qualquer mediação a sério? Porque o estatuto de Jerusalém é uma questão central em qualquer acordo já discutido e por discutir. Além de santa para três religiões monoteístas, Jerusalém é reclamada como capital tanto por israelitas como por palestinianos. À luz da lei internacional, oficialmente, o actual estatuto de Jerusalém é o de uma cidade dividida, em que Jerusalém Ocidental faz parte de Israel e Jerusalém Leste é território palestiniano ocupado por Israel.

Isto não é matéria de opinião, é lei aprovada pela grande maioria dos países na ONU. Jerusalém Leste foi não só ocupada por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, como posteriormente anexada, violando todas as resoluções das Nações Unidas sobre o assunto. Esta anexação significa que aos sinais visíveis da divisão foram eliminados, e que catadupas de judeus radicais começaram a instalar-se na parte ocupada.

Hoje, Jerusalém Leste está cercada por um muro de betão, com check points nos vários acessos, a transbordar de colonos. Emudeceu a vibração da vida palestiniana que sempre existiu ali, tantos são os entraves que Israel criou, físicos, burocráticos, legais. Não só uma parte da população palestiniana de Jerusalém ficou de fora do muro, como muito do que se passava do lado de dentro se transferiu para Ramallah, desde instituições a festas de casamento, para evitar a dificuldade de acesso a Jerusalém. Gente debandou, organizações internacionais sediaram-se na Cisjordânia, parte dos visitantes da Palestina vêm pela Jordânia e não ficam alojados em Jerusalém.

Há 15 anos que visito esta cidade, já morei nela, passei lá um mês este ano. A vida de Jerusalém Leste foi-se escoando a olhos vistos. Os palestinianos sentem-se acossados na sua própria cidade.

4. Então, a realidade é que Israel fez o que quis de Jerusalém desde 1967, criou os factos no terreno que entendeu, os colonatos que lhe deu na gana, até que um presidente dos EUA, não por acaso este, chegou ao ponto de declarar que reconhecer Jerusalém como capital de Israel é reconhecer a realidade.

Israel nunca se viu realmente confrontado com a ilegalidade do que tem feito, de forma crescente, desde 1967. Os Estados Unidos nunca foram confrontados com o facto de serem árbitros e ao mesmo tempo principais aliados de uma das partes. Sempre houve aqui um conflito de interesses e toda a gente assobiou para o ar.

O mundo, em suma, permitiu que as resoluções da ONU não passassem de retórica, repetida vezes sem conta. Mas, ainda assim, uma retórica poderosa o suficiente para manter a generalidade das embaixadas em Telavive. Qualquer aprendiz de diplomata sabe que há uma linha vermelha aqui: que instalar a embaixada em Jerusalém é tomar oficialmente um partido. Muita gente bem intencionada, pouco familiarizada com o terreno, ainda acredita num acordo de paz em que poderia haver uma embaixada em Jerusalém Ocidental, outra em Jerusalém Leste, duas capitais, uma para israelitas, outra para palestinianos. Mas quem conhece bem o terreno sabe o quanto isso se tem tornado cada vez mais difícil. E não está nem remotamente nos planos do governo de Telavive. Que não haja dúvida aqui: Israel não vai abdicar nunca de uma parte de Jerusalém, a não ser que o mundo o force a isso.

“Não há paz que não inclua Jerusalém como capital do Estado de Israel”, declarou agora, mais uma vez, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, na sua celebração do anúncio de Trump. A Cidade Velha, coração de Jerusalém, foi iluminada com as cores da bandeira estado-unidense. Israel agradecendo ao seu fornecedor de sempre, financiador, armador, carne da sua carne, em muito. E abre-alas: “Apelo a todos os países que desejam a paz para se juntarem aos Estados Unidos no reconhecimento da capital de Israel e mudarem as suas embaixadas para aqui”, rematou Bibi.

5. Não teve muita sorte até agora. Vários responsáveis europeus (incluindo o ministro português) já disseram que não vão mudar as embaixadas. Mas nenhum foi tão contundente, que eu tenha ouvido, como o presidente francês Macron: “Esta é uma decisão lamentável que a França não aprova e que vai contra a lei internacional e todas as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.” Disse o evidente, mas a realidade tem caminhado tanto para o absurdo que o evidente muitas vezes não é dito.

É Macron quem vai ocupar o espaço de mediador deixado livre pelos EUA? Ou será Putin, el tzar, ególatra de outra espécie, certamente menos infantil do que Trump. O que falta ao mundo saber das relações Trump-Putin? E quem fará frente a Putin?

6. António Guterres: gostaria de ter ouvido algo mais do secretário-geral das Nações Unidas, quando a primeira potência do mundo põe assim em causa décadas de resoluções das Nações Unidas. Também gostaria que a ONU reflectisse sobre os efeitos perversos de ser quem assegura educação, saúde, alimentação e abrigo a tantos palestinianos, contribuindo assim, na prática, há décadas para literalmente sustentar a ocupação, desresponsabilizando Israel. Claro que a intenção não é essa, mas o resultado é.

7. Papa Francisco: falou, mas pode dizer mais, talvez o que nunca foi dito pela igreja.

8. E as igrejas cristãs, os cristãos em geral: o que Israel tem feito é utilizá-los, sistematicamente. Utilizar o turismo religioso como fonte de lucro, uma das grandes receitas israelitas, parte do orçamento da ocupação. Claro, cada cristão é livre de ir e fazer o que quiser, mas que tenha noção de onde está, como está e o que isso significa. É uma escolha sua, contribuirá sempre para algo.

9. Em Maio, Trump foi a Jerusalém acompanhado da filha Ivanka e do genro Jared Kushner, judeu e seu conselheiro neste tema. Estive no colonato extremista em que Jared tem investido, Bet El, na Cisjordânia. Um daqueles colonatos que acham que Israel é fruto de Deus, e a Guerra dos Seis Dias uma dádiva de Deus, e todo aquele território uma dádiva ao povo eleito. Costurando as pontas, faz todo o sentido este anúncio. Jared o terá cozinhado.

10. Posto tudo isto, espanta a alguém uma nova intifada? Quem não era por ela ficou mais perto.
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