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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

MARGARITA CORREIA - "As reformas ortográficas não são feitas para os velhos. São feitas para o futuro."



Margarita Correia é linguista e especialista em lexicologia. Dito de
outra forma, estuda as palavras como se as colocasse num microscópio. A professora
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa assumiu agora um cargo que
também é “diplomático”. Foi eleita presidente do Conselho Científico do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa, um organismo que pertence à CPLP. A diversidade
cultural e a mudança não a assustam. É filha de emigrantes que foram para a
Venezuela nos anos 1950 e foi lá que nasceu. Defende o Acordo Ortográfico e avisa
que este é um caminho sem retorno, pensado para as novas gerações.

Entrevista aqui.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Curiosidades da língua portuguesa - "Desopilar o fígado"

Significado: Desopilar o fígado significa fazer rir mesmo os que estão doentes.

Origem: Digestões difíceis ou crises hepáticas provocam perturbações físicas com efeitos psicológicos. Por isso, quem se livra dessas dores passa a ter boa disposição.

Por uma figura de estilo denominada metalepse, o efeito substitui a causa porque se acredita que aquilo que faz rir beneficia quem estiver a sofrer de dores hepáticas. É uma crendice ingénua, mas fortemente enraizada.

domingo, 23 de junho de 2013

Curiosidades da língua portuguesa - "Andar com o credo na boca"


Significado: Sentir medo de correr perigo.

Origem: A expressão está ligada ao sofrimento do povo judeu e da criação da Santa Inquisição no século XVI, em Portugal, pelo rei D. João III. Quando este poderosíssimo tribunal católico iniciou a sua perseguição, muitos judeus fizeram-se passar por cristãos (e quem os censura?). Para que o disfarce fosse eficaz, decoravam a oração mais importante de então, o “Credo” (“Creio” em latim), e debitavam-na à frente dos carrascos e dos santos padres da Igreja. Foi assim que vários conseguiram escapar à fogueira…

domingo, 12 de maio de 2013

Curiosidades da língua portuguesa - "Unhas de fome"



Significado: Pessoa avarenta e mesquinha; sovina, catinga.

Origem: O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa regista unha-de-fome e unhas-de-fome.

Não é clara a origem desta expressão, embora haja uma série de locuções, de sentido negativo ou depreciativo, em que unha participa.

O referido dicionário indica algumas delas: «à unha: manualmente, com as mãos Ex.: pegar o touro à unha a unha ou a unhas de cavalo: a toda pressa; apressadamente a unhas: com muito esforço; trabalhosamente deitar as unhas em: 1 apoderar-se com fraude ou violência de; 2 segurar ou agarrar (algo ou alguém) enterrar ou meter a unha: cobrar preço exorbitante estar na unha: Regionalismo: Rio Grande do Sul. Uso: informal. estar sem dinheiro fazer as unhas: fazer higiene das unhas, cortando-as, lixando-as e embelezando-as com esmalte mostrar as unhas: revelar aspectos desagradáveis de sua personalidade, esp. suas tendências autoritárias por uma unha negra Regionalismo: Portugal: por pouco, por um triz ter na ou nas unhas: estar de posse de; ter em seu poder ter unha: ser perito na viola ter unhas na palma da mão: ser ladrão, ter o hábito de roubar»

É curioso que nestas expressões se transmite a ideia de avidez, agressividade e escassez (financeira ou metafórica).

Talvez a expressão em causa tenha que ver com imagem de alguém que “deita as unhas” a tudo, não deixando nada a ninguém, o que pode metaforicamente corresponder a deixar os outros à fome. Historicamente, podemos conjecturar que a expressão se relaciona também com outra imagem negativa, por exemplo, a que os cristãos tinham dos judeus que conseguiam obter rendimentos dos bens que acumulavam à custa das suas poupanças. Pode-se ainda imaginar que, dado que a unha ou as unhas simbolizam as garras que possuem alguns animais, aqueles que agarram o dinheiro ou os bens e não gastam nem sequer para comer tornam-se piores que os animais, porque esses, pelo menos, saciam a sua fome.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Curiosidades da língua portuguesa - "Dar um lamiré"


Significado: Sinal para começar alguma coisa.

Origem: Trata-se da forma aglutinada da expressão «lá, mi, ré», que designa o diapasão, instrumento usado na afinação de instrumentos ou vozes; a partir deste significado, a expressão foi-se fixando como palavra autónoma com significação própria, designando qualquer sinal que dê começo a uma atividade.

domingo, 8 de julho de 2012

Curiosidades da língua portuguesa - "Fila indiana"

Fila indiana
Significado: enfiada de pessoas ou coisas dispostas uma após outra.

Origem: Forma de caminhar dos índios da América que, deste modo, tapavam as pegadas dos que iam na frente.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Curiosidades da língua portuguesa - "Andar a toque de caixa"

Andar a toque de caixa

Significado: Fazer qualquer coisa depressa, com tempo limitado e, eventualmente, a mando de alguém, sem vontade própria.

Origem: Termo simplificado de caixa de rufo ou caixa de guerra — era a designação de tambor, que foi trazido para a Europa pelos Árabes. A caixa é o corpo oco do tambor: a caixa de ressonância. Como os exercícios militares eram acompanhados pelo som de tambores, dizia-se que os soldados marchavam a toque de caixa.

É por isso que hoje se diz que alguém anda a toque de caixa quando tem de fazer qualquer coisa depressa, eventualmente a mando de alguém ou à força, mesmo.

Por outro lado, na Idade Média, era costume escorraçar os indesejáveis (ébrios, indolentes, arruaceiros ou ladrões) ao som de tambores — ou seja, a toque de caixa — para fora das localidades, expulsando-os da comunidade.

A toque de caixa dizia-se, portanto, da situação de alguém que era obrigado a desaparecer, a fugir, de forma rápida e violenta

quarta-feira, 7 de março de 2012

Curiosidades da língua portuguesa - "Noiva de Arraiolos"


Significado: Alguém que demora demasiado tempo a arranjar-se.

Origem: A lenda que dá origem a esta expressão conta que uma donzela cristã que vivia na vila de Arraiolos teve de esperar muito tempo pelo seu noivo que foi combater os mouros. Passados vários anos, preparou-se novamente o casamento tendo a noiva feito esperar durante longo tempo o noivo. Apareceu então coberta com uma albarda, numa tentativa de recuperar a beleza e juventude de outros tempos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"O acordo 20 anos depois"


Este artigo foi escrito por Henrique Monteiro no Atual de sábado passado.

Dedicou-o a Vasco Graça Moura e a todos os opositores do Acordo Ortográfico. Eu também o dedico pois nele me revejo inteiramente.

A minha adesão ao Acordo Ortográfico (AO) tem a ver simultaneamente com confiança e humildade. Confio na sabedoria de quem o fez (não na sua infalibidade) e sou suficientemente humilde para reconhecer que muitos aspetos que dizem respeito à etimologia e à fonética, tais como outros menos relevantes para este caso, me escapam. Além da confiança e respeito por nomes como Lindley Cintra ou António Houaiss, de que não vejo muita gente comungar, mas antes desprezar, dediquei eu próprio algum tempo ao assunto. E, uma vez que faço da escrita a minha profissão há mais de 30 anos, penso ter algo a dizer.

Rodrigues Lapa, que foi um mestre da língua portuguesa, filólogo distinto, sustinha que as mudanças de ortografia eram sempre violentas. Esta asserção é hoje inteiramente justificada pela quantidade de pessoas que apenas se opõem ao Acordo "porque sim" - sem quaisquer argumentos.

A verdade é que ninguém se conforma, depois de ter sido obrigado a pôr um "p" em ótimo, agora lhe dizerem que esse "p" (no qual nunca encontrou utilidade) não faz falta. Há quem argumente com esse pai tirano, o latim, e com a etimologia da palavra optimus. A palavra sem o "p" perderá a identidade. Alguns enxofram-se e dizem que lhes matamos o português! Mas qual português, Santo Deus (ou melhor diria Sancto Deus?). O português do assucar ou do açúcar? O de Viseu ou Vizeu?

"Philosophia", "pharmacia" ou "phleugma" também terão perdido essa identidade (para filosofia, farmácia ou fleuma)? Ora, o facto de o "phi" grego deixar de se distinguir do "f" na grafia não me parece ter provocado dano ao idioma. Mas há, insistem, o problema do fechamento das vogais. Ou seja, a mania portuguesa (que não brasileira, angolana ou moçambicana) de comer as vogais. Este argumento é o que afirma que passaremos" a dizer "aspêto" em vez de "aspéto", uma vez que a retirada do c fecha a vogal. Pode parecer um argumento poderoso, mas não é. Não dizemos "Mêlo" desde que o apelido deixou de se escrever "Mello" ("Vasconcellos" ou "Sampayo" também se dizem do mesmo modo).
Reparem - e repare o execelente poeta e tradutor, a quem o texto é dedicado - que a forma de acentuar nada ou pouco tem a ver com o modo de escrever, mas sim com o modo de ouvir. Logo ele, que nasceu na Foz do Douro, bastava-lhe andar até à Ribeira para ouvir dizer "Puârto" e muitas outras coisas que foram morrendo com a voragem unificadora fonética da televisão. No norte dizia-se "baca" sendo a palavra com "v"; e o macho da "baca" era "voi" apesar de lá estar um"b". Mais estranho: em Lisboa sempre se disse "contiúdo" apesar do "e", ao contrário de Coimbra e Porto onde se diz "contêúdo". Em Lisboa, "ôito", "dezóito", "vinte e ôito"; no Porto, "óito", "dezôito" e "vinte e óito". E sempre se escreveu da mesma forma... Aliás, segundo a professora Maria Helena da Rocha Pereira, o fechamento das vogais pré-tónicas começou em Portugal em finais do século XVII ou princípios do século XVIII - ainda não havia acordos nenhuns.
Agora, se me perguntarem por que razão em 1911 "pae" passou a "pai" e "mãi" passou a "mãe" (como até hoje se escreve) não sei dizer, do mesmo modo que me irrita o "espetador" no acordo atual. Mas a propósito daqueles que juram que "espetador" não distingue o que assiste a um espetáculo de um picador de gelo, refiro a frase: senti os pelos eriçarem-se pelos braços. E eis que toda a gente compreende onde está o quê. Ainda sobre as confusões e fechamentos e aberturas de vogais, vejam a frase: "Gosto particularmente do teu gosto" - quando a leem dizem (pelo menos os cultos, como o presidente do CCB) "gósto" e "gôsto" instintivamente. Como em "Faz força e força aquela porta" sabem que primeiro é "fôrça" e depois "fórça".
Permitam-me, ainda, referir que, durante a minha vida, "sòzinho" ou "sòmente" perderam o acento. Pois bem, nunca notei qualquer inflexão (para "suzinho" ou "sumente") no modo de pronunciar aquelas e muitas outras palavras (advérbios de modo e diminutivos) a que aconteceu o mesmo.
Há ainda os que afirmam não gostar do acordo por razões estéticas. É aceitável. Mas a ortografia, sendo uma representação, não pode agradar a todos, e menos ainda reproduzir a pluralidade (e até pessoalidade) de pronúncias e modos de dizer. Exigi-lo seria como pedir a um pintor que pintasse o céu não como ele o vê, mas como cada um de nós, pessoalmente, o vê. Tarefa impossível.
Posto isto, o AO é importante porque aproxima da fonética uma série de palavras. E fá-lo, pela primeira vez, em função de um idioma que, sendo português, é também propriedade, matriz e identidade de outros povos e de outras latitudes. Cedemos? Não sei, nem me importa. Não quero uma língua para me distinguir do Brasil. Prefiro uma que me aproxime. E quem diz Brasil, que tem 200 milhões de falantes, diz naturalmente Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Timor.
Respeito o argumento de que a língua deve evoluir por ela, sem intervenção governamental. Creio, no entanto, que deve haver uma única e determinada ortografia nos manuais escolares e nos documentos. Ainda que cada escritor (como cada editora ou jornal) prefira o seu modo de escrever (Pessoa nunca respeitou o acordo de 1911), a ortografia escolar e oficial não poder ser espontânea nem à vontade do freguês. Acrescento que, curiosamente, nenhum de nós (ou quase) lê Pessoa (nem Eça, nem Camilo, nem sequer Aquilino ou Nemésio) na ortografia que os autores escolheram, assim como, apesar de usarmos a língua de Camões, há muito que não grafamos as palavras como ele ("Armas & os barões" ou "Occidental praya"). Quero com isto dizer que um jornal, uma editora, um escritor ou um Centro Cultural de Belém que não adira ao AO, ver-se-á, a breve prazo, a braços com uma escrita anacrónica... E um dia, tal como Pessoa ou Camões, será lido com a ortografia que então estiver em vigor.
Eis porque fui um dos entusiastas, na altura como diretor do Expresso, da utilização do AO nas publicações do Grupo Impresa. Eis porque não aceito que uma lei discutida durante mais de 20 anos seja constantemente colocada em causa. Ou que os opositores do AO esqueçam sistematicamente que a forma como escrevem resulta também de um AO imposto por lei.
Não vale a pena pensarmos que cada geração tem a pureza da grafia. O que pensar de Marco Túlio Tiro que, para poder transcrever os discursos de Cícero, abreviou diversas palavras com sinalética que até hoje usamos (etc., v.g., e.g.). Talvez o mesmo que muitos pensam das abreviaturas feitas pelos jovens nos telemóveis e redes sociais. E, no entanto, é a grafia que de estar ao serviço da comunicação - não o contrário.
Acirrar ânimos, insultar adversários, fazer juramentos solenes em torno de uma simples representação do nosso idioma faz-me lembrar aquele padre tio de Brás Cubas que o genial Machado de Assis (e não por acaso cito um autor brasileiro que devia ser mais lido em Portugal) descreve assim: "Não era homem que visse a parte substancial da igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepolizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia do que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos". (E aqui, a palavra infração segue o modo como ele a escreveu ... em 1881).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Curiosidades da língua portuguesa - "Andar à toa"

Significado: Andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.

Origem: Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Curiosidades da língua portuguesa - "Bicho de sete cabeças"

Bicho de sete cabeças


Significado: Grande dificuldade, em regra, imaginária.

Origem: A expressão é curiosa, mas é importante ressaltar que o bicho de sete cabeças que deu origem ao termo, é claro, jamais existiu. A sua origem está na mitologia grega, mais precisamente na história da Hidra de Lerna. Diz a lenda que a hidra era um monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules.
A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, até mesmo por falta de disposição para enfrentá-la.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Curiosidades da língua portuguesa - "Andar na linha"

Andar na linha

Significado: Agir com correcção, com aprumo.

Origem: De origem controversa, a expressão pode ter nascido do transporte ferroviário, mas é provável que, antes, tenha sido proferida nos quartéis, onde o jovem recruta aprendia a andar na linha, quer no sentido literal, acompanhando o pelotão, quer no sentido conotativo, obedecendo aos seus superiores militares, sem se desviar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Curiosidades da língua portuguesa - "Andar com a pulga atrás da orelha"


Significado: estar/ficar/andar com grande desconfiança ou preocupação; ter suspeitas de algo ou de alguém.

Origem: Durante milhares de anos, o ser humano foi vítima desse maldito bicho chamado pulga. Não havia nenhum inseticida ou veneno realmente eficaz para combater esta praga, que se alojava em todos os cantos das casas, hospitais, escolas, jardins, ruas, salas de diversões, tribunais, e muitos outros espaços.

Até meados do século XX, a pulga era, sem dúvida, um problema muito grave: verdadeiras colónias do tamanho de Nova Iorque viviam nos colchões, nas nossas almofadas, nos nossos cabelos, nos nossos armários. Agora imaginem o desconforto de alguém que acorda a meio da noite com uma dor horrível no ouvido. Pois, é isso mesmo: uma pulga entrou pela orelha adentro, e ei-la, feliz e quentinha, a sugar o nosso sangue!

Atualmente, esta expressão significa que suspeitamos de algo ou alguém. Sentimo-nos desconfortáveis, há qualquer coisa que nos incomoda… Será uma pulga?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Língua Portuguesa - Grave, muito grave!

Imagine a seguinte cena: na sala de aula, o adolescente levanta o braço para perguntar à professora se ele pode falar “nós pega o peixe”. Ato contínuo, a mestre pede ao jovem para consultar o livro “Por uma Vida Melhor” e dar uma olhada na página 16. Sedento por conhecimento, o aluno acompanha com olhos curiosos enquanto a docente lê o trecho proposto. O garoto, enfim, sacia a dúvida: sim, ele pode falar “nós pega o peixe”. Está escrito ali, claro como a soma de dois mais dois em uma cartilha de matemática. Com nuances diferentes, a situação descrita acima provavelmente vai se repetir em milhares de escolas públicas de todo o País. Não é difícil calcular os efeitos nefastos no futuro dos 485 mil estudantes do ensino fundamental que devem receber a obra distribuída pelo Ministério da Educação por meio do Programa Nacional do Livro Didático. De autoria da professora Heloísa Campos e outros dois educadores, “Por uma Vida Melhor” defende a ideia de que erros gramaticais são aceitáveis na língua falada. Para Heloísa, frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” (tal pérola aparece em destaque no material) não podem ser condenadas se forem expressas verbalmente. Mesmo que em uma sala de aula.

Autora desconhecida, sem grandes feitos na área da educação, Heloísa se viu no centro de uma polêmica que envolveu escritores, linguistas e professores. Por mais que alguma voz aqui e ali tenha defendido os argumentos de Heloísa, além dos eternos demagogos de plantão, a maioria esmagadora condenou seus métodos de ensino. Uma das mais importantes escritoras brasileiras, Nélida Piñon tem autoridade – como poucos, a propósito – para falar sobre a língua portuguesa. Eis seu veredicto: “O livro confirma a tese de que esteve sempre em curso no Brasil o projeto de manter uma legião de brasileiros como cidadãos de segunda classe”, diz a autora de “Vozes no Deserto”. Escritor que conseguiu a rara combinação de fazer sucesso junto ao público e, ao mesmo tempo, conquistar a crítica, Fernando Morais está indignado. “Esse livro é uma barbaridade”, diz o biógrafo do jornalista Assis Chateaubriand. “Trata-se de um desastre, o oposto do que é pregado por uma pessoa minimamente civilizada.” Linguista com décadas de serviços prestados à educação brasileira e ex-professor da Unifesp, Francisco da Silva Borba amplia a discussão. “O aluno tem que ser ensinado”, afirma. “Se ele tolerar infração às regras, então para que serve a escola?”

Sob diversos aspectos, “Por uma Vida Melhor” tem potencial para piorar a existência de meio milhão de brasileiros. Se realmente for levado a sério pelas escolas públicas, a obra vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedente. Ao dificultar o aprendizado da norma correta, os professores da ignorância terão criado uma espécie de “apartheid linguístico”, para usar uma expressão do ex-ministro da Educação Cristovam Buarque. De um lado, os ricos e bem instruídos. De outro, os jovens reféns da falta de conhecimento gramatical. Se é evidente que o livro assassina a língua portuguesa, na medida em que diz que o aluno pode, na fala, escolher usar a concordância ou não, por que diabos ele teve o aval do MEC? Procurado, Fernando Haddad, o atual ministro da pasta, não quis se pronunciar (leia quadro). A autora Heloísa Campos pelo menos não se furtou ao dever de defender sua obra. “Falar ‘os livro’ do ponto de vista da linguagem popular não é um erro”, diz a professora. “A nossa abordagem é de acolher a fala que o aluno traz da sua comunidade. A cultura dele é tão válida quanto qualquer outra.”

Embora não faça referências diretas, Heloísa repete as máximas do livro “Preconceito Linguístico”, do professor e escritor Marcos Bagno, que faz certo sucesso entre educadores modernos por colocar questões políticas e ideológicas na discussão. Bagno afirma que a linguagem reproduz desigualdades sociais – como se isso fosse uma descoberta assombrosa. É claro que sim. A questão não é essa. Em vez de manter o jovem que não domina a língua imerso na triste ignorância – a pretexto de preservar suas raízes culturais –, por que não retirá-lo de lá? Falar corretamente não é o primeiro passo para, no avanço seguinte, escrever melhor? Escrever melhor não representa uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional? Tente conseguir um emprego falando “nós vai” e você certamente terá suas chances reduzidas a zero. É simples assim.

Pode ser bonito, pode ser simpático, pode ser ousado defender o direito de as pessoas cometerem barbaridades gramaticais, mas na vida prática isso é uma tragédia. É claro que todos nós cometemos erros ao falar – intencionais ou não –, como é óbvio que, em certos ambientes, se expressar como um decano da linguística pode soar arrogante e desnecessário. Mas, na vida real, falar minimamente direito só traz vantagens e são justamente essas vantagens que autores como Heloísa Campos desprezam. “Uma coisa é compreender a evolução da língua, que é um organismo vivo, a outra é validar erros grosseiros”, diz Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras. “É como ensinar tabuada errada. Quatro vezes três é sempre 12, na periferia ou no palácio.” Mesmo para aqueles que, em tese, defendem a abordagem de Heloísa, o livro é visto como uma obra menor. “Não há nenhuma novidade no que o livro diz”, afirma o professor de português Pasquale Cipro Neto. “Ele tem uma ou outra passagem meio ingênua, pueril, mas no todo cumpre o seu papel.”

Para um país que nos últimos anos vem registrando índices de crescimento assombrosos e tem a ambição de reduzir o abismo da desigualdade social, a educação é talvez a arma mais poderosa que existe. Nesse campo, conforme estudos internacionais demonstram, o Brasil está encalhado na rabeira global. Aqui pouco se lê, pouco se estuda, pouco valor se dá ao conhecimento. Não é hora de mudar? A língua, como já observaram pesquisadores importantes, é um elemento que traduz a identidade nacional. É um instrumento de unificação – e não de segregação entre os que sabem e os que não merecem saber. Ela é, acima de tudo, um princípio de cidadania. Diante da onda de protestos provocada pela notícia da distribuição de “Por uma Vida Melhor”, é possível que o livro encontre alguma resistência entre os professores. Na semana passada, a procuradora da República Janice Ascari, do Ministério Público Federal, afirmou que a Justiça provavelmente receberá uma avalanche de ações contra a publicação. Ela própria foi incisiva em seu blog. “Vocês estão desperdiçando dinheiro público com material que emburrece em vez de instruir”, escreveu Janice. “Essa conduta é inadmissível.” Se as ações vingarem, os jovens terão a chance de dizer, alto e bom som: “Nós pegamos o peixe.”

As trapalhadas de Haddad

A polêmica sobre os livros didáticos distribuídos pelo MEC não foi a única a atormentar o ministro Fernando Haddad nos últimos tempos. O episódio da fraude no Enem em 2009, quando foram roubadas provas dentro da gráfica responsável pela confecção dos testes, foi mais uma de suas trapalhadas. No ano seguinte, constatou-se erro na impressão das provas – e de novo a responsabilidade recaiu sobre o Ministério da Educação. À época, os exames correram sério risco de serem cancelados, o que acabou não acontecendo. Os equívocos não param por aí. Neste ano, surgiu a denúncia de fraudes no Prouni, com estudantes beneficiados pelo programa, mas que não se enquadravam nos limites de renda. Ao mesmo tempo, veio à tona o episódio da sobra de vagas, principalmente no caso de bolsas parciais e no programa de educação a distância, o que demonstraria uma falha administrativa. Para aumentar o desgaste de Haddad, entidades internacionais de fomento não cansam de advertir que o grande gargalo ao desenvolvimento do Brasil continua a ser o baixo nível da educação.

Fonte: Revista Isto é - Amauri Segalla e Bruna Cavalcanti

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Curiosidades da língua portuguesa - "Dar trela"

Dar trela

Significado: Encorajar alguém a falar, geralmente para obter informações; dar confiança; dar liberdade; manter conversa longa e despretensiosa; alimentar pretensões amorosas.

Origem: O termo trela, registado na nossa língua desde o século XV, deriva do latim tragella, diminutivo de tragulla “rede de arrasto, dardo com correia”. é daqui que vem o sentido actual de corrente de metal ou tira de couro a que se prende um animal, geralmente um cão.

Em português, a palavra trela é também usada como sinónimo de tagarelice. Esta última acepção está subjacente à expressão “dar trela a alguém“.

Ambos os sentidos acabam por se cruzar, pois, ao dar-se trela ao cão, dá-se-lhe espaço para se movimentar com mais liberdade; dando trela a alguém, dá-se-lhe a oportunidade de falar com mais à vontade.