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terça-feira, 7 de agosto de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Calpúrnia"


Naquele amanhecer do ano 44 antes de Cristo, Calpúrnia acordou a chorar.

Ela sonhara que o marido, atacado à punhalada, agonizava nos seus braços.

E Calpúrnia contou-lhe o sonho e, chorando, suplicou-lhe que ficasse em casa, porque lá fora o cemitério esperava por ele.

Mas o pontífice máximo, o ditador vitalício, o divino guerreiro, o deus invicto, não podia fazer caso do sonho de uma mulher.

Júlio César afastou-a com um empurrão, e em direcção ao Senado de Roma percorreu o caminho da sua morte.

Eduardo Galeano

domingo, 4 de março de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Magda Lemonnier"


Magda Lemonnier recorta palavras dos jornais, palavras de todos os tamanhos, e guarda-as em caixas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa caixa verde, as palavras amantes. Numa caixa azul, as neutras. Numa caixa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia.

Às vezes, ela abre as caixas e vira-as para baixo sobre a mesa, para que as palavras se misturem como quiserem. Então, as palavras contam-lhe o que aconteceu e anunciam-lhe o que está para acontecer.

Eduardo Galeano

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Tituba"


Tinha sido caçada na América do Sul logo à infância, e tinha sido vendida uma vez e outra e mais outra, e passando de dono em dono viera parar à vila de Salem, na América do Norte.

Ali, nesse santuário puritano, a escrava Tituba servia em casa do reverendo Samuel Parris.

As filhas do reverendo adoravam-na. Sonhavam acordadas quando Tituba lhes contava histórias de aparições ou lhes lia o futuro numa clara de ovo. E no inverno de 1692, quando as meninas foram possuídas por Satã e se contorciam e guinchavam, só Tituba conseguiu acalmá-las, acariciando-as e sussurrando-lhes histórias até que as adormeceu no seu regaço.

Isso condenou-a: fora ela trazer o Inferno para o virtuoso reino dos eleitos de Deus.

E a maga-contos foi amarrada ao cadafalso na praça pública e confessou.

Acusaram-na de cozinhar pastéis com receitas diabólicas e açoitaram-na até ela dizer que sim.

Acusaram-na de dançar nua nos concílios de bruxas e açoitaram-na até ela dizer que sim.

Acusaram-na de dormir com Satã e açoitaram-na até ela dizer que sim.

E quando lhe disseram que tinha por cúmplices duas velhas que nunca iam à igreja, a acusada converteu-se em acusadora e apontou o dedo a esse par de endemoninhadas e já não foi açoitada.

E depois outras acusadas acusaram.

E a forca não deixou de trabalhar.

Eduardo Galeano

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Xerazade"



Para se vingar de uma, que o atraiçoara, o rei degolava todas.
Casava-se ao crepúsculo e ao amanhecer enviuva.
Uma após outra, as virgens perdiam a virgindade e a cabeça.
Xerazade foi a única que sobreviveu à primeira noite, e depois continuou a trocar um conto por cada novo dia de vida.
Estas histórias, por ela escutadas, lidas ou inventadas, salvaram-na da decapitação. Contava-as em voz baixa, na penumbra da alcova, sem outra luz que não a da lua. Sentia prazer ao contá-las, e prazer oferecia, mas tinha muito cuidado. Às vezes, enquanto narrava, sentia que o rei estava a estudar-lhe o pescoço.
Se o rei se aborrecesse, ela estava perdida.
Foi do medo de morrer que nasceu a mestria de narrar.