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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Que se lixe a Troika! - Queremos a nossas vidas!"


A 15 de Setembro de 2012 ocorreu uma das maiores manifestações no nosso país. Esse protesto não é apropriável por grupos de cidadãos ou partidos, pois pertence a todas as pessoas que nele participaram.
Passados dois anos entendemos que não é altura de celebrar. O governo não foi demitido. A troika não se foi embora. Vivemos pior.

Relembramos o texto da convocatória que chamou milhares de pessoas a tomar as ruas:


Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas Vidas!

É preciso fazer qualquer coisa de extraordinário. É preciso tomar as ruas e as praças das cidades e os nossos campos. Juntar as vozes, as mãos. Este silêncio mata-nos. O ruído do sistema mediático dominante ecoa no silêncio, reproduz o silêncio, tece redes de mentiras que nos adormecem e aniquilam o desejo. É preciso fazer qualquer coisa contra a submissão e a resignação, contra o afunilamento das ideias, contra a morte da vontade colectiva. É preciso convocar de novo as vozes, os braços e as pernas de todas e todos os que sabem que nas ruas se decide o presente e o futuro. É preciso vencer o medo que habilmente foi disseminado e, de uma vez por todas, perceber que já quase nada temos a perder e que o dia chegará de já tudo termos perdido porque nos calámos e, sós, desistimos.
O saque (empréstimo, ajuda, resgate, nomes que lhe vão dando consoante a mentira que nos querem contar) chegou e com ele a aplicação de medidas políticas devastadoras que implicam o aumento exponencial do desemprego, da precariedade, da pobreza e das desigualdades sociais, a venda da maioria dos activos do Estado, os cortes compulsivos na segurança social, na educação, na saúde (que se pretende privatizar acabando com o SNS), na cultura e em todos os serviços públicos que servem as populações, para que todo o dinheiro seja canalizado para pagar e enriquecer quem especula sobre as dívidas soberanas. Depois de mais um ano de austeridade sob intervenção externa, as nossas perspectivas, as perspectivas da maioria das pessoas que vivem em Portugal, são cada vez piores.
A austeridade que nos impõem e que nos destrói a dignidade e a vida não funciona e destrói a democracia. Quem se resigna a governar sob o memorando da troika entrega os instrumentos fundamentais para a gestão do país nas mãos dos especuladores e dos tecnocratas, aplicando um modelo económico que se baseia na lei da selva, do mais forte, desprezando os nossos interesses enquanto sociedade, as nossas condições de vida, a nossa dignidade.
Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Portugal, países reféns da Troika e da especulação financeira, perdem a soberania e empobrecem, assim como todos os países a quem se impõe este regime de austeridade.
Contra a inevitabilidade desta morte imposta e anunciada é preciso fazer qualquer coisa de extraordinário.
É necessário construir alternativas, passo a passo, que partam da mobilização das populações destes países e que cidadãs e cidadãos gregos, espanhóis, italianos, irlandeses, portugueses e todas as pessoas se juntem, concertando acções, lutando pelas suas vidas e unindo as suas vozes.
Se nos querem vergar e forçar a aceitar o desemprego, a precariedade e a desigualdade como modo de vida, responderemos com a força da democracia, da liberdade, da mobilização e da luta. Queremos tomar nas nossas mãos as decisões do presente para construir um futuro.
Este é um apelo de um grupo de cidadãos e cidadãs de várias áreas de intervenção e quadrantes políticos. Dirigimo-nos a todas as pessoas, colectivos, movimentos, associações, organizações não-governamentais, sindicatos, organizações políticas e partidárias.
Dividiram-nos para nos oprimir. Juntemo-nos para nos libertarmos!



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Amanhã ao Carmo às 11 horas


A Direcção da Associação 25 de Abril informa que decidiu levar a efeito uma evocação a Salgueiro Maia, nela personificando a homenagem a todos os militares de Abril, no Largo do Carmo, no dia 25 de Abril às 11.00, evento para o qual desafia toda a população.


Mais informa que, nessa circunstância, o Presidente da Direcção da A25A proferirá uma intervenção de fundo na linha da que seria feita na sessão solene na Assembleia da República.

Após esse tributo, será organizada uma romagem ao edifício onde funcionava a PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, para evocação da memória dos cidadãos ali assassinados no fim da tarde de 25 de Abril.

Todos ao largo do Carmo às 11h00 de dia 25 de Abril

domingo, 3 de novembro de 2013

"POR QUE É QUE HÁ DEZENAS DE MILHARES NA RUA EM VEZ DE CENTENAS? " - por José Pacheco Pereira




1. Prevenção inicial: as manifestações mais recentes não foram o sucesso que os seus organizadores previam, mas convém lembrar aos seus fáceis detratores (que nem duzentas pessoas arranjam para encher uma sala com o Primeiro-ministro) que mesmo assim muitos portugueses, na ordem das dezenas de milhares se manifestam com a CGTP e com as outras organizações, somando-se, como se deve somar, Lisboa, Porto e outras concentrações mais pequenas e “públicos” diferentes conforme as convocações.


2. Mas que há um cansaço das manifestações, há. E que não augura boa coisa, também não. E não é certamente porque os portugueses “percebem” lá no seu íntimo o governo e as suas medidas, e por isso não vêm à rua em massa, uma mirabolância do pensamento que deve fazer mal ao cérebro dos que a repetem. O “bom povo português” está completamente farto deste governo e destas políticas e se tivesse o botão que matava o Mandarim na China à sua disposição, faria filas de quilómetros para ir lá tocar. É exactamente por isso que não há eleições antecipadas e se fazem todas as piruetas para as evitar a todo o custo.


3. De passagem, anoto o curioso argumento da direita anti manifestações que implica que só haveria protesto a sério quando toda a gente andasse a partir montras, à grega. Até lá podem meter multidões na rua, que “não conta”. Parece que só “conta” quando há violência. É tão curiosa essa atitude, do género “estão mesmo a pedi-las”, que não abona muito à inteligência de quem a enuncia como se fosse a coisa mais natural deste mundo.


4. Os portugueses não vão em massa à rua porque não sabem o que fazer e não lhe agradam as alternativas oferecidas em democracia. E isso é que é perigoso. Seguro não mobiliza nem o seu braço esquerdo, quanto mais os portugueses. O grande vazio da política portuguesa é o PS e isso por si só cria um estado de apatia no protesto, quando um partido clama contra o governo atribuindo-lhe medidas gravíssimas e depois se fica por uma frouxa intervenção parlamentar ou pela ladainha: “como eu já disse há muito tempo…” Se os tempos são assim tão graves, por que raio é que a “responsabilidade” do PS se concentra toda em ficar pelos salamaleques? Desde quando é que o facto de um partido pretender governar o impede de, por exemplo, se manifestar, se toma a sério a gravidade do que o governo está a fazer? O PS é um entretenimento para o governo e o cancro de protesto.


5. Ir para rua com o PCP ou o BE tem poderosas limitações, para muitos portugueses que não se revêm nesses partidos, nem nas soluções que eles apresentam. A CGTP mobiliza mais, mas uma coisa são as manifestações de rua outra as greves e protestos por sector profissional, onde a ruptura com a UGT impede movimentações para lá do habitual em sectores críticos. (Desse ponto de vista, uma prova importante é a greve da função pública no dia 8 de Novembro.). Mas, seja como for, não adianta andar com “esquerda” face á direita” como se isso mobilizasse alguém, numa crise que de há muito ultrapassou essa dicotomia que é redutora.


6. Depois há a qualidade da “oferta” manifestante. Começa pelo nome “que se lixe a troika”. Começa mal, porque a uma dada altura o nome que parecia trivial e engraçado torna-se um obstáculo. Para muita e boa gente o “que se lixe” tem como primeiro e principal destinatário, o governo. “Que se lixe o governo” teria muito mais sentido, porque a animosidade com o governo é que é o motor da “rua” e não a troika de per si. O que é que vão fazer quando a troika for formalmente embora daqui a meses? Ficam sem nome. “É o governo, estúpidos!”, diriam os americanos.


7. Depois há qualquer coisa de errado no plebeísmo do “que se lixe”. Nem é um insulto directo do género do “vai-te lixar” bem substituído por expressões mais vernáculas com sólida tradição latina que, a julgar pelos cartazes espontâneos das manifestações, são muito mais eficazes. O problema é que é um plebeísmo mole, é grosseiro sem ser verdadeiramente ofensivo, afasta mais gente do que agrega, podia estar num cartaz mas não mobiliza quando é um nome de um movimento. Aliás, depois de Passos Coelho o ter usado no “que se lixem as eleições”, eu fugia a sete pés dessa irmandade vocabular.


8. O excesso de “culturalismo” dos organizadores leva-os a pensar que a palavra de ordem obscura de “não há becos sem saída”, mobiliza alguém, tanto mais que “saída” é o que de todo não lhes é oferecido. A palavra de ordem é atentista e todo o grafismo e a parafernália mais ou menos folclórica acantona o apelo da manifestação nos jovens radicalizados, e, como dizia um velho furioso com o governo, ele não ia a essa coisa dos “freaks”. Ou seja, muitos dos sectores mais atingidos pela crise não se reveem na “estética” do “que se lixe a troika”, e isso facilita a debilidade do movimento, uma vez passada a moda inicial.


9. Pode-se argumentar que o “Que se lixe a troika” mobilizou a maior manifestação da história da crise, que hoje é particularmente útil para os que não querem, minimizam, atacam o próprio princípio da manifestação. Só que, havia tantas ambiguidades nessa manifestação que ela iria ser inevitavelmente única, porque só se é virgem uma vez. A mesma perda de virgindade funciona para a comunicação social, que foi a grande propagandista da manifestação (e não as redes sociais), e que, perdida a novidade, reduziu as manifestações do “Que se lixe a troika” à sua verdadeira dimensão. Sem a trombeta da televisão e do jornalismo amigo, a flauta do Facebook não chega e é demasiado preguiçoso para mobilizar em termos eficazes. Veja-se o trabalho meticuloso da CGTP, sem o qual o protesto social seria errático e muito mais fraco.


10. Mas há uma coisa que a “esquerda” não compreendeu e é incapaz de contrariar: é que o discurso da divisão vindo do poder é eficaz quando há uma crise de representação e os que estão a empobrecer são deixados na solidão da sua condição. Em vez de olharem para cima, olham para o lado. Dividir novos de velhos, empregado de desempregados, privado do público, vai ficar para muito tempo a estragar Portugal, desagregando a força do protesto e impedindo-o de juntar os “rios” (uma metáfora que usei aqui e que circula por aí) e acima de tudo dos engrossar. E não é pela repetição dos posicionamentos e da língua de pau tradicional que se defronta essa cizânia.


Daqui

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

"O DESPREZO PELOS MANIFESTANTES DA CGTP" - José Pacheco Pereira

Excelente!

Uma coisa que mostra como quem está do lado do poder não percebe (ou melhor não quer perceber), o que está a acontecer em Portugal, é o modo como exibem um racismo social com os manifestantes da CGTP, tão patente nos comentários à saga da ponte. Pode não ser deliberado, mas sai-lhes do fundo, naturalmente. Os filhos dos comentadores e opinadores podem ir às manifestações dos “indignados”, que são aceitáveis, engraçadas e chiques, e que tem muita cultura e imaginação, mas nenhum irá às da CGTP. Eles “são sempre o mesmo”, ou “mais do mesmo”, eles são “pouco criativos” que insistem em fazer manifestações “que não adiantam nada”. Eles são “os feios, os porcos e os maus”. 

Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar. Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc. Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e não chefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas.

Este desprezo social é chocante quando é feito por quem tem acesso ao espaço público e que trata os portugueses que se manifestam, - e, seja por que critério, são muitos, pelo menos muitos mais, muitíssimos mais dos que estariam dispostos a vir para rua pelo governo, – como uma “massa de manobra” do PCP, que merece uma espécie de enjoo distanciado, umas ironias de mau gosto e um gueto intelectual. Façam vocês o que fizerem, “não contam”. Vocês são umas centenas de milhares, vocês são “activistas” e por isso se vêem muito (quem não se vê nada são os do “outro lado”), mas “não contam” para nada. Existirem ou desaparecerem é a mesma coisa, nenhum dos “de cima” se pode ou deve preocupar convosco. Votam em partidos anacrónicos, têm hábitos plebeus, vão fazer campismo de férias, fazem excursões organizadas pelas autarquias, jogam a sueca, as mulheres passam-se pelo Tony Carreira e todos acham que tem direitos. Vejam lá, imaginem lá o abuso, acham que tem direitos… Eles são os maus portugueses, os que estão de fora do “arco governativo”, os que não percebem o "estado de emergência financeira", aqueles cujos "interesses" bloqueiam o nosso radioso empreendedorismo.

Tudo isso é verdade, e tudo isso é mentira. Estes portugueses fora de moda e fora das modas, pelo menos tem o enorme mérito de sentirem um agudo sentimento de injustiça, eles que sabem mais da vida real, concreta, vivida do que todos os seus críticos juntos. Não é a eles que se pode dar lições de trabalho, nem de esbanjamento, nem de perseverança, nem de sacrifício. Pode-se discordar deles, mas merecem respeito. Pelo que foram, pelo que são e porque não se ficam.


Daqui.

domingo, 27 de outubro de 2013

"É tempo de agir!"


Foto de Rui Borges

Declaração política da manifestação Que se lixe a Troika! Não há becos sem saída!, lida por Joana Manuel e Luísa Ortigoso.

"Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado"


Foto de Rui Borges

Texto lido por André Albuquerque, ator desempregado, na manifestação Que se lixe a Troika! Não há becos sem saída a 26/10/2013.

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um ator desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S .Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de ativistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêm a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...

Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!

"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.

"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

“Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”, a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.

"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!". Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir." "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar." Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.

Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.

"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.

"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Comunicação Social que temos - Obrigado Troika!


Desde o passado dia 9 de outubro foi anunciada e comunicada aos órgãos de comunicação social a Manifestação Que se lixe a Troika - Não há becos sem saída que terá lugar no próximo dia 26 de outubro.

Subscrito o manifesto de apelo por quase 1.000 pessoas de todos os quadrantes sociais e profissionais, esta manifestação foi, até hoje, ignorada por essa comunicação social.

O Movimento Que se Lixe a Troika decidiu que era necessário que esta situação acabasse. Convocou uma manifestação a favor da troika. Extraordinário! Não houve jornal que não a noticiasse nem órgão de comunicação que não aparecesse.

É esta a informação (?) que temos.

Aqui fica para memória futura:

A manifestação de apoio à troika que acabou a mandá-la “lixar-se”

Protesto irónico a favor da troika junta cerca de 30 pessoas em Lisboa

Movimento "Que se lixe a Troika" traz ironia para a rua

terça-feira, 16 de julho de 2013

"Novas revoltas globais: o sentido está em disputa"


O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido por uma revolta ainda maior no Brasil, que por sua vez foi acompanhada por manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente, estes protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos, em uma série realmente mundial de revoltas, nos últimos anos. Há muitas maneiras de analisar este fenómeno  Eu o vejo como um processo contínuo de algo que começou com a revolução mundial de 1968.

É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.

A primeira característica em comum é que todas as revoltas tendem a começar muito pequenas — um punhado de pessoas corajosas manifestando-se sobre algo. E então, se elas “pegam”, coisa que é que é muito imprevisível, tornam-se maciças. De repente, não apenas o governo está sob ataque, mas, em alguma extensão, o Estado enquanto tal. Esses levantes reúnem tanto aqueles que querem a substituição do governo por outro melhor quanto os que questionam a própria legitimidade do Estado. Ambos grupos invocam o tema da democracia e dos direitos humanos, embora sejam variadas as definições que dão a esses dois termos. No conjunto, o tom dessas manifestações começa do lado esquerdo do espectro político.

O governo no poder reage, obviamente. Ou ele tenta reprimir as revoltas; ou tenta abrandá-las com algumas concessões; ou faz ambas as coisas. A repressão normalmente funciona, mas algumas vezes é contraproducente para o governo no poder, trazendo ainda mais pessoas às ruas. Concessões geralmente funcionam, mas algumas vezes podem ser ruins para o governo, levando as pessoas a ampliar suas demandas. De modo geral, os governos recorrem à repressão com mais frequência que às concessões. E, também grosso modo, a repressão tende a funcionar em um relativo curto prazo.

A segunda característica comum dessas revoltas é que nenhuma delas continua na velocidade máxima por muito tempo. Muitos manifestantes dão-se por vencidos após medidas repressivas. Ou são de alguma maneira cooptados pelo governo. Ou ficam cansados por causa do enorme esforço que as manifestações frequentes requerem. Essa diminuição da intensidade dos protestos é absolutamente normal. Ela não indica uma derrota.

Esse é o terceiro fator em comum, nos levantes. Embora terminem, deixam um legado. Mudam algo na política de seus países, e quase sempre para melhor. Forçam a entrada de alguma questão principal — por exemplo, as desigualdades — na agenda pública. Ou fazem crescer o senso de dignidade entre os extratos inferiores da população. Ou ampliam o ceticismo diante da retórica com a qual os governos tendem a encobrir suas políticas.

A quarta característica em comum é que, em cada onda de protestos, muitos que se unem ao movimento (especialmente os mais tardios) não chegam para reforçar os objetivos iniciais, mas para pervertê-los — ou para tentar conduzir ao poder político grupos de direita que são distintos daqueles que estão atualmente no poder, mas de maneira alguma mais democráticos ou preocupados com os direitos humanos.

O quinto traço em comum é que todos eles acabam envolvidos no jogo geopolítico. Governos poderosos, de fora do país nos quais os tumultos estão ocorrendo, trabalham intensamente (embora nem sempre com com sucesso), para ajudar grupos aliados a seus interesses a alcançar o poder. Isso acontece tão frequentemente que uma das questões imediatas sobre cada movimento específico é sempre — ou deveria ser — saber quais suas consequências, em termos do sistema mundial como um todo. Isso é muito difícil, já que os desdobramentos geopolíticos potenciais podem levar alguns a desejar rumos opostos às intenções anti-autoritárias originais do movimento.

Finalmente, devemos lembrar a respeito deste tema, e de tudo que está acontecendo agora, que estamos no meio de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Mas ele pode ser melhor ou pior. Essa é a batalha real dos próximos vinte a quarenta anos. E a posição a assumir aqui, ali e em qualquer lugar deve ser decidida em função desta grande batalha política mundial.


Immanuel Wallerstein

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Crónica de um sequestro não anunciado - 3ª parte


Processo arquivado.

Um mimo o auto de arquivamento: uma espécie de casamento entre o bom comportamento da polícia e o bom comportamento dos manifestantes.

É claro que não interessa nada que as horas estejam erradas, ou que metade do que é relatado seja mentira. É claro que não interessa nada as condições em que as pessoas estiveram. É claro que não interessa nada os danos psicológicos causados a muita desta gente. É claro que ficaram com mais 226 pessoas nos arquivos policiais. É claro que devem haver mais não sei quantos telefones sob escuta. É claro que o Ministério Público não sabia onde pôr 226 pessoas e mais de 2.000 testemunhas para um julgamento. É claro que este seria um julgamento político.

Aqui o Auto.

domingo, 30 de junho de 2013

Crónica de um sequestro não anunciado - 2ª parte


Campus da Justiça, Parque das Nações, Lisboa. 10h00.

226 pessoas em fila para entrar. Os primeiros foram para uma sala no 1º andar. As condições eram de tal forma que houve uma pessoa que se sentiu mal. De acordo com as testemunhas, foi difícil convencer o tribunal a chamar a ambulância. Mas veio. Em protesto, as restantes pessoas desceram para a entrada ou ficaram nas escadas.

De tal forma que, quando chegou a minha vez, depois de tomarem nota da minha presença, já me enviaram para fora esperar.

Cá fora, familiares e amigos. Jornalistas, televisões claro. E Garcia Pereira e Vasco Marques Correia, Presidente do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, incansáveis a prestar declarações. (O meu obrigada aos dois). Felizmente também José Preto e outros advogados estiveram presentes.

Estes advogados conseguiram o "milagre" de não ficarmos lá o dia todo. Finalmente, todos tínhamos que dizer "Presente!" ao chamamento do nosso nome para ficarmos notificados que o julgamento será no dia 12 às 09h30. A carta segue depois.

A todos os que solidarizaram Muito Obrigada. No dia 12 é precisa mais um um pouco de solidariedade.