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domingo, 11 de março de 2018

"Os circuitos do dinheiro na saúde" - Isabel do Carmo


O Conselho Nacional de Saúde (CNS) é uma estrutura oficial, tal como a Entidade Reguladora da Saúde, com sede no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, e tem alguma independência do Ministério da Saúde. Este Conselho foi criado para consulta do governo, mas também para tornar públicos os dados recolhidos, no sentido de autarquias, associações e público em geral tomarem conhecimento dos seus estudos, participando de um dever de cidadania.. Em Outubro de 2017, o CNS publicou um estudo sobre os "Fluxos Financeiros do Serviço Nacional de Saúde (SNS)", que analisa o estado da Saúde em Portugal. O objectivo foi observar o desenho geral da estrutura financeira, as fontes de financiamento e a verdadeira árvores de fluxos. Utilizou dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) que gere de forma central os recursos humanos dentro do Ministério da Saúde e disponibiliza ao público dados sobre os custos nas várias áreas.

Os autores recorreram à Organização Mundial de Saúde (OMS) e à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), colhendo desta última um dado que diz mais sobre a despesa em saúde do que a percentagem do produto interno bruto (PIB) geralmente usada. Esse dado é o custo "per capita" (com paridade com o poder de compra) que, pelo menos desde 2000, se tem sempre situado abaixo da média europeia: 2423,3 dólares em 2016, sendo a média europeia de 3549,4. Vistas as percentagens do PIB, a despesa aproximou-se da europeia (9 contra 8,9), mas a parte pública dessa despesa veio a distanciar-se desde 2010 até 2016, o que significa que foram as famílias a arcar com a diferença. Em 2015, a fonte financeira a partir do Orçamento Geral do Estado foi de 57,3% do total da despesa corrente em Saúde (INE, Agosto 2017). Nestes anos, as famílias participavam com 27,7% dos custos (mais do que outros países europeus), o que em período de crise pesou muito no seu sofrimento. Os subsistemas contribuíram com 5,3% como agente financiador. Embora se possa ter uma percepção pública diferente, o contributo das associações sem fins lucrativos foi apenas contributo residual.

Durante a crise, e ainda hoje, as famílias suportam a parte não comparticipada dos medicamentos e uma percentagem dos exames. Em relação aos medicamentos, aqueles de que depende imediatamente a vida, como a insulina, são gratuitos, ou largamente comparticipados, como os antibióticos, e os que se destinam a doenças crónicas, como a hipertensão arterial ou a diabetes, têm uma comparticipação grande. Os critérios são diferentes, e em alguns casos discutíveis, para os medicamentos que não se enquadram nestas categorias. Os cuidados domiciliários, indispensáveis para muitas famílias, deveriam ser todos prestados pelos cuidados ao domicílio dependentes dos cuidados primários, ou seja, centros de Saúde e Unidades de Saúde Familiar (USF), onde os enfermeiros têm um papel determinante. Mas muitas vezes a cobertura falha, o recurso às Misericórdias tem de ser feito, com o seu cariz de "solidariedade" e a articulação de base - centro de saúde, junta de freguesia, instituição de solidariedade - a funcionar mal, sobretudo nos grandes centros urbanos.

Os cuidados dentários são um dos maiores problemas do SNS. O "cheque-dentista" abrangeu sobretudo crianças e jovens até aos 18 anos, mas aquilo que foi uma medida de emergência tornou-se uma das formas de fluxo do público para o privado. Em 2016, o Estado pagou em cheques-dentista 13 154 175 de euros, que incluíram crianças e jovens, grávidas, portadores de VIH-sida e projecto de intervenção do cancro oral. Em 2009 pagara menos de um terço (4 005 400 euros). As consultas hospitalares de Estomatologia têm de ser reservadas para os casos de última instância, e não as questões dentárias correntes, o que significa que os adultos ficam sem cobertura. Mesmo em consultas hospitalares, os materiais de prótese saem do bolso do utente.

De acordo com os dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), durante o primeiro semestre de 2017 o ramo doença aumentou 12,3%, face ao mesmo período do ano anterior, o que pode ser um indicador da dificuldade de acesso ao SNS. Provavelmente foi quase tudo para os prestadores privados. E as facturas que entram nos hospitais por via das seguradoras, nos casos de trabalho ou acidentes, tornam-se muitas vezes dificilmente cobráveis.

Entra no SNS e para onde é que sai?

Percebendo um pouco as fontes de financiamento do SNS, interessa saber para onde é escoado o dinheiro. Em 2015, o grande peso financeiro estava nos hospitais públicos, embora tenha havido um corte nesse sector de 300 milhões de euros durante a crise, primeiro imposto pela Troika e depois pelo governo. Este corte foi ter reflexos, que se sentirão durante anos, nos equipamentos e na sua manutenção, nas dívidas e no pessoal. Os custos nos cuidados domiciliários representavam em 2015 uns escassos 0,3% e os cuidados preventivos 1,1%, níveis que se têm mantido ao longo de anos e por vários governos, apesar dos discursos. A narrativa de que "o melhor é a prevenção" muitas vezes é só moralista e dirigida à responsabilidade individual na mudança de hábitos de vida, esquecendo que o grande factor a intervencionar de forma política é o ambiente, em sentido lato, criado pelo colectivo social. O SNS, que em Portugal todos dizem defender, evitando separar as águas em termos de conceitos de sistema de saúde, apenas dispõe de 1,1& de verbas para cuidados preventivos.

Os cortes nas despesas específicas em cuidados curativos hospitalares atingiram sobretudo os hospitais públicos, tendo o pagamento a hospitais privados vindo a crescer, ao ponto de passar de cerca de 389 milhões de euros em 2011 para cerca de 554 em 201, incluindo as PPP. Ou seja, não houve poupança quando os fornecedores de serviços foram privados. Assim se compreende a multiplicação de instituições privadas de prestação de serviços de Saúde. As instituições privadas de Saúde sobrevivem com o que lhes é pago pelo SNS em venda de serviços de saúde e com o que lhes é pago pela Assistência na Doença aos Servidores do Estado (ADSE); não com os seguros e os pagamentos das pessoas de altos rendimentos. Em 2017, o número de empresas privadas de Saúde com internamento era de 169, com 15 947 de pessoal e um valor de negócios de 1486 milhões de euros. No privado, as camas de internamento cresceram, enquanto as do sector público decresceram, o mesmo sucedendo com as consultas externas e as grandes e médias cirurgia (INE, 2017).

Em 2017, a ADSE pagou 394 milhões de euros a hospitais, clínicas e laboratórios privados. Daqui se depreende os protestos da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada quando a ADSE anunciou que ia baixar as tabelas de pagamentos. Note-se que quando os doentes beneficiários da ADSE entram na rede pública, aquela nada paga ao Estado, porque ao SNS têm direito como qualquer cidadão.

Uma das grandes facturas de pagamento de serviços externos a cargo do SNS é a da realização de hemodiálises, que em 2016 obrigou o Estado a pagar cerca de 253 milhões de euros. Também neste caso cabe aos hospitais públicos uma parte mais complexa - o estabelecimento de vias vasculares de acesso - e depois o SNS paga aos privados as sessões de hemodiálise.

Quanto à compra de serviços externos a privados, pagos pelo SNS, são sobretudo meios auxiliares de diagnóstico, sobressaindo, em 2016, as análises clínicas (cerca de 87 milhões), a radiologia (cerca de 87 milhões), a fisioterapia (cerca de 67 milhões) e as endoscopias gastroenterológicas (cerca de 32 milhões).

Quando os hospitais públicos têm uma lista de espera de cirurgia que ultrapassa o estabelecido para aquela patologia, podem fazer um cheque-cirurgia para o doente ser operado numa rede de privados estabelecida. Em 2015, os custos com os cheques-cirurgia foram de cerca de 84 milhões de euros. Quanto aos custos com medicamentos, diminuíram cerca de 500 milhões entre 2010 e 2015 (INE, 2017), o que deve ter pesado na crise sofrida pelas farmácias nesse período.

Quanto à Rede de Cuidados Continuados, em 2006, e depois em 2009, ela teve um grande impulso; decresceu em 2013 e cresceu de novo em 2016. A responsabilidade dos custos desta rede é partilhada entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, sabendo-se como faltam camas de internamento. Os cuidados primários, centros de Saúde e USF, a cargo das Administrações Regionais de Saúde (ARS), sofreram uma redução de despesa de 12,5% de 2010 para 2011, o que afectou o seu funcionamento, sobretudo ao nível pessoal. A organização em Agrupamentos, que tinha sido anterior, poderá ter reduzido a despesa, o que foi o principal objectivo da sua constituição, mas eles não têm autonomia financeira e a gestão de pessoal e de funcionamento que existia nas antigas unidades foi perdida, a favor de uma gestão vertical e mais distante.

O que entra e o que se gasta

De forma crónica, e percepcionada como quase natural, há ao longo dos anos um subfinanciamento da saúde, sabendo-se de antemão que se vai gastar mais do que se recebe. O mesmo se passa com a assinatura dos Contratos Programa, que foram um bom projecto para estabelecer o exercício anual, mas também neste caso se sabe antecipadamente que não vai haver recursos para essa produção. Em 2012 e 2013 houve orçamentos rectificativos, porque as dívidas a fornecedores já eram muitas. Em Dezembro de 2016 havia cerca de 32 milhões de euros de dívida mensal em média, sendo que cerca de 20 milhões estavam em atraso e cerca de 12 milhões eram dívida vencida. Em Agosto de 2017, o total da dívida com mais de 90 dias já estava em 1145 milhões de euros no total. Este peso, que se arrasta e ocupa as administrações, esta suborçamentação crónica, dificulta negociações de preços, impede projectos de fôlego plurianuais e planos ambiciosos em equipamento e pessoal, com rentabilidade a médio prazo. Ora, a falta de resposta nos serviços públicos provocada pela suborçamentação vai depois ter como consequência a necessidade de recurso a privados; ou seja, o que falta num lado paga-se no outro, que pela própria natureza tem de ter lucro.

A discussão no presente situa-se antes de tudo neste subfinanciamento crónico, que se agravou durante a crise e se mantém. É preciso pensar com ousadia na parte que diz respeito ao SNS dentro do Orçamento do Estado, abandonando esta hipocrisia de se fingir que se vai gastar a um nível que não é o verdadeiro, porque não pode ser. O estabelecimento dum orçamento real tem de ser discutido nos detalhes pelos vários intervenientes do SNS, sem pretensões de serem bons alunos por serem poupadores. Poderá perguntar-se a cada unidade como seria para funcionarem a pensar na eficiência, e não no peso das dívidas. O bom planeamento a este nível dá resultados a curto prazo. Por exemplo, o facto de alguns Agrupamentos de Centros de Saúde terem hoje aparelhagem para um rastreio de renitopatias diabéticas vai evitar cegueiras e/ou tratamentos com custos vultuosos, se os hospitais de referência responderem de imediato aos doentes referenciado. Os custos em equipamento e em técnicos não têm comparação com a poupança financeira e humana. Investiu-se e poupou-se, como aconteceu em 2008-2009 com o plano de cirurgia das cataratas.

Quanto à própria estrutura dos custos, é de grande evidência a necessidade de gastar mais nos cuidados primários. As USF foram um projecto de Constantino Sakellarides ainda como director-geral da Saúde no ministério de Maria de Belém Roseira, período em que chegou a haver uma unidade experimental. Correspondem a um padrão de autonomia de gestão financeira, que implica todo o pessoal; há incentivos de acordo com os resultados e os doentes são seguidos de modo a prevenir ou melhorar doenças crónicas e evitar episódios agudos.

As USF têm duas categorias, A e B, sendo que a primeira é experimental e a segunda provém da primeira e autonomiza-se. A unidade é criada por candidatura dum médico de Medicina Geral e Familiar que levará consigo a sua carteira de doentes. De 2006 a 2010, foram criadas 129 USF modelo A e, de 2008 a 2011, passaram 136 a modelo B. De 2012 a 2015, só 72 passaram a modelo B. No ano de 2016 passaram a USF modelo B 25 unidades. No total temos 479 activas, 246 modelo A e 233 modelo B. A região Norte tem mais do dobro de USF activas do que Lisboa e Vale do Tejo. Ora, após a candidatura com todos os seus passos administrativos e técnicos é necessário um despacho conjunto dos Ministérios da Saúde e das Finanças. Neste momento há 29 candidaturas do modelo A e 48 do modelo B, mas o que falhou ao longo de 2017 foi o despacho conjunto... Ora, para lá do subfinanciamento crónico, há que discutir com as Finanças, que não são técnicos em Saúde, os benefícios da abertura de USF, demonstrando os resultados com números na mão, que é o que se tem de fazer num governo em que a governação é global e deve ser um colectivo com propósitos estratégicos.

A poupança dentro do SNS tem de considerar a relação do serviço público como cliente dos privados. Os números mostram que o grande custo não são as parcerias público-privadas (PPP), mas sim a compra de serviços aos privados. O combate às PPP tem sido o maior cavalo de batalha, mas estas têm sido escrutinadas em termos qualitativos e quantitativos. Claro que têm a sua lógica de negócio e por algum lado hão-de ganhar. Mas o grande negócio para os privados é a venda de serviços e aí tem de haver uma reflexão, pois se as instituições públicas forem suficientes não terão de dar lucro a privados. Estamos a falar de meios auxiliares de diagnóstico: análises, radiologia, endoscopias. Ao nível de análises, as instituições que ousaram instalar postos de colheita nos Centros de Saúde para as análises serem feitas nos hospitais, o que foi o caso do Centro Hospitalar da Guarda e do Centro Hospitalar Lisboa Norte, foram efectivamente combatidas pela Entidade Reguladora da Saúde, que entendeu que se estava a prejudicar os privados. Interessante entendimento dum organismo criado pelo Estado, embora com funcionamento independente... Surgiram até providências cautelares em reacção à existência desses postos de colheita. Ora, os hospitais têm capacidade para responder às suas necessidades e às dos centros da sua área. Já o mesmo não se passa em relação à radiologia. Neste caso os hospitais têm excelente qualidade, mas não têm capacidade de resposta em termos quantitativos, sobretudo em Ressonâncias Magnéticas, mas também em avaliações vasculares por imagem, e os doentes não podem ficar sem fazer os exames.

Temos esperança que o projecto do Hospital de Lisboa Oriental, agora assim chamado após ter o nome de Todos-os-Santos, em evocação do antigo hospital do Rossio destruído pelo Grande Terramoto, contemple as carências  dos actuais hospitais. O número de camas (875) foi calculado de acordo com as necessidades da área directa e indirecta, mas estas só podem atingir este nível se forem aumentadas as camas de convalescença e de cuidados continuados, e se os cuidados domiciliários forem garantidos.
É que alguns doentes não podem ter altas para o vazio, para famílias sem recursos de acompanhamento. No caso deste hospital, a PPP só vai funcionar para a construção, que será de 415 milhões, a pagar durante 30 anos Toda a gestão será pública. Com um espaço racionalizado dentro das modernas necessidades, o hospital ter a capacidade para todas as necessidades dos doentes, em termos de exames e tratamentos e não dependerá de compras de serviços clínicos externos. Deste modo os serviços privados não serão complementares do SNS, como se diz habitualmente, porque os serviços públicos terão resposta completa. Os serviços privados serão suplementares para quem queira fazer essa escolha, por razões de hotelaria ou outras que não tenham a ver com a qualidade clínica. Resta saber se o SNS e os seus responsáveis farão uma opção por esta tendência, de que o Hospital Oriental pode ser modelo, ou se continuarão a procurar comtemporizacões, ou os chamados consensos, em que o lucro cresce e o SNS rebenta pelas costuras.

Isabel do Carmo

terça-feira, 11 de julho de 2017

Manifesto - Pela nossa saúde, pelo SNS



Texto do Manifesto:

A razão de os signatários se dirigirem aos portugueses decorre da análise que fazem da actual situação no sector da saúde, a qual, quase a meio do mandato do governo, permanece sem sinais de mudança que alterem a natureza do modelo de política de saúde, promovendo a saúde dos portugueses, reabilitando e requalificando o Serviço Nacional de Saúde. O qual dificilmente se verificará sem a contribuição activa dos actores sociais e políticos das comunidades.

O sistema público de saúde carece do financiamento ajustado à sua missão: promover a saúde, prevenir e tratar a doença. Sem essa condição não só o SNS vai definhando, vendo reduzido um dos seus principais valores, a cobertura universal, como as respostas que vai dando são canalizadas quase exclusivamente, e já em condições precárias, para o tratamento da doença e para contribuir para o florescimento da prestação privada. Em seis anos (2009-2015) a despesa pública da saúde diminuiu 21%, tendo passado de 6,9% para 5,8% do PIB. Os signatários tomam, por isso, como referência a despesa verificada em 2009, que foi de 9,9% do PIB, um ponto percentual acima do verificado em 2015. Além disso, percentagem do financiamento público dos cuidados de saúde prestados à população é desde 2014 das mais baixas da Europa a 28 (66%).

O diagnóstico que melhor caracteriza a saúde da população é dado pelos seguintes indicadores-chave. (1) com 70% de esperança de vida saudável (2015), os portugueses tinham o mais baixo valor dos países do sul da Europa – Espanha, França, Itália e Grécia; (2) com 32% de esperança de vida saudável aos 65 anos, os portugueses ficam bastante aquém dos valores daqueles países; (3) no grupo etário 16-64 anos só 58% da população considerava que a sua saúde era boa ou muito boa, quando na Grécia ou em Espanha é superior a 80% (2015); (4) no grupo com mais de 64 anos aquela percepção é de 12%, sendo em Espanha e França superior a 40%; (5) mais de 50% da população tem excesso de peso; (6) em 2016 verificou-se o maior excesso de mortalidade da década, correspondente a 4 632 óbitos.

Nos setenta e sete hospitais da rede pública, cerca de 800 000 utentes aguardam com excesso de espera uma primeira consulta hospitalar, correspondendo a 30% das primeiras consultas realizadas em 2016. Esse excesso varia entre 2 e >800 dias. Mais de oitocentos mil portugueses não têm médico de família atribuído. Entre 2014 e 2016 verificou-se um aumento de 529 000 urgências.

Esta situação é já bastante preocupante. Continua a insistir-se num modelo de política de saúde exclusivamente orientado para o tratamento da doença e centrado nas tradicionais instituições de saúde. Quando a regra é ser-se saudável e a excepção é estar-se doente, a quase totalidade dos recursos são canalizados para a excepção, embora a promoção e a protecção da saúde sejam as intervenções que mais contribuem para melhorar o bem-estar das pessoas e das comunidades, e a estratégia que torna os sistemas de saúde sustentáveis. Do que se trata, por isso, não é de medidas avulsas que dificilmente se articulam entre si, mas de uma reforma que integre cuidados hospitalares, cuidados continuados, cuidados de saúde primários e intervenções em saúde pública, que inclua os actores formais e informais das comunidades locais e que incorpore o melhor conhecimento científico disponível.

Mas mesmo quando se trata da prestação de cuidados na doença, as limitações ao acesso mantém-se como o maior obstáculo aos serviços de saúde no momento em que são necessários, com as consequências negativas daí decorrentes para a condição dos doentes. Os tempos de espera inadmissíveis são disso a melhor evidência e o crescimento da afluência às urgências o pior sintoma da disfunção que reina no sector.

O excesso de mortalidade, verificado sobretudo entre a população idosa e durante o verão e o inverno, quando se verificam temperaturas mais extremas, exige que os cuidados domiciliários sejam mais frequentes e que tanto as autarquias como os serviços de segurança social façam um acompanhamento de maior proximidade respondendo às necessidades de cuidados de conforto que nestas alturas são particularmente sentidas.

No que se refere ao sector privado exige-se que a sua regulação se faça do lado do cumprimento de critérios de ordenamento das instituições de saúde, que a certificação inclua o preenchimento dos quadros de pessoal com a diferenciação ajustados à sua missão, às valências e ao volume de produção previsto, e que a demonstração dos resultados de gerência sejam obrigatórios e públicos.

As várias greves do pessoal da saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e outros trabalhadores -, em que se verificou tanto uma grande adesão desses profissionais como uma considerável compreensão por parte da população, representam sinais que devem ser entendidos e interpretados como manifestações críticas da situação que se está a viver no sector.

Os signatários deste Manifesto têm uma longa história de serviço público no Serviço Nacional de Saúde e de dedicação à causa da saúde. A maior parte deles contribuiu para que ele se implantasse nos primeiros anos da sua criação, foram seus profissionais empenhados desde então e bateram-se por diversas vezes contra os ataques que lhe foram movidos. Não estão, por isso, dispostos a assistir ao seu progressivo definhamento. Se, como é defendido, o SNS representa um dos mais relevantes serviços que a democracia tem prestado aos portugueses, então há que proceder à sua reabilitação e requalificação, alterando substancialmente o sentido da política de saúde. Passados 38 anos da sua criação, o SNS não pode ficar imóvel e alheio aos desafios que lhe são colocados. Nesta exigência estamos acompanhados pelos mais prestigiados peritos na matéria, como Ilona Kickbusch, David Gleicher e Hans Kluge da OMS, e Nigel Crisp, coordenador da Plataforma Gulbenkian Health in Portugal.

Por isso nos dirigimos também a todas as organizações partidárias que subscreveram os acordos de 10 de Novembro de 2015, na expectativa de que sejam sensíveis a esta necessidade inadiável e tomem as decisões que a situação descrita exige. Esta política de saúde já mostrou que não está a responder ao que é exigido de um governo que se afirma empenhado em dar uma orientação de esquerda às suas políticas sociais. Está, por isso, nas mãos da actual maioria parlamentar iniciarem o processo de mudança da política de saúde.

Lisboa, 10 de Julho de 2017

Assinaturas:

1. Aguinaldo Cabral / 2. Alda Siveira / 3. Alice Nobre / 4. Almerindo Rego (Presidente do Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica) / 5. Ana Abel / 6. Ana Feijão Gomes (Coordenadora e Directora Clínica da Unidade de Alcoologia de Coimbra) / 7. Ana Girão / 8. Ana Madeira / 9. Ana Matos Pires / 10. Ana Raposo / 11. Anabela Paixão / 12. Anita Vilar / 13. António Dias Ferreira / 14. António Manuel Faria-Vaz / 15. António Pais de Lacerda / 16. António Rodrigues / 17. Armando Brito de Sá / 18. Augusto de Brito / 19. Augusto Goulão / 20. Berta Abrantes / 21. Bertília Silva / 22. Carlos Folgado / 23. Carlos Godinho / 24. Carlos Góis / 25. Carlos Leça da Veiga / 26. Carlos Vasconcelos / 27. Cipriano Justo (ex-Subdirector-Geral da Saúde) / 28. Conceição Martins / 29. Cristina Bárbara / 30. Cristina Moura / 31. Cristina Veríssimo / 32. Delfim da Cruz Oliveira / 33. Deolinda Barata / 34. Eduarda Horta / 35. Eduardo Castela / 36. Eduardo Marques / 37. Eduardo Mendes / 38. Elsa Araújo Pina / 39. Emília Teixeira / 40. Eurico Figueiredo (ex-Director do Hospital Magalhães Lemos) / 41. Fernando Gomes (ex-Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos) / 42. Fernando Martinho / 43. Filipe Froes / 44. Filipe Rosas / 45. Francisco Leal Paiva / 46. Guadalupe Simões (Dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses) / 47. Guida da Ponte / 48. Hélder Gonçalves / 49. Helena Almeida / 50. Helena Lopes da Silva / 51. Henrique Delgado Martins / 52. Henrique Sá Couto / 53. Hugo Esteves / 54. Isabel do Carmo / 55. Isabel Duarte / 56. Isabel Ingrid Sampaio / 57. Isabel Loureiro (ex-Coordenadora Nacional da Promoção e Educação para a Saúde) / 58. Isabel Pereira / 59. Isabel Serejo / 60. Isabel Vidal Costa / 61. Isadora Rusga / 62. Ivone Barracha / 63. Jaime Correia de Sousa / 64. Jaime Mendes (ex-Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos) / 65. João Álvaro Correia da Cunha (Ex-Presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria) / 66. João Cravino / 67. João Lavinha (ex-Director do Instituto Ricardo Jorge) / 68. João Mário Bárbara / 69. João Paulo Fragoso / 70. João Proença / 71. Jorge Brandão / 72. Jorge Espírito Santo / 73. Jorge Seabra / 74. José Aranda da Silva (ex-Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos) / 75. José Carlos Martins (Presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses) / 76. José Carlos Santos / 77. José Diogo Barata (Presidente do Colégio de Nefrologia) / 78. José Frade / 79. José Manuel Boavida (ex-Director do Programa Nacional para a Diabetes) / 80. Lancie de Sousa / 81. Luís Gamito (ex-Director do Hospital Júlio de Matos) / 82. Luís Ribeiro / 83. Manuel João Manuel / 84. Manuela Vieira da Silva / 85. Maria Alice Carneiro / 86. Maria Antónia Lavinha / 87. Maria Augusta de Sousa (ex-Bastonária da Ordem dos Enfermeiros) / 88. Maria da Luz Duque / 89. Maria Gorete Pereira / 90. Maria João Andrade / 91. Maria José Dias Ferreira / 92. Maria Manuel Deveza / 93. Maria Manuela Fernandes / 94. Mariana Neto / 95. Mário Carreira / 96. Mário Jorge Neves (Presidente da Federação Nacional dos Médicos) / 97. Mário Pereira / 98. Nídia Zózimo / 99. Orlandina Maia / 100. Patrícia Alves / 101. Patrícia Branco / 102. Paula Duarte / 103. Paulo Fidalgo / 104. Paulo Taborda / 105. Pedro Marques da Silva / 106. Pedro Migueis / 107. Pedro Paulo Mendes / 108. Rui Lourenço (ex-Presidente da ARS do Algarve) / 109. Rui de Oliveira (ex-Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, antes do 25 de Abril) / 110. Sara Proença / 111. Sérgio Esperança (ex-Presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Centro) / 112. Sofia Crisóstomo / 113. Teresa Ferreira / 114. Teresa Gago / 115. Teresa Laginha


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Plataforma Cidadã De Resistência À Destruição Do SNS


PLATAFORMA CIDADÃ DE RESISTÊNCIA À DESTRUIÇÃO DO SNS

A reestruturação do SNS, com o novo pacote legislativo em vigor desde o dia 1 de Janeiro, conduzirá inevitavelmente ao seu desmantelamento. O governo assume que pretende o financiamento do serviço através do esforço acrescido dos seus utentes, por via, não dos impostos e contribuições que pagam, mas através do aumento do valor e número de taxas moderadoras, restrição do número de utentes isentos do seu pagamento, diminuição da parcela do OE para a saúde, decréscimo da quantidade e qualidade de serviços oferecidos. A actual legislação limitará, pelo esforço económico que representa para milhares de famílias já economicamente fragilizadas, um claro impedimento das mesmas no acesso aos cuidados de saúde e um retrocesso na defesa e melhoria da Saúde Mental, ao não abranger gratuitamente e efectivamente toda a população do país.

Neste contexto é importante sublinhar que o Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa estabelece que:

1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.

2. O direito à protecção da saúde é realizado:

a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;

b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.

3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:

a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;

b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;

c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;

d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;

e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;

f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.

4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.

A violação do espírito constitucional, a intenção da imposição de alteração à Constituição da República Portuguesa, bem como a negação da definição positiva de saúde da Organização Mundial de Saúde, que inclui factores como a alimentação, a actividade física e o acesso ao sistema de saúde, é visível quando ficámos a saber que de acordo com a nova legislação:

1) os centros de saúde diminuirão o seu horário de funcionamento (encerrando mais cedo e aos fins-de-semana).

2) Que apenas ficarão isentos do pagamento de taxas moderadoras famílias com orçamentos iguais ou inferiores a 628€, independentemente no número de dependentes do agregado familiar e mediante preenchimento prévio de um requerimento, com comprovação de rendimentos, a renovar anualmente; o que obrigará ao seu pagamento grande parte de reformados, estudantes, trabalhadores precários, desempregados, sem-abrigo e a esmagadora maioria de portugueses.

2.1) Que para além do carácter discriminatório subjacente ao reconhecimento público e assunção de “insuficiência económica” agora exigida, o requerimento de pedido de isenção implicará o levantamento do sigilo bancário apenas para os mais desfavorecidos.

3) Que serão excluídos da referida isenção doentes crónicos, como os doentes oncológicos, com grau de incapacidade inferior a 60% (de acordo com as novas restrições para avaliação do grau de invalidez, estaremos a falar de praticamente todos os doentes oncológicos).

4) Que o actual governo preconiza ainda o pagamento de taxas moderadoras “pelo envio de um email ou de um telefonema ao médico de família”, considerando ambos como actos médicos prestados, mesmo sem a presença física do utente.
De salientar, ainda, o facto do ministro Paulo Macedo ter já anunciado um novo aumento das referidas taxas para os anos de 2012 e 2013.

O cenário previsível para os próximos anos, se nada for feito que impeça o avanço de tais medidas, empurrará os mais favorecidos para o sector privado e para o negócio dos seguros de saúde, deixando morrer, à porta dos hospitais públicos, os que não possuírem condições financeiras para suportar os custos que lhe são agora impostos. Acrescente-se a isto o facto de assistirmos a uma crescente pauperização e precarização salarial da classe média, bem como o facto das seguradoras não cobrirem terapias demasiado dispendiosas (como a quimioterapia) ou demasiado prolongadas e de submeterem a rigorosos exames médicos os segurados, como condição prévia de aceitação (rejeitando, naturalmente, os já doentes).

O governo estima um encaixe financeiro na ordem de vários milhões de euros com estas medidas, à custa dos que menos podem pagar, mas nunca é demais lembrar que permite, aceita e até encoraja a fuga de capitais ou a sediação de empresas em off-shores, numa clara prática de evasão fiscal legalizada.

É necessário recordar ainda que o direito de resistência e desobediência civil está previsto no art.º 21 da Constituição da República:

“Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

A PLATAFORMA CIDADÃ CONTRA A DESTRUIÇÃO DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE REJEITA:
■UMA DEMOCRACIA QUE IMPLEMENTA MEDIDAS REACCIONÁRIAS, reduzindo um direito básico dos cidadãos, o direito à saúde, a um sistema mercantilista baseado nos interesses e lucros de uma elite restrita.
■A PRÁTICA REITERADA DE NEGAÇÃO da DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, que estabelece a sua universalidade, baseada na dignidade fundamental que pertence a toda a humanidade e que, subsequentemente declara que os mesmos direitos são automaticamente extensivos a todos e não podem ser negados sob nenhum pretexto ou em resultado de qualquer acção cometida por qualquer indivíduo ou governo, incluindo o direito à saúde:

Artigo 1.°

“Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

Artigo 2.º

“Todo o homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.

Artigo 25.º

“Todos têm direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si próprios e à sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.”

A luta pela democratização dos serviços de saúde, representou e representa uma vitória significativa da humanidade.

Quando conquistamos esses espaços de actuação da sociedade na lei, começa a luta para garanti-los na prática.

Nesse sentido, a PLATAFORMA CIDADÃ CONTRA A DESTRUIÇÃO DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE lutará pelo prosseguimento do princípio da equidade definido pela ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE e pelas regras de implementação consignadas pela CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA, elaboradas no espírito da CARTA UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, pugnando por um Serviço Nacional de Saúde inclusivo, universal e que contemple a integração das Medicinas Alternativas, cuja eficácia se encontra cientificamente comprovada,

COMPROMETENDO-SE A AGIR EM SUA DEFESA.

Os subscritores,


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Manuela Ferreira Leite e a pena de morte

Manuela Ferreira Leite defendeu ontem, perante as câmaras de televisão, que Quem tem mais de 70 anos e quer fazer hemodiálise tem de pagar.





Hemodiálise

De acordo com um estudo da Administração Central dos Sistemas de Saúde (ACSS), Os 78,30 euros que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) paga por doente por dia aos hospitais públicos que oferecem este tratamento equivalem, respetivamente, a 126% e 139% do custo real, que é de 62,02 euros no HSJ e de 56,30 nos HUC. Isto é, quem faça 3 tratamentos por semana "custa" ao SNS 234,90 euros.

A Drª Manuela Ferreira Leite o que pensa é que quem tem mais de 70 anos, tem que ter este tratamento e não tem 704,70 euros por semana para o pagar deve morrer. A Drª Manuela Ferreira Leite não é a favor do enforcamento mas a favor da eutanásia não consentida. Uma pena de morte!

A Drª Manuela Ferreira Leite deve ser rapidamente internada ou, se se provar que não está doente, impedida de exercer os direitos cívicos de ser eleita ou eleger.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Saúde - em estado de insuficiência económica"

Quando no projecto neoliberal se fala em cortar as “gorduras do Estado” não tenhamos dúvidas que se está a falar de saúde e educação, embora para o público em geral seja compreendido como referido à Administração Central. É um dos equívocos. A grande fundadora Margaret Tatcher esteve quase a desmantelar grandes hospitais do serviço público inglês como o Hammersmith, se não tivesse havido um movimento internacional de salvaguarda.

Saiu agora o decreto-lei sobre as taxas moderadoras. Já saiu a 29 de Novembro e entra em vigor a 1 de Janeiro de 2012. Toda a discussão pública está a ser posterior. São aí definidos como tendo insuficiência económica os utentes cujo rendimento médio familiar “seja igual ou inferior a uma vez e meia o valor do indexante de apoios sociais” Ou seja, só é “insuficiente” aquele que pertencer a um agregado familiar cujo rendimento mensal seja inferior a 628 euros e 83 cêntimos, de acordo com o cálculo que está a ser feito pelos Serviços Sociais da Saúde. Tal definição vale para as taxas moderadoras e para o pagamento de transportes não urgentes. Por exemplo, um casal em que qualquer dos dois ganhe o ordenado mínimo, 485€, e cuja existência é feita de milagres – renda, água, luz, transportes – tem que pagar taxa moderadora se ousar ir a um serviço público de saúde e deverá arranjar dinheiro para pagar o transporte. Com as alterações já em vigor temos observado falta de doentes às consultas hospitalares, que atribuímos a falta de dinheiro para os transportes. Talvez a partir de 1 de Janeiro se aliviem então as listas de espera...

E a partir dessa data assistiremos também a que os que são “suficientes” (acima dos 628€ para toda a família) paguem 20 € por uma ida à urgência e 5 euros por uma consulta. E aqueles que dizem que o pagamento das taxas está a moderar a ida à urgência e a desviar para os Centros de Saúde, está a falar da “Alice no país das maravilhas.” Os cuidados primários não têm capacidade para receber. Essa capacidade tem diminuído e não se vê projecto concreto de unidades locais de saúde. Há apenas afirmações genéricas, discursos de invenção da roda, que qualquer pessoa assina por baixo. Mas que tem um efeito demagógico para quem estiver fora o assunto.

A crueza dos números ao nível do utente é esta. Parece que estamos apenas a ver um detalhe, um pormenor. É preciso é ver “o todo”. Mas é isto que vai atingir milhões de pessoas. São os números pequeninos... Depois há os números muito grandes, os dos hospitais e esses também serão eles próprios insuficientes.

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P.S. Posteriormente à saída deste decreto-lei e ao anúncio das subidas de tabelas das taxas moderadoras para 20€ na urgência hospitalar e 5€ na consulta no centro de saúde, saíram tabelas que indicam o pagamento de exames auxiliares de diagnóstico na urgência (que são pedidos quase sempre) podendo o custo total chegar a 50€. A consulta de especialidade hospitalar terá o custo de 10€, a ida à urgência no centro de saúde custará 10€, a ida à urgência no centro de saúde vai custar 10€.

Tendo o Ministro de Saúde dito no programa Prós e Contras que 5 milhões de portugueses não pagarão taxas moderadoras, isto inclui as crianças até aos 12 anos que estão excluídas das taxas, os doentes oncológicos em sessões de quimioterapia e outras situações mais específicas. Os restantes serão pertencentes a agregados familiares com menos de 628€ mensais, o que nos indica que estes abrangem alguns milhões de pessoas, dando-nos a dimensão da pobreza em Portugal. Mas entre os que irão pagar porque estão acima do escalão, situam-se muitos que vivem na fronteira da pobreza e para os quais estes pagamentos se transformam num verdadeiro bloqueio de utilização do Serviço Nacional de Saúde, que deveria ser gratuito e que funciona na base do Orçamento Geral do Estado e portanto dos impostos.

Um texto de Isabel do Carmo publicado em Entre as brumas da memória