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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"CARTA ABERTA POR UMA GESTÃO PÚBLICA DO TEATRO MARIA MATOS"


A 17 de Dezembro de 2017, a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, (CML), Catarina Vaz Pinto, anunciou numa entrevista ao jornal Público que a saída do director artístico do Teatro Maria Matos (TMM), Mark Deputter, para a Culturgest e o encerramento do Teatro da Cornucópia – sedeado no espaço alugado do Teatro do Bairro Alto (TBA) – levaram a autarquia a repensar a rede de teatros municipais. Na mesma entrevista afirmou que a CML irá entregar a gestão do TMM, espaço que lhe pertence, a uma entidade privada, e que este passará a ter “um modelo de programação bastante diferente, com carreiras mais longas e uma maior preocupação de captação de público, para ser rentável”. Anunciou ainda que a CML se responsabiliza por dois novos teatros: o TBA, agora alugado e gerido pela CML, vocacionado “para o teatro e as artes performativas contemporâneas emergentes”; e o Teatro Luís de Camões (TLC), recém-reabilitado pela CML, para a programação infanto-juvenil.

Desde esse anúncio, foi criada uma petição pela gestão pública do Teatro Maria Matos, que reuniu mais de 2750 assinaturas e que foi entregue à Assembleia Municipal.

A forma como esta decisão foi tomada e anunciada, sem debate prévio, demonstrou desrespeito pelos cidadãos e por um processo democrático que, como a CML tanto tem vindo a afirmar, se quer participado. Tal foi passível de ser comprovado - não obstante a disponibilidade sem precedentes da Sra. Vereadora da Cultura para participar num debate organizado pelos peticionários no dia 14 de Fevereiro - pelo facto de este ter tido lugar dois dias antes da reunião de Câmara, onde será votado um documento que elenca linhas orientadoras relativas à programação artística do Teatro Maria Matos, i. e, quando as decisões finais parecem já estar tomadas. Do mesmo modo, a forma como nas suas intervenções os factos e perguntas concretas dos presentes foram reduzidos a “mera emoção” e descartados sem direito efectivo a resposta clara, minou a possibilidade de uma real conversa transformando-a numa encenação de democraticidade. Nós, enquanto público e artistas, produtores e programadores, críticos e investigadores, temos uma opinião, feita de emoção e de razão. Vivemos na cidade, e frequentamos os lugares; temos pensamento sobre o papel da autarquia na definição da política de cultura de Lisboa, e acreditamos que só com a multiplicidade de todas as vozes na definição desta mesma política conseguiremos uma cidade mais democrática.

Assim, e no seguimento deste processo, vimos com esta Carta Aberta, documento de trabalho colectivamente redigido:

I. Clarificar a opinião pública sobre um conjunto de pontos a nosso ver essenciais para a correcta avaliação do que está em causa nesta decisão; 

II. Solicitar o esclarecimento por parte da vereadora de uma série de questões fundamentais para a boa compreensão da sua decisão, com a qual não concordamos, e que, na ausência destes esclarecimentos, nos parece pouco transparente.

Se na secção (I) procuramos responder a discussões travadas na esfera pública ensaiando, sempre que possível, clarificar factos, na secção (II) sublinhamos a insuficiência de dados facultados pela CML em relação aos custos previstos inerentes à operação proposta, insistindo na necessidade de conhecimento de valores concretos e na maior transparência da CML.


I. Clarificações

No debate do dia 14 de Fevereiro, a Vereadora da Cultura repetiu várias vezes, que o actual projecto do Teatro Maria Matos acaba aqui como consequência da saída do seu director artístico. Isto não é evidente para nós. A saída do director artístico é uma coisa natural. Defender que a missão de determinado espaço cultural municipal não sobrevive à saída de um director artístico já não é natural e mostra uma falta de sentido de responsabilidade em relação ao investimento que se fez, em dinheiro e conhecimento técnico, na construção desta missão. No ecossistema cultural da cidade de Lisboa - com o qual a Vereadora da Cultura se preocupa, como deve - o Teatro Maria Matos não é apenas um espaço para a apresentação de criação artística contemporânea / experimental / emergente. Isto é feito em vários outros espaços na cidade, dos quais o Teatro Maria Matos se distingue por ser o único a assumir um posicionamento político (não partidário) e a convidar-nos para pensarmos o nosso mundo e a forma como vamos viver em conjunto. Acreditamos que cabe à CML ser a garantia da orientação/missão do Teatro Maria Matos, por ser única na cidade e porque se tornou indispensável para muitos cidadãos. Portanto, longe de lamentarmos o fim de um projecto, esperamos que lhe seja dada continuidade, ansiosos para ver de que forma um novo director artístico enfrentará o desafio de pensar connosco a forma como vamos viver em conjunto.

1. Uma comunidade e não um público-alvo.k
O TMM excedeu a vocação de relação programação/público e passou a desempenhar também o papel crucial de ponto de encontro, entre crítica e pensamento, na qual os espectadores se tornaram participantes activos. Para tal, colaboram vários factores que vão muito além do projecto curatorial ali levado a cabo. Articulando uma relação arquitectónica singular entre a sala de espectáculos, o foyer e o bar-lugar-de-encontro-janela-para-a-rua - com uma escala que permitiu que fosse apropriada por moradores, artistas, e frequentadores quaisquer; e tornando porosas as suas fronteiras à cidade e à formação de comunidade - o TMM criou a potência de encontro, capaz de alterar as condições de possibilidade do próprio lugar. O TMM deixou pois de ser “só um teatro” e passou para o domínio público. Os grupos que aqui se juntaram reivindicam este com-domínio para uso público. As decisões sobre o destino deste espaço devem ter em conta o que aqui se criou, o uso do espaço físico e geográfico, as práticas que cresceram neste espaço concreto e que não são linearmente transportáveis para outro lugar. A mudança anunciada resultará num desmantelamento. Trabalhar com condições e sinergias activas é diferente de começar tudo de novo. Há vozes que desejam ter lugar, desejam poder continuar a discutir os lugares públicos. Que este acontecimento o tenha tornado visível a partir de um teatro é já de si uma vitória.

2. Um dos argumentos levantados pela Vereadora da Cultura foi a desadequação do espaço do TMM à programação que tem acolhido, expressada por em quase toda a sua programação se ter colocado uma bancada amovível no palco para assegurar uma relação menos distante entre público e artistas. A realidade é diferente: entre Junho de 2009 e Junho de 2017, o TMM apresentou cerca de 140 espectáculos de teatro/dança com bancada amovível (de 180 pessoas) e 90 espectáculos usando toda a capacidade da sala; e cerca de 40 concertos com bancada e 95 concertos usando toda a sala. Ou seja, só contando com a programação de teatro houve uma relação 60/40 com/sem bancada amovível. Contando com toda a programação a relação é 50/50. Nesta argumentação da Vereadora, a utilização da bancada amovível é encarada apenas como característica fragilizadora do espaço MM. A sua mais-valia enquanto dispositivo de flexibilização do espaço capaz de apoiar a afirmação e crescimento gradual de projectos artísticos, simultânea à formação e crescimento de públicos não é reconhecida. Foram vários os projectos artísticos que começaram por se apresentar com a bancada amovível e passaram, mais tarde, a apresentar-se usando a sala completa, nomeadamente: a Mala Voadora, Joana Sá ou Raquel Castro.

3. Um outro argumento levantado foi a falta de público para encher a sala, reforçada pela descida dos números nos últimos anos, o que obriga a CML a repensar o TMM, como espaço, e a sua programação. Os números dos últimos anos são os que se seguem e revelam a fragilidade deste argumento:

Ano : Público
2010: 23 519
2011: 22 593
2012: 21 889
2013: 32 402
2014: 36 654
2015: 31 139
2016: 24 329
2017: 34 662

Ao mesmo tempo, acreditamos que os números de público não podem ser a medida da qualidade dos espectáculos e, como tal, não devem servir de pretexto nem à entrega de um equipamento municipal à gestão privada, nem a uma alteração profunda da sua missão artística.

4. Foi defendido pela Vereadora da Cultura que a programação do TMM poderia passar, com vantagem, para dois outros teatros (TBA e TLC). Temos as maiores dúvidas sobre isso. A separação e desmembramento das várias dimensões da missão de um espaço cultural resulta na perda de consistência e sentido. Esta decisão reforça a concentração da produção artística experimental “contemporânea” no eixo central Cais do Sodré - Bairro Alto - Rato, contribuindo para espartilhar geograficamente e dividir em segmentos de consumo, sem contacto entre si, a fruição cultural da cidade. Vem também despojar o eixo norte-nascente de Lisboa do único equipamento cultural municipal dedicado às artes performativas. Finalmente, apesar da dita “desadequação” do espaço do TMM à produção artística contemporânea, há espectáculos que nele têm tido lugar e que dificilmente poderão ter lugar no TBA: por um lado, uma vez que este se insere num espaço residencial, não houve garantias da existência de condições de isolamento acústico exigido, por exemplo, no caso de alguns concertos (parte importante da actual programação do MM); por outro, uma vez que a Vereadora também não garantiu que o TBA venha a ter as condições técnicas necessárias à realização de espectáculos de média escala com maior exigência do ponto de vista técnico.

5. Por que razão dois por um e não um mais dois? No que diz respeito a uma eventual incapacidade da CML de manter a gestão do TMM, ao mesmo tempo que a dos dois novos espaços referidos (TBA e TLC), afirmada pela Vereadora da Cultura em reunião, o programador António Pinto Ribeiro foi muito claro no seu artigo de opinião (Público, 16.12.2018): “No contexto financeiro actual, nada obstaria a que a CML não pudesse manter o Maria Matos, o Teatro Luís de Camões e o Teatro do Bairro Alto — como unidade de produção experimental —, desde que essa indicação fosse dada como uma prioridade na gestão da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC).

6. Por que razão não deve um teatro municipal ter gestão privada, de vocação comercial? A programação comercial, pela sua natureza e fins maioritariamente lucrativos, é vocação de privados que devem investir, arriscar, beneficiar de lucros no quadro legal, em concorrência. A CML, ao entrar nesta lógica comercial, está a fomentar competição desleal no mercado do teatro comercial permitindo ao futuro concessionário competir em desigualdade com outros privados, uma vez que beneficiará de recursos excepcionais (pagos pelos nossos impostos durante anos). O dever da CML é assegurar que a arte seja o mais possível acessível a todos, quer do lado da criação quer do lado da fruição e não pode colocar em causa princípios como a boa gestão de dinheiros públicos. De acordo com os relatórios da EGEAC, ao longo dos últimos 8 anos, terá sido feito um investimento de 92.939 euros em melhorias estruturais e equipamentos. Foi igualmente feito um investimento de 16.000 euros num novo website. A Vereadora da Cultura afirmou na reunião de dia 14 de Feveriero algo mais preocupante: o investimento financeiro em equipamento técnico do MM será igualmente cedido ao futuro concessionário privado do espaço. Parece, pois, que neste caso concreto o investimento feito com capitais públicos vai servir a entidade privada que vier gerir o TMM.


II. Dúvidas

A forma infeliz em que foi anunciada a decisão da atribuição da gestão do TMM a privados faz ressaltar o que parece ser uma marca do executivo de Fernando Medina: o desenho top-down da cidade sem que os seus habitantes sejam tidos em conta. Esta tem vindo a ser observada no incentivo camarário à financeirização do solo urbano, cujo aspecto mais visível é o crescente número de autorizações concedidas a equipamentos vocacionados para o turismo, e, o menos visível, a vaga de despejos de lojas, habitações e instituições culturais, algumas delas com mais de um século de existência. Sendo inegável o momento de transformação que Lisboa actualmente atravessa e o papel da CML neste desenho – e, dentro deste, o papel esperado da cultura e da EGEAC nesse processo – vimos assim solicitar a disponibilização pública dos dados concretos que a este caso dizem respeito, para que cidadãs e cidadãos possam compreender e validar a justeza de tais decisões.

1. Custos

1.1 Receitas:

- Qual a receita prevista com a privatização da gestão do TMM, i.e, por que valor mensal se conta concessionar o equipamento?

- Qual a figura jurídica sob a qual se processará esta concessão e mediante que condições?

1.2. Despesas:

- De acordo com os relatórios da EGEAC ao longo dos últimos 8 anos terá sido feito um investimento de 92.939 euros em melhorias estruturais e equipamentos imobilizados. Foi igualmente feito um investimento de 16 mil euros num novo website. O investimento na reabilitação do edifício beneficiará sempre a entidade privada que o vier concessionar. A vereadora afirmou na reunião de dia 14 algo mais preocupante, o investimento financeiro em equipamento técnico imobilizado do MM será igualmente cedido ao futuro concessionário privado do espaço. Há alguma parte destes investimentos feitos com capital público que, com esta decisão, não passarão para as mãos da entidade privada que vier gerir o teatro?

- Quais os custos do aluguer e despesas correntes da sala do TBA?

- Quanto está previsto custarem as obras a serem feitas neste equipamento (TBA), quais serão, e como será atribuída a sua concessão?

- Quanto está previsto gastar-se e como se procederá na compra de equipamento para o TBA?

- Quanto foi gasto na recuperação do Teatro Luiz de Camões?

- Quanto se conta gastar na manutenção da equipa dos novos equipamentos?

- Qual o balanço esperado das receitas e despesas?

2. Outros

2.1. Relação com a cidade e suas freguesias

- Num momento em que a grande maioria da população jovem Lisboeta tem vindo a abandonar o centro da cidade devido aos elevados preços da habitação, acabar com a oferta cultural experimental e de média dimensão na zona norte da cidade parece ser um contrassenso, uma decisão que contribui para o desequilíbrio territorial em curso.

Por que razão concentrar tudo numa área específica da cidade, eixo Cais do Sodré- Bairro Alto – Rato? 

- Tendo sido afirmado pela Vereadora da Cultura que neste momento está a repensar toda a rede de equipamentos culturais municipais de Lisboa, cumpre-nos perguntar quais os planos, a nível cultural, para as freguesias de Alvalade, Areeiro, Lumiar, Benfica e Marvila?

- O que vai acontecer às parcerias estabelecidas com redes internacionais, uma parte significativa do orçamento para a programação do TMM, e que se têm revelado essenciais na afirmação da cidade num tecido de artes performativas global?

- Havendo já o Tivoli, o Capitólio (e futuramente o Teatro Variedades), o Mundial, o S. Jorge, o Coliseu, e dezenas de outras salas, por que razão precisa a cidade de mais um teatro vocacionado para o teatro comercial?

2.2. Garantias e salvaguardas se a decisão de cedência da gestão do TMM a privados se efectivar.

Não concordando com a cedência da gestão do TMM a privados, gostaríamos de saber quais as garantias ou salvaguardas que a CML irá exigir aos futuros concorrentes:

- A CML terá a capacidade para definir um preço máximo de entrada e com isso manter a acessibilidade aos espectáculos da maior parte da população, independentemente do seu rendimento?

- A CML será capaz de garantir um conjunto de descontos, como o que acontece com outros equipamentos (ex. reformados, desempregados, estudantes, pessoas com deficiência, entre outros)?

- Quem fará a avaliação das propostas? Serão as mesmas alvo de discussão pública?

- Como será feita a avaliação durante o período de concessão?

- Que garantias tem a CML que as obrigações serão cumpridas pelo privado?

- Imaginemos que por alguma razão o privado incumpre o contrato, como será ressarcida a CML pelo incumprimento do mesmo?

- Há algum documento produzido? Onde se pode consultar?

O público esclarecimento destas questões pode não apenas ajudar a compreender o que está em causa nesta proposta como contribuir para o cumprimento de políticas culturais municipais mais democráticas, transparentes e participadas.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Um Jogo da Glória com o Teatro Maria Matos" - Joana Manuel


Do Marquês de Pombal para cima vai deixar de haver teatros ao serviço de quem faz teatro em Lisboa.

Setenta e sete dias após as eleições autárquicas, 52 dias após ter tomado novamente
posse como vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto deu uma entrevista em forma de Jogo da Glória, com o Teatro Municipal Maria Matos feito peão de plástico. Ao primeiro rolar dos dados é-nos prometido “um novo ciclo de programação” (e pensamos, era de esperar, dada a saída do programador), um novo ciclo vocacionado para “teatro de qualidade para grande público — comédia, drama ou teatro musical” (e pensamos, mas então o programador é a Câmara Municipal de Lisboa? que etiquetas estranhas para um teatro municipal...); e que “haverá concurso público para a selecção de um projecto artístico” (vá, menos mau, procura-se um projecto artístico).

Novo rolar de dados. E ficamos a saber que “o Maria Matos terá um modelo de programação com carreiras mais longas” (olha, não está mal pensado, há tantos espectáculos de quem toda a gente fala mas que ninguém viu por terem carreiras de três dias), terá “uma maior preocupação de captação de público, para ser rentável” (e já respiramos fundo para nos prepararmos para o que aí vem) e que “toda a exploração do teatro vai ser deixada na mão da entidade que ganhar o concurso”. E entendemos. Mais do que um projecto artístico, o Maria Matos vai ter um projecto de negócio. Como o Capitólio. Quando não se sabe ainda qual o destino traçado para o Teatro Variedades, também municipal, também em reabilitação.

Fala-se, portanto, não de um novo ciclo de programação, mas de concessionar a gestão do Maria Matos no seu todo. Setenta e sete dias após as eleições autárquicas em que nem o programa do partido que elegeu Catarina Vaz Pinto nem o discurso de campanha anunciaram esta medida. Numa entrevista que não nasce de qualquer tipo de debate público, ou sequer camarário. Este é o primeiro problema desta decisão: é intrinsecamente antidemocrática, anunciada com uma estranha descontracção, e labora em discursos circulares que se resolviam com uma resposta directa — o Maria Matos vai ser concessionado a privados e deixar, para todos os efeitos, de ser um teatro municipal. Vimos isto no Rivoli e conhecemos os maus resultados. Mas foi no Porto e já foi há muito tempo.

Os dados continuam a rolar. Entra como espelho a Culturgest, que receberá o anterior programador do Maria Matos. Sugere-se uma redundância na programação dos dois equipamentos, apesar de Mark Deputter já ter feito bastas declarações afirmando que não vai fazer na Culturgest o que fazia no Maria Matos e de, na última década, a Culturgest e o Maria Matos terem convivido perfeitamente e de forma até por vezes complementar. E num último rolar dos dados, fala-se pelos artistas e estabelece-se que a criação contemporânea, o “emergente-emergente” (mas não basta ser emergente só uma vez?), está em processo de mapeamento vertical pela vereadora: Alkantara, Gaivotas6, ZDB-Negócio, Teatro do Bairro Alto, para merecer chegar, no topo da pirâmide, ao Chiado, ao Rossio (Teatro São Luiz e TNDMII) e, quem sabe, às Avenidas Novas. Há uma espécie de loteamento da criação. Uma concentração geográfica que não se compadece de dez anos de construção no Maria Matos de um espaço de intersecção de música, teatro, performance, dança, investigação e debate, instalação e serviço educativo/infantil, com formação e experiência de equipas, melhoramento das condições técnicas, criação de dinâmicas e de públicos. A ironia (espera-se que involuntária) é que a vereadora da Cultura ainda volta a pôr o dedo numa das feridas, a de que as companhias “não têm os seus espaços, circulam pelas várias programações, às vezes com insuficiente visibilidade porque as carreiras são muito curtas”. Mas aqui apetece ser sarcástico e dizer apenas que, nesse caso, ainda bem que o Maria Matos se vai vocacionar para carreiras mais longas. Só não são para essas companhias. Não são para esses artistas. E esses artistas deixam de ser para essas geografias e demografias. Porque, visando uma maior rentabilidade, ficamos sem equipamentos dedicados à criação contemporânea e não comercial na zona norte de Lisboa. Do Marquês de Pombal para cima deixa de haver teatros ao serviço de quem faz teatro em Lisboa.

O resgate do Teatro do Bairro Alto (TBA) para a criação contemporânea terá virtudes, pode ser interessante para várias programações e programadores, mas não tem de anular a continuidade do Maria Matos como teatro municipal. Não temos espaços a mais, temos espaços a menos. E por virtuoso que seja salvar uma sala histórica e com potencialidades próprias, recambiar para o TBA os artistas e espectáculos que encontravam espaço no Maria Matos encerra vários problemas. Primeiro, a continuidade de um movimento, não exclusivo da Cultura (vale a pena falar dos CTT?), em que o sector público constrói o projecto, equipa-o, dinamiza-o, para depois o entregar a privados e “ao mercado”, enquanto simultaneamente passa a exercer as suas funções num espaço arrendado — o Teatro do Bairro Alto não é propriedade da CML. Depois, a noção de que há um tipo de criação artística e de pensamento que deve ser circunscrito a um gueto gourmet e cosmopolita e não precisa de ter acesso a outras zonas da cidade — e, portanto, a outro tipo de salas, a outros equipamentos municipais, a outras populações, a outros públicos. Porque ao fechar abruptamente o caminho que o Maria Matos tem feito, não é só aos artistas que se fecha o acesso. É a outros públicos que se fecha o acesso a determinados artistas e criações. Além de que há um acesso essencial que não está garantido no Teatro do Bairro Alto, como não está no Negócio ou nas Gaivotas: o de pessoas com mobilidade reduzida, quer como público quer como performers, criando uma forma de exclusão para um grupo de cidadãos que se vêem sem os mesmos direitos que os normalizados — um retrocesso notável no derrubar de barreiras que tanto se persegue nos discursos oficiais.

Disto decorre a petição pela gestão pública do Maria Matos*, que podemos subscrever para exigir um debate sério acerca da política de concessões de equipamentos públicos, da rede de teatros municipais em geral e do Maria Matos em particular. Temos direito a informação concreta sobre o que leva realmente a esta decisão — quais os gastos em causa? O que se procura poupar? Por que razão se aliena assim um equipamento em bom funcionamento? Qual o destino dos meios técnicos e da equipa que constitui o MM? Por que razão o tecido artístico e cultural, por que razão o público, não merecem a existência do Teatro do Bairro Alto e do Teatro Municipal Maria Matos?

Estamos perante uma decisão imposta de cima para baixo, que mistura batatas com alguidares e que, sobretudo, não ouviu os trabalhadores do Maria Matos, os artistas, o público. Não ouviu a cidade. E que continua a usar o investimento público para alimentar a lógica da mercantilização de tudo para todos. Mas para isso já temos o mercado e sabemos o suficiente para não crer na inocência do Jogo da Glória nem aceitar que os nossos equipamentos culturais sejam peões de plástico. Os poderes públicos são para outras garantias. Outras possibilidades.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

"Por uma gestão pública do Maria Matos" - Petição


Para: Exmª Senhora Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Lisboa, Arq. Helena Roseta; Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina, Exmª Senhora Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Dra. Catarina Vaz Pinto

Teve-se conhecimento, através da entrevista concedida ao Jornal Público no passado dia 17 de Dezembro pela Vereadora da Cultura da Câmara municipal de Lisboa, da intenção desta em concessionar a uma entidade privada com fins lucrativos a gestão do Teatro Municipal Maria Matos.

Em causa está a cedência ao sector privado de um equipamento municipal público em pleno funcionamento e em reconhecido crescimento. E no qual, ao longo dos últimos 10 anos, se fez um investimento público continuado que abarcou obras de requalificação do espaço, a compra de equipamento técnico actualizado e de ponta, a formação de recursos humanos, a capacitação de agentes culturais e a formação de públicos diferenciados. Investimento este que não apenas fortaleceu o tecido cultural da cidade e do país como recolocou o teatro no território que lhe é circundante, e o tornou um ponto central de várias redes culturais internacionais.

A entrega do teatro Maria Matos à gestão privada não só anula todo este trabalho e investimento público, como oferece os seus frutos de mão beijada à entidade à qual vier a ser concessionado, pondo em causa a vocação pública que este equipamento conquistou, e empobrecendo a cidade e o território onde se insere.

Além disso, anunciar a um jornal esta decisão, na semana antes do Natal, pouco depois de eleições autárquicas quando estes desígnios não constavam do programa político do partido que governa a Câmara, sem que tenha havido qualquer espaço para debate público, demonstra desrespeito pelos cidadãos e pelo processo democrático.

Precisamos de maior debate público e maior investimento público na cultura. Não podemos perder mais nenhum equipamento cultural municipal.

Por estas razões, nós, abaixo assinado, vimos por este meio manifestar-nos contra a entrega do Teatro Municipal Maria Matos à gestão privada e a favor da continuação da gestão pública do mesmo.

domingo, 23 de novembro de 2014

Grande notícia! - Voltou a "Círculo das Letras"


Recebi esta notícia do meu querido amigo Fernando Vicente:

Queremos informar todos os nossos amigos que depois do sofrido encerramento das nossas instalações da Rua Augusto Gil abrimos uma nova Livraria na Rua Voz do Operário, 62 em Lisboa.

em 4 de Dezembro (5ª feira) às 18.00h inauguração de Exposição de Arte do Rui A Pereira
apresentação do Filme de Pedro Sousa "Círculo das Letras" (o sonho e a vida da "Círculo 1")
Porto de Honra/momentos de reencontro e amizade com todos os nossos amigos

Esperamos trocar um vigoroso abraço convosco
Venham

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"A cultura de direita em Portugal" - um artigo de leitura obrigatória


Jurista, historiador e consultor do Presidente da República António Araújo edita um blogue de grande qualidade: Malomil.

Este artigo é um exemplo porque se deve acompanhar este blogue.

domingo, 17 de novembro de 2013

"É altura de A Barraca dizer alguma coisa sobre o que se está a passar"



A Secretaria de Estado da Cultura defende que o actual modelo de apoios financeiros às entidades artísticas "é sinónimo de transparência e equidade"


É altura de A Barraca dizer alguma coisa sobre o que se está a passar

A Barraca desde há anos orienta artisticamente um curso profissional de teatro integrado numa IPSS – o Instituto de Desenvolvimento Social apoiado pelo Ministério de Educação - que já pôs alunos na actividade profissional , preparando-se outros para seguir cursos superiores; A Barraca contou ao longo dos últimos anos com 50.000 espectadores/estudantes da peça “Felizmente há luar” que integra o programa do 12º ano; tem levado regularmente a efeito workshops de iniciação teatral onde jovens complementam a sua educação; tem transformado jovens estagiários em profissionais competentes e de brilhantes carreiras, no entanto A Barraca no modelo de apoios financeiros às entidades artísticas que o actual Secretário de Estado defende como “sinónimo de transparência e equidade” merece um 0 na alínea que se refere a sistema educativo. Ocorre que esta mesma companhia estimula desde há 37 anos a aprendizagem e o gosto pela história e a literatura,levando ainda este ano a cena uma obra do Professor Nascimento Rosa que incide sobre o pouco estudado Pessoa jovem, outra sobre a vida,o reinado e a loucura de Dona Maria I da autoria do Professor Brasileiro António Cunha. Além disto a Barraca tem correspondido a convites do sector educativo da Fundação Calouste Gulbenkian, realizando apreciados espectáculos sobre figuras da História e da Ciência ,querendo isto dizer que o trabalho da Companhia que enriquece e apoia e é escolhido pelo sector educativo da Gulbenkian e pelos professores do país inteiro, não é reconhecido pelo “transparente e equitativo” critério dos funcionários que servem a SEC.

Além disto “o modelo de apoio que é sinónomo de transparência e equidade” não reconhece o que todo o país conhece.Ou seja, o enorme trabalho desta companhia em levar há décadas o seu teatro a todos os pontos do país de forma regular. E atribui também zero ao “ exercício de actividade fora de Lisboa”. Na verdade actualmente as instituições fazem por impedir o transito das estruturas de criação que não querem pertencer aos lobbies nada transparentes nem equitativos que puseram em funcionamento.Mas atenção então terão que definir para que todos saibamos o que significa no actual regime a expressão “fora de Lisboa”. Depois com itens assim avaliados pode classificar-se em 31º lugar num ranking de 54 estruturas apoiadas uma companhia prestigiada no país e no estrangeiro apenas para tornar justo e transparente o roubo que se lhes faz. A Barraca é a 31ª Companhia do País.Podem-me dizer assim de repente quais são as 30 melhores?A trama está bem montada temos de reconhecê-lo,não tivesse custado ao estado português um incalculável gasto em aconselhamento jurídico.

O problema é que A Barraca tem com certo tipo de dirigentes uma diferença de opinião que poderia até ser uma divergência nobre ,se esses mesmo dirigentes não tentassem autoritáriamente sufocar as vozes discordantes como a nossa, e antes as olhassem como vozes de outra familia politico-cultural que democráticamente deveriam respeitar. Como os maiores deste país, desde sempre que o nosso trabalho foi dirigido a todos,concorrendo com ele para o enriquecimento de todos e não só de alguns como prescreve a actual politica cultural que destina o seu apoio a espaços ou regiões de excelência. Qual excelência? Quem a avalia ? Os comissários politicos ? Os seus agentes? E então para onde vai a obrigação de Fomento dessa Instituição que se chama Fundo de Fomento Cultural ?

O problema é outro e trata-se apenas, finalmente, de liquidar na área cultural uma conquista que se chamou democratização, que na área da educação está a ser ferida com o apoio especial ao ensino privado e que na saúde se está a destruir com o ataque ao serviço nacional de saúde. São crimes de colarinho branco. Roubos publicos aosimpostos que todos pagam para poderem usufruir da saúde,da educação e da cultura, bens que se tornaram não sei se irreversivelmente perdidos para muitos.E todos os pagam de Norte a Sul sem se olhar às tais regiões de excelência.

É isto que se passa nada mais.E por isso enquanto ao longo dos anos o estado investiu milhões de euros nos delfins do seu contentamento, apesar de ser sempre pouco o que se gaste em cultura, a Barraca e outras poucas estruturas de criação foram reduzidas sempre a miseráveis trocos dos quais fizeram milagres com sacrifícios pessoais enormes. E agora quando em nome da austeridade e despudoradamente se corta 30 ou 40 por cento a uns, roubam-se 70 por cento de quase nada a outros para acabar de vez com incómodas divergências.

O grave é que este procedimento acontece quando as defesas são nenhumas porque quem rouba ao teatro já lançou as pessoas na depressão económica que as leva a não poder gastar senão o estritamente necessário ,já reduziu à penúria o poder local que deixou de convidar actividades culturais porque a sua possibilidade económica fica-se pela indispensável limpeza e por algum socorro social imprescindível. Por isso as bilheteiras no teatro e as vendas às autarquias acusam a crise esperando todos a todo o momento a borla salvadora, ficando apenas as verbas faraónicas do governo para os emiratos de “excelência”. E donde deveria surgir o apoio de emergência surge a estocada do novilheiro que faz sangrar o adversário para que as forças se esvaiam.

Entretanto no ano de todas as desgraças em que a Dgartes nos enganou com conselhos ainda não sabemos se levianos se traiçoeiros, deixando-nos com um apoio que não paga a limpeza e a energia da casa, ainda conseguimos contar com 15 colaboradores permanentes e apresentar ao publico uma carreira de sessenta sessões do “Menino de sua Avó” trabalho acarinhado pelo publico,pelas escolas e pelo meio académico que estuda a obra de Pessoa , espectáculo que já fez duas viagens ao Brasil uma delas para reinaugurar oficialmente o Teatro Popular Oscar Niemayer de Niteroi. Ainda apresentámos na Sé de Lisboa com casas cheias a carreira de uma obra inédita sobre Santo António de Lisboa com a colaboração do historiador Manuel Pizarro. Ainda estreámos a peça O Lavadouro no tanque publico da Madragoa com uma carreira de sessões esgotadas e ambos os espectáculos estão convidados para repetir no próximo verão uma nova carreira . Ainda temos em cena para crianças a obra de Aquilino Ribeiro Romance da Raposa aconselhado pelo plano nacional de leitura,além de termos realizado com sucesso a convite da Fundação Gulbenkian uma obra sobre Garcia de Orta . Para quem tem zero em serviço educativo não está mal. Falamos de “equidade e transparência” ? Ou de intolerância para com o que não aceita os consevadorissimos padrões da vigente contra- reforma cultural.


Maria do Céu Guerra

Petição aqui

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"imigrarte" 2013



O programa do Festival ImigrArte 2013 conta com a participação de cerca de 250 artistas, 50 espectáculos divididos nas áreas da música, dança, teatro, desfile de moda, cinema, literatura, poesia, pintura, fotografia, workshops, debates, conferências.

Programa Aqui

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

"A identidade cultural europeia é um diálogo" - por Umberto Eco


Cena do filme A Grande Ilusão de Jean Renoir

Em plena Primeira Grande Guerra Mundial, Marcel Proust criou personagens ainda atraídos pela cultura alemã. A prova, segundo o semiólogo Umberto Eco, de que os intercâmbios culturais contribuíram mais que tudo o resto para forjar a Europa de hoje.

Original aqui