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terça-feira, 7 de agosto de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Calpúrnia"


Naquele amanhecer do ano 44 antes de Cristo, Calpúrnia acordou a chorar.

Ela sonhara que o marido, atacado à punhalada, agonizava nos seus braços.

E Calpúrnia contou-lhe o sonho e, chorando, suplicou-lhe que ficasse em casa, porque lá fora o cemitério esperava por ele.

Mas o pontífice máximo, o ditador vitalício, o divino guerreiro, o deus invicto, não podia fazer caso do sonho de uma mulher.

Júlio César afastou-a com um empurrão, e em direcção ao Senado de Roma percorreu o caminho da sua morte.

Eduardo Galeano

segunda-feira, 26 de março de 2018

"The rise of Bolivia’s indigenous 'cholitas' – in pictures" - Eduardo Leal



As recently as 10 years ago, Bolivia’s indigenous Aymara and Quechua women were socially ostracised and systematically marginalised. Known as ‘cholitas’, these women, recognisable by their wide skirts, braided hair and bowler hats, were banned from using public transport and entering certain public spaces. Their career opportunities were severely limited. While these women have been organising and advocating their civil rights since at least the 1960s, their movement was invigorated by Evo Morales’ election as Bolivia’s first indigenous president in 2006.

In Cholita’s Rise, the photographer Eduardo Leal has created an exhibition of work that portrays their accomplishments and celebrates their success while also looking to inspire others.

domingo, 4 de março de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Magda Lemonnier"


Magda Lemonnier recorta palavras dos jornais, palavras de todos os tamanhos, e guarda-as em caixas. Numa caixa vermelha guarda as palavras furiosas. Numa caixa verde, as palavras amantes. Numa caixa azul, as neutras. Numa caixa amarela, as tristes. E numa caixa transparente guarda as palavras que têm magia.

Às vezes, ela abre as caixas e vira-as para baixo sobre a mesa, para que as palavras se misturem como quiserem. Então, as palavras contam-lhe o que aconteceu e anunciam-lhe o que está para acontecer.

Eduardo Galeano

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Tituba"


Tinha sido caçada na América do Sul logo à infância, e tinha sido vendida uma vez e outra e mais outra, e passando de dono em dono viera parar à vila de Salem, na América do Norte.

Ali, nesse santuário puritano, a escrava Tituba servia em casa do reverendo Samuel Parris.

As filhas do reverendo adoravam-na. Sonhavam acordadas quando Tituba lhes contava histórias de aparições ou lhes lia o futuro numa clara de ovo. E no inverno de 1692, quando as meninas foram possuídas por Satã e se contorciam e guinchavam, só Tituba conseguiu acalmá-las, acariciando-as e sussurrando-lhes histórias até que as adormeceu no seu regaço.

Isso condenou-a: fora ela trazer o Inferno para o virtuoso reino dos eleitos de Deus.

E a maga-contos foi amarrada ao cadafalso na praça pública e confessou.

Acusaram-na de cozinhar pastéis com receitas diabólicas e açoitaram-na até ela dizer que sim.

Acusaram-na de dançar nua nos concílios de bruxas e açoitaram-na até ela dizer que sim.

Acusaram-na de dormir com Satã e açoitaram-na até ela dizer que sim.

E quando lhe disseram que tinha por cúmplices duas velhas que nunca iam à igreja, a acusada converteu-se em acusadora e apontou o dedo a esse par de endemoninhadas e já não foi açoitada.

E depois outras acusadas acusaram.

E a forca não deixou de trabalhar.

Eduardo Galeano

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As Mulheres de Eduardo Galeano - "Xerazade"



Para se vingar de uma, que o atraiçoara, o rei degolava todas.
Casava-se ao crepúsculo e ao amanhecer enviuva.
Uma após outra, as virgens perdiam a virgindade e a cabeça.
Xerazade foi a única que sobreviveu à primeira noite, e depois continuou a trocar um conto por cada novo dia de vida.
Estas histórias, por ela escutadas, lidas ou inventadas, salvaram-na da decapitação. Contava-as em voz baixa, na penumbra da alcova, sem outra luz que não a da lua. Sentia prazer ao contá-las, e prazer oferecia, mas tinha muito cuidado. Às vezes, enquanto narrava, sentia que o rei estava a estudar-lhe o pescoço.
Se o rei se aborrecesse, ela estava perdida.
Foi do medo de morrer que nasceu a mestria de narrar.