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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

"Na despedida de um amigo" - por José Luís Peixoto



Estava demasiado calor naquele hotel sem ar condicionado. Numa cidade pequena do interior da Rondónia, num extremo do vasto Brasil, depois de milhares de quilómetros, depois de estradas intermináveis, depois de paisagens intermináveis, arrumado à fronteira com a Bolívia, eu mantinha um sono ligeiro, destapado, agitado, desconfortável. Quando o telefone tocou, eu não sabia que horas eram.

Eram cinco e meia da manhã. No auscultador, a milhares de quilómetros, uma voz deu-me a notícia que o meu amigo tinha morrido.

Só despertei realmente depois de entender essas palavras. Foi como se faltasse um segundo ao tempo.

Vesti umas calças e saí do quarto. Descalço e em tronco nu, dei passos no corredor sem saber para onde ia. Levantava-se um amarelo muito grosso sobre os telhados da cidade, a manhã começava a nascer devagar. Eu tinha um bom posto para assistir a essa vaga de claridade porque, no fim do corredor, cheguei a uma varanda aberta sobre as casas baixas, as ruas paralelas, perpendiculares, de terra vermelha, varridas, com árvores enormes, folhas e pássaros, pés centenários de manga.

O céu era grande e existia por cima de tudo isso.

Foi nesse silêncio que consegui pensar no que tinha acontecido. Então, telefonei à Ana, mulher do meu amigo, viúva, minha amiga também. O telefone a chamar: uma nota sustentada, repetida, estridente. Não foi a Ana que atendeu, foi uma voz séria. Pronunciei o meu nome, perguntei se podia falar com ela e passaram-ma. Estava a chorar. Disse-lhe aquilo que consegui.

Quando desliguei, as lágrimas eram quentes e desacertadas de tudo o que tinha diante de mim. Sem pressa, avançavam bicicletas ao longo das ruas da cidade. Ao ritmo de pedaladas demoradas, escutava-se o rolar das rodas de borracha na terra lisa, às vezes a resvalarem muito ligeiramente. Sentados no selim dessas bicicletas iam rapazes e raparigas de uniforme. Dirigiam-se para mais um dia de liceu. Com frequência, passavam aos pares, duas bicicletas lado a lado, rapazes de calças passadas a ferro, raparigas de saia, meias brancas, cabelos presos com um laço, a rirem-se despreocupadas.

A Ana estava no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, rodeada pela falta de sentido da morte. Eu era ainda capaz de distinguir o eco do choro, o peso das palavras que tinha usado. Mas, mais do que essa impressão, eu era capaz de imaginá-la com toda a nitidez, naquele preciso momento, no hospital, rodeada.

Das primeiras vezes que fui a casa do Urbano, lembro-me de um armário enorme, de madeira maciça, trabalhada, que estava na sala. No interior, guardava pilhas de livros seus sem organização. Quando se estendia a mão, tanto se podia agarrar um volume português, com décadas, como podia tratar-se de um tradução búlgara, húngara, romena de um livro seu que nem ele próprio conseguia identificar.

Ao longo dos anos, subi muitas vezes as escadas de madeira desse prédio. Cruzava-me curioso com os casais que saiam da pensão e, quando tocava à campainha, escutava os passos cada vez mais lentos do Urbano a atravessar o longo corredor e, depois, a sua voz através da porta, antes de abrir.

Quando morre um amigo, sente-se o fim de uma época. Nesse momento, a pele irreversível do passado ganha uma realidade objetiva, absoluta. Como uma pedra atirada às águas da barragem, a afundar-se no líquido, no fresco e na escuridão. E, de repente, o tempo, a idade, o tamanho de uma vida: assuntos que o Urbano conhecia bem.

A última vez que estivemos juntos foi há alguns meses, na livraria Barata, na Avenida de Roma. Tive sorte. Ao apresentar-lhe o seu último livro, pude sentir a ilusão de devolver-lhe um pequeno grão da infinita generosidade que sempre colocou nas centenas de livros que apresentou. Além disso, foi numa livraria. Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom.

Tivemos esse dia. Tivemos as nossas conversas, eu a conduzir, ele a falar-me de outros mundos e de outros tempos, tivemos os nossos filhos pequenos a brincarem diante de nós, tivemos os livros, as aulas na universidade, algumas viagens, Paris, Madrid, e os abraços. Tivemos os abraços.



Daqui

quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Luta de classes"


A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa coleção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afetada e tem o objetivo de definir socialmente quem a enumera.

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objeto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoievski Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

Hei de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exatamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer.

Habituem-se.

Não tenho medo.


José Luís Peixoto

Daqui

quarta-feira, 6 de março de 2013

Livro recomendado - "Abraço"


AGORA, QUANDO PENSO NISSO, as nossas cores, as cores das nossas roupas e das nossas ideias são como um quadro de Renoir. Ficávamos sentados sobre a relva inclinada e, à nossa frente, como um rio, estavam as pessoas que subiam e desciam com sacos de plástico cheios de livros, que paravam para ver livros. Ficávamos sentados e apenas falávamos de livros, os que tínhamos comprado e, sobretudo, todos os que éramos capazes de imaginar. O mundo era um caminho que se abria à nossa frente, uma vertigem. Nós não tínhamos medo de nada quando líamos em voz alta de livros que trazíamos de casa. Sem que o soubéssemos, uma grande parte das nossas vozes era já definitiva, a maneira  como hesitávamos era já definitiva. 

Do episódio Feira do Livro

José Luís Peixoto

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"A META DA MARATONA INFINITA"



Na tarde de 14 de Julho de 1912, domingo, na colina de Öfver-Järva, em Estocolmo, Francisco Lázaro caiu inanimado. O médico que se encontrava no local aplicou-lhe gelo sobre a cabeça e enviou-o para o posto médico de Silfverdal. A partir daí, dada a gravidade do seu estado, foi enviado para o Royal Seraphin Hospital, onde chegou às 17 horas e 30. À chegada, apresentava uma temperatura de 41,2º e sofreu um intenso ataque de convulsões e cãibras. Foi-lhe diagnosticada meningite. À meia-noite deram-lhe injecções de água salgada e, mexendo as mãos, reagiu ao ouvir o seu nome. Mais tarde, entrou em delírio, fazendo movimentos como se ainda estivesse a correr. Às 6 horas e 20 da madrugada, morreu.


OS SPORTS ATHLÉTICOS


"Um regime velho, retrógrado, ingrato e refractário à causa da pátria e àquela que Os Sports Ilustrados defendem e propagam, acaba de cair e um outro, novo, resplandecente, cheio de luz, brilhante de entusiasmo, apto para o trabalho e para a regeneração do nosso país, acaba de erguer-se e de proclamar-se por entre as salvas de artilharia e o delírio louco do povo." Quem escreveu assim foi J. Pontes, na edição de 15 de Outubro de 1910 de Os Sports llustrados, um jornal desportivo que, a par com Tiro e Sport,  promoveu muito claramente a ideia de que o desporto constituía uma oportunidade de "fortalecimento" do homem português da República. A regeneração política fazia parte de uma dinâmica renovadora mais abrangente ainda, que não deixava de fora o físico.

Desde o final do século XIX que as corridas eram presença habitual no programa das "festas sportivas" que se iam promovendo em Portugal. Estes eventos, de ambiente aristocrático, faziam parte do recreio de uma minoria elitista. Com a República, a referida imprensa desportiva fez eco do ideal democrático do desporto, defendendo activamente a entrada da educação física no sistema de ensino, apontando essa questão como uma das razões do progresso das principais potências europeias. O atletismo, de prática pouco dispendiosa, teve um importante desenvolvimento nessa época, sobretudo através da corrida e de uma modalidade nova, importada desde Inglaterra: o "cross-country". É desses anos a chegada ao nosso país de provas de lançamento do disco e de salto em altura. A marcha, por sua vez, desfrutava já de uma popularidade própria, graças ao chamado "Percurso Pátria", que consistia em caminhadas efectuadas por patrulhas militares, ao longo de distâncias que podiam atingir os 200 quilómetros e que eram completadas por etapas, havendo prémio monetário para a patrulha vencedora.

Se os "sports athléticos" já tinham essa ligação militarista; com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 1912, facilmente se tornaram em argumento patriótico e de avaliação do desenvolvimento. Quando o estado português se demonstrou indisponível para financiar uma participação nacional em Estocolmo, o jornal Os Sports Ilustrados, em artigo publicado a 12 de Fevereiro de 1912, respondeu assim: "Só Portugal e Espanha não concorrem! Andamos afastados da Europa e da sua gente civilizada e os avanços evolutivos de um sistema completo de educação são menos conhecidos em Portugal que na Oceânia! Esses ecos da civilização têm mais dificuldade em transpor os Pirenéus que atravessar o Atlântico!"

Mas existia Comité Olímpico Português desde 1909, nascera justamente com o objectivo de alcançar a presença de Portugal em Estocolmo. Assim, com contributos privados e com um sarau de variedades no Coliseu dos Recreios, quase vazio em dia de greve de eléctricos, conseguiu-se o suficiente para garantir a primeira presença de uma comitiva portuguesa nos Jogos Olímpicos.



O GRANDE PEDESTRIANISTA

No início do século XX, as carroçarias de automóveis eram compostas por muito mais madeira do que actualmente. Com 20 anos, Francisco Lázaro, nascido em 1888, em Benfica, era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis na Travessa dos Fiéis de Deus, no Bairro Alto, e estava prestes a entrar na história do atletismo português - o que aconteceu nesse ano de 1908, quando se deu pela primeira vez o nome de "maratona" a uma prova realizada em Portugal. Ao contrário dos mais de 40 quilómetros que se corriam no estrangeiro, a distância proposta foi apenas de 24 quilómetros por se suspeitar que não houvesse atletas capazes de terminá-la. Lázaro venceu inequivocamente. Repetiu a proeza alguns meses depois, em nova prova de fundo, no circuito de Linda-a-Pastora.

Após uma doença que o afastou completamente da competição, Lázaro regressou apenas dois anos depois, em 1910, tendo participado na sua primeira maratona com a distância clássica de 42800 metros. Com um tempo de 2 horas, 57 minutos e 35 segundos, Lázaro dominou a distância, deixando o segundo classificado a mais de 44 minutos. Dos 12 corredores à partida, 10 terminaram a prova. Essa vitória foi alcançada pelas cores do Velo Clube de Lisboa mas, em Abril de 1911, haveria de ganhar o primeiro cross-country português em representação do Sport Lisboa e Benfica. Terminou os 4200 metros no Campo do Lumiar em 20 minutos e 36 segundos. A razão para correr com a camisola do Benfica foi, simplesmente, o facto de ter sido desafiado a representar o clube do seu bairro onde, ocasionalmente, jogava futebol nas categorias inferiores. Com a promessa de "melhoria de condições de preparação, de higiene de vida e de alimentação", passou a correr pelo Lisboa Sporting Clube. Após vencer mais uma edição da maratona, em Abril de 1912, numa pista na Alameda das Linhas de Torres, tentou bater o recorde mundial da meia hora. Não conseguiu, mas atingiu os 8829 metros que se manteve como o recorde nacional até 1929.

Os seus treinos entre Benfica e São Sebastião da Pedreira eram conhecidos pela forma como "competia" com os eléctricos. Há descrições dos muitos incentivos que recebia por parte dos transeuntes durante esses treinos pós-laborais. Dentro do panorama desportivo de então, Francisco Lázaro era concebido como um herói nacional. E se houvessem dúvidas, teriam sido desfeitas a seis semanas dos Jogos Olímpicos, na maratona nacional, que venceu sem dificuldade, dando-se ao luxo de percorrer a passo os últimos dois quilómetros, na dura subida da Calçada de Carriche, tendo deixado o seu concorrente mais directo a 15 minutos, completando os 42800 metros em 2 horas, 52 minutos e 8 segundos. Nos Jogos Olímpicos anteriores, o americano John Hayes tinha vencido a prova precisando de mais 3 minutos. Essa conta simples, ignorando as possíveis imprecisões de cronometragem e de medição, a diferença de condições ou de percurso, foi suficiente para a maioria dos comentadores da imprensa portuguesa considerarem que Lázaro era um dos principais candidatos à vitória olímpica. Estava, aliás, quase assegurada.



O STADE É VASTÍSSIMO

A primeira comitiva portuguesa que participou nos Jogos Olímpicos foi constituída por seis elementos: os atletas António Stromp, Armando Cortesão e Francisco Lázaro; os lutadores António Pereira e Joaquim Vital; o esgrimista Fernando Correia. Estes foram os que restaram dos dez que estavam inicialmente seleccionados, quatro tiveram de ser excluídos por falta de meios.

A 26 de Junho de 1912, partiram do Cais das Colunas, no vapor Astúrias da Mala Real Inglesa. O início da viagem não acabou com a incerteza e a precariedade que a antecedeu. Pouco antes dessa data, o Comité Olímpico Português foi informado por telegrama que o início das provas tinha sido antecipado de 6 para 4 de Julho. Desse modo, a própria viagem entre Lisboa e Estocolmo transformou-se numa espécie de corrida. Após três dias mareados, de enjoo permanente, chegaram ao porto de Southampton. Por caminho de ferro, via Londres, chegaram à pequena cidade portuária de Harwich. Em novo vapor, desta vez bastante menor e com piores condições, gastaram 1 dia até chegar a Esbjerg, na Dinamarca. Daí até Copenhaga, foi necessário alternarem percursos de barco e comboio. Uma vez em Copenhaga, por fim, tiveram de esperar durante 10 horas por um comboio que os levasse a Estocolmo, após 12 horas de viagem. Chegam exaustos na manhã de 1 de Julho e, casualmente, foi-lhes comunicado que o telegrama estava errado, os jogos começariam no dia 6, conforme sempre esteve previsto.

Lázaro nunca tinha estado tão longe de casa e admirava-se com o que via. A sua origem social era notoriamente mais baixa do que a dos seus companheiros de comitiva, entre os quais se contavam estudantes de medicina e do Instituto Superior de Agronomia, ou um empregado superior do Montepio Geral. Em 1988, Armando Cortesão respondeu a uma entrevista de Romeu Correia: "Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro, que se afastava socialmente de nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda me lembro, quando a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço. E lá fui eu e o Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o aconselhávamos a comedir-se: Não faça isso... Não coma com a faca... Bom rapaz, o Lázaro. A sua morte marcou-nos para a vida."

Alojados numa escola primária, os participantes portugueses surpreendiam-se com o carácter cosmopolita dos jogos e com as condições que eram dedicadas ao desporto. O jornal Os Sports Ilustrados partilhava esse impacto: "O vasto stade, construído em 1910, sob a direcção do arquitecto Torben, pela quantia de um milhãe e novecentos mil francos é um anfiteatro em forma de ferradura. Coberto em toda a superfície o stade é vastíssimo podendo comportar 25000 espectadores. Aos lados, em toda a extensão dos seus longos corredores, estão situadas as salas douches, os numerosos gabinetes de toilette para os atletas, as cozinhas para a preparação dos hors-d'oeuvres."

Foi nesse estádio que decorreu a cerimónia de abertura, na qual, o lutador Joaquim Vital levou a placa com o nome do país e Francisco Lázaro teve a honra e o destaque de levar a bandeira, vermelha e verde, a bandeira da República, ainda tão nova, a apresentar-se às outras bandeiras.



O SEBO E A EMBORCAÇÃO

O que terá pensado Francisco Lázaro, no balneário, rodeado por atletas que não entendia e que não o entendiam? De automóvel, António Pereira e António Stromp foram colocar-se no quilómetro 5 que, na volta, seria o 35. Joaquim Vital esperava-o no quilómetro 15 que, depois, seria o quilómetro 25. Entretanto, nas bancadas, Fernando Correia e Armando Cortesão impacientavam-se com o facto de não o encontrarem entre os atletas que iam preparando os músculos para a grande prova. Já quase na hora do tiro de partida, dirigiram-se ao balneários e encontram-no a untar-se com sebo para impedir a perda de líquidos pela transpiração, segundo o próprio lhes contou. Na entrevista a Romeu Correia, disse Armando Cortesão: "Não faço a menor ideia onde o Lázaro conseguiu arranjá-lo (o sebo), mas conseguiu e estava a untar-se..." Também segundo Cortesão, tentaram colocá-lo debaixo dos chuveiros e limpá-lo, mas não chegaram a fazê-lo convenientemente porque a corrida estava prestes a começar.

Debaixo de sol forte, 32º de temperatura, Lázaro era dos poucos com a cabeça descoberta entre os 68 participantes da maratona olímpica de 1912. Mais tarde, no discurso que fez no seu enterro, Fernando Correia afirmou tê-lo aconselhado a cobri-la, ao que Lázaro respondeu: "o calor não me incomoda: até folgo que o haja, porque fará afastar alguns concorrentes."

Poucas são as evidências que demonstram a crença de que ia bem colocado na prova quando desfaleceu. No relatório do chefe da missão, pode ler-se que Lázaro, ao quilómetro 25, "já levava avanço grande e pouca diferença do primeiro". Talvez se possa interpretar essas palavras como um gesto de consideração póstuma. É possível que a mesma intenção esteja por detrás da seguinte afirmação de Romeu Correia no livro Portugueses na V Olimpíada: "Já no regresso do percurso, aos 25 quilómetros, vinha na 18ª posição, muito perto dos primeiros." No que diz respeito ao tempo e à distância, a corrida é uma modalidade de precisão inequívoca e, segundo o Comité Olímpico Sueco, Lázaro não surge entre os primeiros dezoito atletas na passagem aos 25 quilómetros. Aliás, o 19º, o último cujo tempo foi contabilizado, passou a mais de 8 minutos do líder, ou seja, nem esse ia a "pouca diferença do primeiro".
Os companheiros que o aguardavam no quilómetro 35, ao não o verem chegar, foram procurá-lo de automóvel. Encontraram apenas os postos de acompanhamento da prova a serem levantados. Foi o embaixador António Feijó que lhes deu a notícia da perda de sentidos ao quilómetro 30 e que os acompanhou ao hospital.

Hoje, há quem não atribua a morte de Lázaro ao calor e ao episódio do sebo. Esse é o caso do professor Gustavo Pires em entrevista ao Diário de Notícias, a 15 de julho de 2009, onde afirmou que Lázaro morreu "porque utilizou produtos nocivos". As chamadas "emborcações" eram utilizadas para alcançar o máximo rendimento e resistência. Numa edição do jornal Tiro e Sport, de 15 de Setembro de 1910, o seu director, A. Malheiros, escrevia: "devemos partir do princípio que é com a emborcação que vamos assegurar a elasticidade e a perfeita maleabilidade dos músculos de que se exigem os esforços mais efectivos, tornando-os insensíveis à dor e à fadiga, e evitar o quanto possível as cãibras que têm sido e serão sempre o inimigo irredutível de todos aqueles que se dedicam ao sport." Nesse mesmo artigo, Malheiros dá uma receita de emborcação com ovos, água destilada, terebintina e ácido acético. Pela descrição de Pedro Nolasco, em A morte de Francisco Lázaro, da forma como a autópsia encontrou o fígado de Lázaro faz supor que poderia haver o consumo de outras substâncias: "completamente mirrado, do tamanho de um punho fechado e rijo, a tal ponto que só se conseguira partir a escopro, como se fosse uma pedra". Na já referida entrevista a Romeu Correia, a descrição do modo como Joaquim Vital foi a uma farmácia comprar emborcação e acabou a massajar Armando Cortesão com um produto que, soube-se mais tarde, era remédio para os dentes é também reveladora da falta de conhecimento e de condições.



FILIPÍADES

"Ganho ou morro", são as palavras atribuídas a Francisco Lázaro antes da maratona que não ganhou. Palavras de um profetismo tão exacto que põe em causa a sua credibilidade. Ainda assim, a história deste atleta é feita de múltiplos acasos intertextuais perfeitos: a sobreposição ao mito de Filipíades, fundador da própria maratona, no qual este sucumbiu de exaustão após anunciar em Atenas que os persas tinham sido derrotados em Maratona ou, mesmo, o paralelismo invertido em relação ao episódio bíblico de Lázaro de Betânia, ressuscitado no Evangelho Segundo São João.

Em Portugal, o nome de Francisco Lázaro tem sido dado a ruas, a sua imagem já figurou em selos e inspirou a personagem central do romance que publiquei em 2006, Cemitério de Pianos, cuja escrita me levou a visitar Estocolmo pela primeira vez e a interessar-me tanto pela história deste atleta. No entanto, creio que é na imaterialidade do imaginário popular que a maior homenagem lhe tem sido prestada ao longo destes cem anos. E talvez a força dessa efabulação, que não é indiferente às distorções narrativas da memória, se aproxime dos motivos pelos quais até os elementos mais concretos, como o número de quilómetros que tinham decorrido quando desfaleceu, a hora a que começou a corrida ou mesmo sua data, sejam apresentados em diversas versões, dificultando a reconstituição mínima do que aconteceu.

Se for como desconfio, a história de Francisco Lázaro veicula uma tragicidade que fala de modo muito directo aos portugueses, porque toca em algo muito profundo, que faz parte da nossa identidade e que a exprime de modo pungente. 

José Luís Peixoto (in revista Visão História, 2012)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Passagem de segundo"


 Existem vinte e quatro fusos horários. Por isso, durante um dia inteiro, hora a hora, há pessoas a celebrarem o fim/início de ano velho/novo. O planeta gira à sua velocidade pesada, como um daqueles cilindros de carne, um espeto de shoarma, e, durante um dia inteiro, hora a hora, é varrido por multidões a contarem em coro, a brindarem, a entusiasmarem-se ou a comoverem-se. Começa numa ilha qualquer do Pacífico. Ainda não estamos vestidos para a festa e já vimos no telejornal o fogo de artifício em Sidney. Depois, hora a hora, vai-se aproximando. Quando falta pouco, alguém diz: já é ano novo em Espanha.

Contar para trás exige um nível apurado de atenção. Talvez possa ser comparado com o esforço que um destro faz ao assinar o nome com a mão esquerda. O princípio é semelhante. Contraria uma espécie de instinto, algo que se aprendeu há muito tempo.

Em casa, as crianças entre os quatro e os dez anos ficam acordadas excepcionalmente até à meia-noite. Assistem admiradas às celebrações dos avós. Há festa na televisão ligada. Aquilo que acontece na sala parece uma continuação tosca daquilo que acontece na televisão. Olhamos para lá e aprendemos como se faz.

Este ano ainda não espirrei, este ano ainda não fui à casa de banho, este ano ainda não bebi um copo de água; não te via desde o ano passado, não almoçava desde o ano passado, não pensava no ministro das finanças desde o ano passado, felizmente.

Quando a vida retrocede, quando se passa a viver pior, faz sentido afirmar que se avançou um ano? Pelas contas dos calendários, chegámos a 2013. Mas, olhando para o tempo, quando foi a última vez que nos sentimos assim? Há quantos anos tínhamos alcançado aquilo que perdemos? Há vinte anos atrás, seríamos capazes de imaginar este tempo com uma sofisticação diferente: robots a fazerem as tarefas domésticas, teletransporte. Mas agora estamos aqui.

Há a internet e os telemóveis mas, sob a perspectiva dos direitos que deixámos de ter, estamos em que ano? Talvez o tempo não avance como a ciência e os relógios garantem. Talvez o tempo ondule. Se assim for, é certo que ondulamos com ele. É até possível que se agite por nossa causa. Se assim for, não é certo que estejamos em 2013. Aqueles que têm de emigrar para onde ficam sozinhos reconhecem a sua realidade em histórias com mais de quarenta anos; aqueles que perdem a casa recuam dez ou vinte anos; aqueles procuram e não encontram sentem que 2013 não é muito diferente de 2012.

Depois de rebentarem as rolhas das garrafas de espumante aqui, continuam a rebentar, hora a hora, em direcção a oeste. Há milhares de pessoas eufóricas em Times Square, as autoridades de certos países advertem para os perigos dos tiros para o ar, centenas de pessoas resolvem tomar banho nas águas geladas de todos os mares.

Nestas últimas semanas, ao conduzir por uma estrada onde passo habitualmente, tenho reparado num cartaz que anuncia o fim de ano em Salvador da Baía por mil e quinhentos euros. Com alguma melancolia, imagino essas pessoas a entrarem no avião. Como serão os seus rostos? Continuo o meu caminho, ultrapasso e sou ultrapassado, presto atenção a outros cartazes que se anunciam a si próprios: têm um número de telefone e a frase: "saiba como anunciar aqui". Ultimamente, há muitos cartazes assim, vazios, ninguém quer anunciar nada neles.

Enquanto isso, algures, existem as pessoas reais que se preparam para atravessar o oceano, têm o passaporte em dia. Levam aquilo que imaginam e regressarão com aquilo que encontrarem. Talvez acreditem que o tempo que aí vem será melhor se passarem essa data lá longe, naquilo que imaginam. Quase de certeza que imaginam algo melhor do que estar aqui. De outra maneira, não iriam até lá. Não se davam a esses gastos e a esse trabalho.

Enquanto isso, há pessoas a dormir durante a passagem de ano.

Termina um ano, termina um mês, termina uma semana, termina um dia, termina uma hora, termina um minuto, termina um segundo. Este segundo, e este, e este, e este.

Noutra dimensão, alheio a estes detalhes, há o tempo. Nunca termina, nunca começa, continua sempre.


José Luís Peixoto, in revista Visão (janeiro 2013)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"Natal dos desempregados"

Mais um belo texto de José Luís Peixoto na Visão:

Quem és tu? Os dias passam e a tua cabeça repete uma pergunta em cada silêncio. Todos os dias de manhã, logo depois de acordar, há silêncio. Enquanto escolhes a roupa e te vestes, há silêncio. Nos intervalos do tempo, há silêncio. 

Quem és tu? Agora, dás contigo a olhar para os programas da manhã na televisão, esqueces o olhar por instantes. Um especialista enumera formas de prevenir a queda de cabelo, um cozinheiro revela segredos para rechear o peru, um professor de trabalhos manuais ensina a fazer decorações de Natal com garrafas de plástico usadas. A apresentadora repete cinco vezes o número que pisca no ecrã. Telefona, podes ganhar; telefona, podes ganhar. Não telefonas. Sabes que não podes ganhar. Antes, telefonaste para números do jornal, da internet, números escritos num papel dobrado ou em cartões de visita. Mas o tempo passou. Dias, meses, estações inteiras, tempo carregado de silêncio, silêncio, silêncio carregado de perguntas.

Qual é o teu valor? A história da tua vida dilui-se nestes dias. Não era uma história enorme, mas era tua e tinha um sentido. Os teus pensamentos encontravam-lhe continuação a cada instante, sabias sempre o que tinhas de fazer a seguir. Hoje, surpreendes-te a ter saudades de avançar pelas ruas às sete da manhã com as orelhas geladas, saudades de olhar para o relógio e esperar por um minuto que parecia nunca mais chegar. Antes, esse minuto quase infinito parecia não chegar, o número firme no mostrador do relógio, mas chegava; agora, esse mesmo minuto também parece não chegar, mas o número no mostrador do relógio passa, cinco transforma-se em seis, seis transforma-se em sete, mas o minuto que esperas não chega, parece não chegar nunca. Estás parado. 

Qual é o teu valor? O rosto das pessoas com que te cruzas todos os dias repetem-te perguntas, mesmo quando estão apenas a olhar para ti, sem dizer nada. O Natal chegou às ruas, às montras, à publicidade. Caminhas de mãos nos bolsos. Às vezes, vais dar a volta para não passares à frente daquela pessoa que está sempre no mesmo sítio a ver quem passa. E até o rosto daqueles que não conheces, que nunca viste antes, que nunca voltarás a ver, parecem repetir-te essas mesmas perguntas. Chega a hora de almoço. Chega todos os dias a hora de almoço porque todos os dias chegam as mesmas horas. Em casa, os sons da casa. Colocas a primeira colher de sopa na boca.

Quem és tu? Já te imaginaste a fazer mil coisas que, antes, nunca tinhas considerado. És uma pessoa diferente em todas elas e, no entanto, há um muro invisível entre ti e cada uma dessas ideias. Consegues vê-las lá ao fundo, tens a certeza de ser capaz de fazê-las, mas não consegues atravessar esse muro invisível. Como se falasses e ninguém te ouvisse, como se falasses e ninguém acreditasse em ti, como se não existisses. A sopa não tem sabor, mas não podes dizer. Apenas podes limpar a boca e mostrar-te agradecido, obrigado. Agora, tens uma tarde imensa à tua frente. 

Quem és tu? As montras das lojas reflectem-te. A tua imagem suspensa, rodeada pelo brilho do Natal. À tua volta, homens e mulheres dirigem-se a algum lugar, o mundo continua. Vês-te: os teus braços ao longo do corpo, os teus olhos. 

És demasiado novo ou és demasiado velho.

Mesmo quando te descolas da montra e caminhas, levas contigo a imagem do teu próprio reflexo, vai no teu interior. Os passos levam-te, são lentos, sem pressa. Não pensas no que vais encontrar lá à frente porque não esperas nada. As crianças estão na escola, as pessoas estão nas suas vidas, só tu estás aqui.

Quem és tu? Mais tarde ou mais cedo, chegará a noite. Chega sempre, todos os dias. Depois da hora de jantar, também diária, depois do serão, notícias, telenovela, concursos em que ninguém ganha nada, chegará a hora de dormir, o fim de mais um dia. Por vezes, lanças essa ideia de encontro às perguntas que tudo te repete, mas sabes que este dia não terminará verdadeiramente. Caminhas como se estivesses parado e procuras as forças que se vão desfazendo, as forças necessárias para não esqueceres qual é o teu valor, para continuares a saber quem és, para dares uma resposta definitiva ao silêncio.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Arriscamo-nos a ser outra Grécia" - José Luís Peixoto diz tudo

Normalmente, esta frase é dita por senhores de fato, protegidos pelo ecrã da televisão. Não estão nervosos, como os desempregados que gritam na rua ou à porta da fábrica, estão até bastante serenos; também não têm a cara pintada, nem estão a insultar ninguém, como aquela multidão de rapazes e raparigas que nunca conseguiram um emprego que durasse mais de três meses, estão compostos e falam com correção. Vestem-se como pessoas sensatas, penteiam-se como pessoas sensatas, têm carros de cilindrada sensata a esperá-los no estacionamento.

Arriscamo-nos a ser outra Grécia.

E, no fundo, estão a dizer:

Vocês arriscam-se a transformar este país noutra Grécia. Eles não fazem parte do "nós", eles estão a avisar-nos. Por eles, pela sua acção, este país nunca se tornaria noutra Grécia. Se assim fosse, eles não nos estariam a alertar, em tom professoral, em tom de quem sabe mais e melhor. Não são eles que estão em risco de ser uma nova Grécia, eles são apenas desinteresse e boas intenções. Somos nós, sem eles, que estamos em risco de ser outra Grécia.

A xenofobia dessa frase é desprezível. Utiliza a ignorância dos sentimentos mais rasteiros para justificar argumentos desonestos. Ao mesmo tempo, quer fazer pressupor que a Grécia está na atual situação económica porque o seu povo protesta.

Esses senhores, que até podem ter óculos, aliviam a sua consciência culpando os pobres da própria pobreza. Há bem pouco tempo, por exemplo, insurgiam-se contra o rendimento mínimo. Nunca se lhes ouviu uma palavra acerca dos paraísos fiscais.

Justificam a avareza mais reles, com a ideia de que a ajuda pública desencoraja os pobres de trabalhar, torna-os preguiçosos. Isto, com frequência, vindo da parte de pessoas que descendem de linhagens com muito a aprender acerca do que é o trabalho.

Neoliberais de merda. O Estado não deve meter-se na vida das grandes empresas ou dos bancos, a não ser para, à mínima dificuldade, lhes enfiar pazadas de dinheiro pela goela abaixo. Depois, se o Estado precisar seja do que for, não tem o direito de exigir nada. Não tem o direito de interferir na liberdade do mercado. Só tem direito de interferir na liberdade dos cidadãos.

Se calhar, temos de ser nós a ensinar-lhes que é o trabalho que cria riqueza e não aqueles que vendem o trabalho dos outros.

Arriscamo-nos a ser uma nova Grécia?

De cada vez que os portugueses saem à rua, voltam a casa com mais dignidade. Ao contrário do que aconteceu demasiadas vezes, as imagens de multidões demonstram que não está tudo certo, eles não têm legitimidade para tudo. Sobretudo, não têm legitimidade para fazer o oposto daquilo que disseram que iam fazer e, menos ainda, para serem lacaios de outros em que ninguém votou.

Ridículos: a anunciarem medidas antes de jogos de futebol, a esconderem-se no estrangeiro onde não comentam nada, a dizerem que temos o melhor povo do mundo. O mesmo povo que desrespeitam continuadamente.

Arriscamo-nos a ser uma nova Grécia?

Quando falam da Grécia nesse tom de xenofobia velada e cobarde, seria interessante perguntar-lhes qual é, afinal, o país que eles quem querem ser. Da mesma maneira que repetem que não querem ser gregos, seria bonito ouvi-los afirmar que querem ser alemães.

Então, talvez a xenofobia lhes caísse em cima. Talvez lhes fizesse bem sentir esse peso. Tenho curiosidade de ver quantos os seguiriam no dia em que tornassem explícitos os dois lados desse simplismo que coloca a Grécia e a Alemanha em polos opostos de uma guerra surda, em que um dos lados bombardeia o outro, diariamente, com humilhação.

A Grécia não é um país a evitar, os gregos não são um povo a evitar. Aqui, neste nosso país, há muitos que já são gregos porque estão desempregados e sem horizontes como tanta gente na Grécia, porque não sabem como pagar a casa ao banco, porque sofrem como tantos gregos. Quem tem verdadeiro medo de ser como os gregos são esses senhores de fato, protegidos, porque sabem que os seus homólogos da Grécia estão a ser vigiados, com pouca margem.

Seremos outra Grécia se tivermos sorte.

José Luís Peixoto na Visão