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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

"Palavras imensas"



A matriz das esquerdas é comum: reside na recusa daquilo a que Octavio Paz chamou “ a injustiça inerente ao capitalismo.” Essa é a sua essência. Mas a divisão entre revolucionários e reformistas vem quase desde o início. Talvez tenha começado no Congresso de Londres do Partido Social Democrata russo, em 1904. Lenine venceu Martov, com a sua teoria de partido de vanguarda, constituído por um núcleo de revolucionários profissionais, regido pela disciplina do centralismo democrático. Muitos marxistas criticaram essa ideia de introduzir de fora no movimento operário a consciência revolucionária, considerando-a um desvio voluntarista e idealista do pensamento de Marx, para o qual o ser (movimento dos trabalhadores) é que determina a consciência e as formas de organização, não o contrário. Hoje ninguém discute estas velharias ideológicas, embora nelas esteja a origem da Revolução Russa de 1917. 

Na íntegra aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"A IMPLOSÃO ANUNCIADA"

Houve tempos em que os intelectuais marcavam a vida do país. Um manifesto, um ensaio, um romance, um poema, um simples artigo podiam abalar o marasmo estabelecido e sublevar as consciências. Por isso, de vez em quando, filósofos, romancistas, professores, jornalistas e poetas eram presos. Não só na vigência do Estado Novo. Antes do 5 de outubro, agora outra vez banido, já Guerra Junqueiro tinha acabado com a Monarquia.

Durante a Ditadura, livros, poemas e até, canções apesar da censura e da repressão, foram subvertendo o regime antes de ele ser derrubado. Mas parece que a Democracia tirou espaço e voz aos intelectuais. Ou porque desistiram, ou porque não intervêm, ou porque foram abafados pelo frenesim da notícia e do comentário, ou ainda porque não há lugar para eles nos aparelhos políticos e outros que dominam a vida pública.

Mas eis que algo de novo aconteceu. Dois textos revolucionários, que são, em si mesmos, uma sublevação. Não foram escritos por nenhum político, muito menos por nenhum economista, mas por um filósofo e um poeta.

José Gil, “ O roubo do presente”, artigo publicado numa revista; Nuno Júdice, e o seu romance “Implosão”, editado pela D. Quixote. Não sei o que vai acontecer, sei que nada ficará na mesma depois destes dois textos.

Eles já abateram moralmente este governo e o contexto em que subjaz. Vejamos José Gil: “ Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural e económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida”. Resultado:” o português foi expulso do seu próprio espaço, continuando, paradoxalmente a ocupá-lo”. “Este governo transforma-nos em espantalhos…”.

A “Implosão”, de Nuno Júdice, é o libelo mais contundente contra o embuste em que se tornou a Europa e a crise que está a matar Portugal. Um novo Finis Patriae em que, como no poema de Junqueiro, tudo se desmantela e se ouve de novo “ a alma da Pátria a bradar moribunda”. Dois amigos, que há muito não se viam, encontram-se na manifestação de 15 de Setembro. Voltam ao Café onde, durante a ditadura, um deles, que parece sósia de Lenine, enchia cadernos a escrever não se sabe o quê.

O outro, narrador- conspirador, traçava, noutra mesa, com o seu grupo, planos de luta armada. De tudo isso falam. Das armas roubadas e escondidas que o sósia quer recuperar para uma nova revolução. De Ângela, namorada de um militante que foi ao Leste europeu receber instrução e que, ao voltar, foi preso e virado pela polícia. Ambos se apaixonam por ela. Recordam o tempo em que todos suspeitavam de todos e todos podiam ter sido culpados das prisões dos conspiradores. Quem se sabe se o Traidor, se Ângela ou se eles próprios. Vão passar a noite num velório numa igreja degradada de um bairro periférico.

Há um caixão fechado, numa sala fria e vazia. Quem está lá dentro? Ângela? As armas.?” –A Pátria, diz um deles. A Europa”. Essa é a ideia força: seja o que fôr que está no caixão, é a Pátria que ali jaz. Recordam a 1ª Grande Guerra, as trincheiras.” Mas já não há pátrias por que lutar”. Evocam a 2ª Guerra, a Normandia, o Holocausto, Eichman, que poupava no gás.-“Lembras-te da Alemanha do tempo dos nazis? Roubaram tudo aos judeus”.”-Quem são os judeus de hoje?–“Somos todos, responde o sósia de Lenine.

Reflectem sobre as mudanças do mundo e o conspirador conclui que hoje as armas de nada serviriam, porque “os exércitos que nos ocupam são invisíveis, não têm quarteis”. Mas talvez outro tipo de revolução tenha de acontecer, “ basta usar a internet”. Embora tudo agora seja mais difícil, porque “ é da extinção de povos que se trata, reduzi-los à miséria, à mendicidade”. Nuno Júdice não poupa nas palavras, e eu não posso deixar de fazer o contraste, com os políticos bem comportadinhos que só pensam nas carreirazinhas.

Em Gil e Júdice o sentido da sublevação intelectual é o mesmo. Diz o primeiro: …”desapossam-nos do que torna possível a nossa presença no espaço público.” E Júdice. “ A ditadura hoje é muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal, vivemos todos convencidos de que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós”. Finalmente: o traidor aparece no velório, bem vestido, agora está com os do poder. Não falam. Assim ficam sem saber se veio para os matar. Ouve-se lá fora um rumor que vai crescendo. São os pobres que se juntam. De madrugada dois operários vêm buscar o caixão que, além da Pátria, só tem explosivos. O traidor afasta-se e é envolvido pela multidão. Acendem uma fogueira. –“Tê-lo-ão comido?” – Nunca se sabe o que uma multidão com fome pode fazer, diz o sósia de Lenine.

Nenhum texto político tem a força e a carga simbólica deste romance de Nuno Júdice. Tanto nele como no artigo de José Gil há uma implosão anunciada. Às vezes do fundo da alma colectiva, irrompem vozes que sabem anunciar. Ai dos políticos, e não só, que não souberem ler estes sinais.



Manuel Alegre, 25/02/2013

Daqui

domingo, 24 de abril de 2011

"Trova do vento que passa"


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

domingo, 9 de janeiro de 2011

"Livre e fraterno Portugal"


Livre e Fraterno Portugal

Voltar a acreditar neste País
Voltarmos a regar nossa raiz
Voltarmos a sorrir sem nuvens a tapar
O sol que vai brilhar no nosso olhar.

Voltar a inventar este lugar
Viver de novo a vida sem esperar
Sonhar o velho sonho que temos adiado
E ver este País a acordar.

Refrão
Livre e Fraterno Portugal
Justo e Alegre Portugal
País feito do mar,
País feito do amor,
País do nosso sonho
Portugal

Voltarmos a cantar este País
Que espera para voltar a ser feliz
Que a Praça da Canção não seja uma ilusão
E possa ser refrão dentro de nós.

Refrão
Livre e Fraterno Portugal
Justo e Alegre Portugal
País feito do mar,
País feito do amor,
País do nosso sonho
Portugal