Ideia: representação mental; representação abstrata e geral de um objeto ou relação; conceito; juízo; noção; imagem; opinião; maneira de ver; visão; visão aproximada; plano; projeto; intenção; invenção; expediente; lembrança. Dicionário de Língua Portuguesa da Texto Editora
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Lettre d’Albert Camus à Francine Faure
Dans la nuit du mardi 30 avril 1940, Albert Camus (7 novembre 1913-4 janvier 1960) achève la première version de son roman mythique L’étranger. Il écrit alors à Francine Faure, restée à Oran, qu’il épousera quelques mois plus tard, pour lui annoncer la nouvelle.
Ce soir, je suis crevé. Ces temps-ci je me demandais si le travail de Paris ne me fatiguait pas trop. Mais en réalité, ce roman est aussi bien responsable parce qu’il m’a demandé cet effort continu qui m’apparaissait facile et qui m’épuisait en réalité.
Le plus drôle est que je ne sais même pas si je suis content. Pourtant c’est la seule chose qui puisse me mettre au-dessus de moi et je crois que je pardonnerai tout à Paris pour m’avoir permis de vivre ainsi enfermé tout entier dans ce que je faisais. Même si cela n’a pas de valeur, la joie même du travail en a une que personne ne peut détruire et c’est celle-là que je ressentirais ce soir si je n’étais pas si fatigué. J’imagine cependant que le lecteur de ce manuscrit sera au moins aussi fatigué que moi et je ne sais pas si la continuelle tension qu’on y sent ne découragera pas beaucoup d’esprits. Mais la question n’est pas là. J’ai voulu cette tension et je me suis employé à la rendre. Je sais qu’elle y est. Je ne sais pas si cela est beau. Grenier m’a dit que Montherlant lui avait parlé de Noces et de moi « avec beaucoup de chaleur ». M. ne savait pas que Grenier me connaissait et il lui a demandé ce que je faisais. Cela m’a donné l’idée d’envoyer à Montherlant mes trois manuscrits quand ils seront finis et de lui expliquer ce que je veux. Lui seul, je crois, peut m’aider à tout publier ensemble — surtout en ce moment.
Pour le reste, rien n’est changé. On a changé mes horaires au journal. Mais j’ai à peu près le même temps de service. Mon jour de repos est le mardi (c’est pourquoi j’ai pu travailler toute la journée). J’ai de moins en moins de nouvelles de toi, de mes amis, de ma famille et je me sens de plus en plus isolé ici. Cela va bien tant que je travaille. Mais sans cela, je pense que ce serait encore plus dur.
Les soirs de printemps sont ici visqueux et pluvieux. Je pense à une phrase de mon roman : « Là-bas, là-bas aussi, le soir était comme une trêve mélancolique. » Si tu savais comme j’ai envie des soirs d’Alger ou d’Orant — et comme j’ai envie de cette trêve devant la mer. Mais il y a encore tout un été et tout un hiver ici avant de pouvoir partir quelques semaines et retrouver un ciel vert. Tout cela est bien loin et je n’arrive pas à croire que je pourrai y arriver. Peut-être est-ce pour cela que je n’ai pas sauté de joie aussitôt cette chose finie. […]
Albert Camus
Mercredi. Cette lettre est infecte et illisible. Je te l’envoie quand même. J’étais trop énervé hier pour écrire correctement.
terça-feira, 12 de julho de 2016
"Só falta Portugal conquistar Jerusalém" - Alexandra Lucas Coelho
Depois do que vi no domingo, mesmo sem televisão e a vários milhares de quilómetros, do Terreiro do Paço à cave da última conciérge de Paris, é chegada a hora de Portugal cumprir o sonho que o levou aos quatro cantos do planeta.
1. Creio estar no lugar certo para dizer isto, não planeei, mas aconteceu. Por motivos profissionais tenho pensado bastante no Encoberto, e acho que é chegada a hora. Depois do que vi no domingo, mesmo sem televisão e a vários milhares de quilómetros, do Terreiro do Paço à cave da última conciérge de Paris, é chegada a hora de Portugal cumprir o sonho que o levou aos quatro cantos do planeta, às sete partidas do mundo e, para chegar em forma ao Campeonato do Mundo, conquistar já a derradeira taça, essa Taça da Cristandade que é Jerusalém. Fernando Santos, Cristiano Ronaldo, Pepe, Rui Patrício, Éder, Renato Sanches (nada de cortar as rastas, por favor), estou à vossa espera, aqui debaixo da minha nogueira. Uma oliveira seria mais bíblico, mas será tudo vosso de qualquer forma, Logo iremos ao Monte das Oliveiras, e ao poente, que é mais bonito. Tragam só o repelente, que este ano os mosquitos estão terríveis (é sério).
2. Os judeus têm aquele ditado, no próximo ano em Jerusalém, mas isso agora calha bem é aos franceses, multiplicando por quatro. Alô, francius, vemo-nos em 2020, e rezem para não jogar com Portugal logo. Quem mandou mudarem-se todos para Lisboa? Estava-se mesmo a ver que em breve Lisboa seria uma quinta-coluna no reinado gaulês. Vão mas é treinando os abdominais a ver se chegam aos calcanhares de Ronaldo, e adieu. Depois do Assírio, do Persa, do Grego e do Romano, o Quinto Império será já este ano, e português, claro, como antevia o padre Vieira na sua História do Futuro, no seu Clavis Prophetarum, desde os calabouços da Inquisição. Chega de esperar, chega de nevoeiro, chega de Encobertos, é o momento. Imagino que, lá no sítio onde Deus guarda os reis de Portugal depois de mortos, até D. Manuel chorou no domingo, quando aquele francês que tem um nome parecido com peyote transformou Ronaldo num Cristo. D. Manuel, ele que tanto quis levar a grandeza de Portugal ao Bastião da Cristandade, terá certamente reconhecido em Fernando Santos (repararam no nome?) o Último dos Cruzados. E, depois da Vitória, o mister confirmou a profecia, lendo aquela carta escrita muito antes de 10 de Julho, em que ele já começava dizendo: “Quero agradecer a Deus Pai por este momento e por tudo na minha vida” e terminava com o desejo: “Ir falar com o meu maior Amigo e sua Mãe. Dedicar-lhe esta conquista e agradecer-lhe por me ter convocado e concedido o dom da sabedoria, da perseverança e da humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Por tudo o que faço, espero e desejo seja para Glória do Seu Nome.” Mister Fernando Santos, é Portugal inteiro mais a diáspora que lhe agradece, e creio que todos agora lhe entregariam de coração esta nova Conquista. Tem tempo de pensar no Campeonato do Mundo, vá ver a família, dar uns mergulhos, e entretanto acarinhe esta ideia, com afecto, como diria o presidente Speedy Gonzalez, aka Marcelo. Nem precisa de se preocupar com Meca, que quando Afonso de Albuquerque tentou não deu lá grande resultado. Esqueça o Mar Vermelho, se por acaso estava a pensar nisso, parece que as praias são boas, mas aquilo está sempre um bocado engarrafado. Vá antes pela Portela, e guie de lá os moços até Jerusalém. Parece que agora no Verão há voos directos duas vezes por semana, domingo, depois quinta. Olhe, quinta é um dia óptimo, véspera de dia santo para os não-cristãos, fica tudo aberto até mais tarde, pão fresquinho à noite, e o que é um bom cristão sem pão? Quando chegarmos a domingo já o senhor tem a Taça. Além disso, o Santo Sepulcro está em obras, tudo cheio de andaimes, muito esconderijo, vai ser canja.
3. Não percebo nada de futebol, mas é como religião. Gosto de ver os jogadores como as aldeias gostam de ver as procissões, porque é bonito de ver, as pernas, os abdominais, o tronco de Ronaldo, as rastas de Renato Sanches, o redemoinho de Rui Patrício. É bonito de ver quando marcam golo, aquele monte de homens a atirarem-se uns para cima dos outros. E sobretudo é bonito ver quem gosta de futebol a ver futebol, conhecidos e desconhecidos, toda a gente (menos hooligans apoiantes do Brexit). Fico feliz que estejam felizes, que acreditem, começo logo a chorar (juro pela minha saúde). Nem posso ver coisas como no domingo, lembro-me das pessoas de quem gosto que gostam de futebol, e se alguma coisa corre mal, o que elas vão sofrer. Uma aflição. Então não vejo, fico a torcer para que corra tudo bem, para elas serem felizes.
4. E como se viu no domingo, fé e futebol são tão inseparáveis como Portugal e o Quinto Império, pelo menos do ponto de vista dos actuais Campeões da Europa e do seu mister, futuros condecorados com a Ordem de Mérito. Aqui, debaixo da minha nogueira, suspeito aliás que Marcelo aka Speedy Gonzalez também estava destinado a ser o presidente de todos os portugueses no 10 de Julho. Estou a imaginá-lo em Jerusalém a acordar antes do primeiromuezzin, do primeiro rabino, a pôr o statu quo do Santo Sepulcro num virote, tudo a mexer, com muito afecto. Ainda não me tinha ocorrido, mas é fascinante pensar na aplicação de Marcelo ao conflito israelo-palestiniano.
5. Porque, vejam bem, ainda há isso. Ao conquistar Jerusalém, Portugal acabará com este imbróglio que forçou todos os líderes americanos, europeus, árabes, até mesmo alguns israelitas, a dizer que o queriam solucionar, quando nenhum deles, claro, tinha a menor intenção de o fazer. O Quinto Império do Mundo, essa Era do Bem que reinará por mil anos até ao Juízo Final, vai finalmente pôr fim a este fartote que tanto emprego criou ao longo das décadas, tanta comissão, tanta cimeira, tanto telegrama, tanto fax, tanto telefonema de Tony Blair para Bush, tanto email pessoal de Hillary Clinton. Fernando Santos irá ao Muro das Lamentações, à Esplanada das Mesquitas e finalmente ao Santo Sepulcro onde os guardiões ortodoxos da Cristandade hoje teclam nos seus smartphones, sentados junto à coluna que diz Ò To the Holy Tomb (que me caia uma noz na cabeça se não é verdade). A todos pedirá Confiança, União neste momento decisivo da Humanidade, fará ouvidos moucos aos descrentes, aos trocistas, e jurará só ir embora no último dia de 999 da Era do Bem. Segue-se o Juízo Final, mas não vale a pena estarmos a pensar agora nessa parte. Façamos como D. Manuel, e aquela fatia messiânica da sua corte que acreditava na Derradeira Cruzada, ou como o seu descendente D. Sebastião, que também lá estará, no lugar onde Deus guarda os reis de Portugal, ou o seu descendente D. João III, em cujas mãos o padre Vieira depositou o Quinto Império. Todos eles tiveram Fé, sem estarem a pensar no problema do Juízo Final. Mil anos dá para muitos Campeonatos da Europa e do Mundo, e o Encoberto já deixou de o ser: chama-se Fernando Santos, tem consigo toda a Humanidade que fala português com sotaque de Portugal ou luso-descendente, e ainda o embaixador dos EUA em Lisboa. Ficou algum português de fora? Pacheco Pereira? Que venha também, mesmo sem ver a bola, isto aqui é tudo gente do Livro. Porque onde o padre Vieira achou que tudo (re)começaria em 1666, o que afinal estava escrito nas estrelas era o Ano da Graça de 2016.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
domingo, 10 de julho de 2016
Portugal na imprensa estrangeira - "La bomba escondida en el dribling de Cristiano Ronaldo"
"Direct Democracy and Brexit" - Peter Singer
sexta-feira, 8 de julho de 2016
"Sanções ou reparações?" - Sandra Monteiro
Vai haver sanções? Não vai haver sanções? Se não forem aplicadas agora, sê-lo-ão mais tarde? Se forem aplicadas agora, serão simbólicas ou efectivas? Serão imediatas ou com pena suspensa? Portugal fez o suficiente para as evitar? Só as pode evitar com mais medidas de austeridade? Quais as consequências para o investimento externo? E para o défice? E para a dívida? Vem aí um novo resgate? Vai o país voltar a ser governado do exterior, pela Troika?
É este o ambiente de terror que está criado, com a ajuda de actores externos e internos, com toda a telenovela sancionista-punitiva de uma União Europeia que mostra nada ter aprendido com a crescente desafectação que gera nos povos europeus – e de que o Brexit é apenas o mais recente exemplo. Um ambiente que actua sobre as realidades económicas e financeiras, procurando moldar comportamentos e prejudicar as políticas de devolução de rendimentos, condições de trabalho e serviços públicos.
Aposta-se na auto-realização da profecia que se lança para o ar. O comissário europeu Serge Moscovici, muito esclarecedor, realça que a Comissão Europeia fará uma aplicação«inteligente» de sanções. Até agora, essa inteligência ditou que nunca fossem aplicadas sanções. Nem durante os muitos anos, 2015 incluído, em que tantos outros países têm incumprido as metas do défice, nem nos anos de incumprimento do máximo de excedentes admitidos. Até agora, nada.
Não tem sido preciso. A obsessão das metas nunca tinha tido oposição digna de se ver, isto é, nunca levara governos a pôr em causa, não o cumprimento das regras (isso foi-se tornando comum), mas o sentido ideológico das políticas concretas. Ou melhor, até teve, mas o governo grego acabou por ensinar à União Europeia que, suficientemente estrangulado, acabava por se conformar às imposições de Bruxelas, com a destruição da Grécia que se vê.
A obsessão por metas cujo incumprimento é eventualmente sancionável pelo europeísmo neoliberal-austeritário funciona sobretudo como uma distopia: mais importante do que o desastroso objectivo a atingir num qualquer horizonte, o que importa é a tragédia concreta em que se transforma o caminho, medida em degradação das condições de trabalho e de vida da maioria, em patamares cada vez mais baixos. É por isso que as declarações da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque são verdadeiras: com ela não havia sanções, se calhar nem ameaças, mesmo que o défice fosse ainda maior, desde que ela aplicasse toda a receita neoliberal. As sanções nunca são técnicas, são políticas. São, na perspectiva de quem usa a sua hegemonia como direito a matar a dissidência à nascença, uma forma de fazer regressar ao rebanho neoliberal qualquer ovelha tresmalhada. À paulada, se preciso for.
É desta flexibilidade na utilização dos instrumentos de coerção por si criados que a União Europeia retira grande parte da capacidade que tem demonstrado de formatar as políticas europeias, aplicadas à escala transnacional e nacional, umas vezes por governos neoliberais outras por sociais-liberais. É por isto que a decisão de aplicar ou não sanções a Portugal (e a Espanha) por incumprimento do défice em 2015 não depende tanto do resultado do défice desse ano – aliás invulgarmente baixo e só possível com uma destruição de salários, pensões e empregos nunca antes vista na história da democracia. A decisão depende da vontade de forçar à submissão o governo português, para este aceitar medidas de reposição da austeridade, idealmente ainda num orçamento rectificativo para 2016 (não vá o défice ficar mesmo abaixo dos 3% e depois não há tantos argumentos para a pressão), mas se necessário só no orçamento para 2017.
A isto a União Europeia e respectivas caixas de ressonância políticas e mediáticas chamarão qualquer coisa como «a necessidade de ter garantias por parte do governo de que actuará de forma responsável e sem pôr em risco os esforços abnegados que o povo português fez nos anos da crise». Talvez estes arautos consigam convencer alguns de que a crise já passou e de que as escolhas dos governos não são sempre políticas e ideológicas… Mas depois há sempre essa coisa desagradável que se chama realidade e que tende a ser medida, por cada um, em condições de vida.
A ameaça de sanções, concretizadas ou não, é já a Comissão a agir de forma inteligente. Faz lembrar, aliás, aqueles mísseis inteligentes que, mesmo depois de disparados, ainda podem mudar de rota, para que o impacto desejado tenha em conta os efeitos que o simples facto de terem sido accionados possam ter no comportamento do inimigo. Uns caem no mar, outros num alvo secundário, outros atingem em cheio capacidades operacionais.
Há cerca de dois meses, a Comissão iniciou esta manobra punitiva para conseguir efeitos na actuação do governo português (e nas eleições e configuração do governo em Espanha). Pelo meio, espera conseguir reforçar a direita portuguesa na sua ambição de voltar ao governo, bem como conhecer a capacidade que o governo de António Costa demonstra, ou não, de resistir a diferentes graus de pressão: abdicará do compromisso programático de reverter a austeridade e apostar numa via de emprego e crescimento ou, pelo contrário, abdicará do compromisso de cumprir as regras e metas dos tratados europeus?
Mostrará a União Europeia que estas duas vias são incompatíveis? Como, até agora, não o pode fazer exibindo uma execução orçamental de 2016 incumpridora, resta-lhe fazer a pressão necessária para que isso aconteça no ano seguinte. Para tal basta que o ambiente sancionatório faça disparar os juros da dívida e retrair o investimento, que por sua vez aumenta o défice, exige novas medidas, etc. A escalada infernal e em ciclo vicioso está sempre disponível para ser accionada. Sê-lo-á agora? Na decisão da União talvez pese a reacção portuguesa. Talvez pesem outros factores, como desviar a atenção de outros problemas – da banca alemã ao Brexit –, ou sopesar alguns ténues indícios de questionamentos internos e de alianças que podem formar-se. Mas o que depende de nós é sermos capazes, hoje, de manter uma oposição política e social firme perante qualquer tentativa de voltar à austeridade, actuando no sentido de a reverter em todos os pontos que estão ainda por levar à prática e que não podem deixar de ser aplicados por qualquer governo que se reveja na mais simples social-democracia.
Esta atitude de resistência a um projecto político que a prazo só reserva, para países como Portugal, uma crise muito prolongada, com constante perda de rendimentos, níveis insustentáveis de desemprego, défices permanentes e uma dívida impagável, é ela própria formativa dos combates futuros. Precisamos de preparar todos os cenários, fixando as linhas vermelhas nos conteúdos das políticas, e percebendo que os espaços e os meios que usamos para as levar à prática são apenas os quadros e os instrumentos em dado momento disponíveis. Nesta União em decomposição, mas determinadamente neoliberal e punitiva, as regras dos tratados e a configuração da moeda única prometem continuar, na sua aplicação inteligente, a servir a acumulação de lucros nas grandes multinacionais e no sistema financeiro, coisa que exige mais desemprego e precariedade, menores salários e pensões, menos protecção social, menos Estado social. Neste contexto, não deveríamos estar apenas a resistir a eventuais sanções: devíamos estar a exigir reparações pelos danos causados.
Não tem sido preciso. A obsessão das metas nunca tinha tido oposição digna de se ver, isto é, nunca levara governos a pôr em causa, não o cumprimento das regras (isso foi-se tornando comum), mas o sentido ideológico das políticas concretas. Ou melhor, até teve, mas o governo grego acabou por ensinar à União Europeia que, suficientemente estrangulado, acabava por se conformar às imposições de Bruxelas, com a destruição da Grécia que se vê.
A obsessão por metas cujo incumprimento é eventualmente sancionável pelo europeísmo neoliberal-austeritário funciona sobretudo como uma distopia: mais importante do que o desastroso objectivo a atingir num qualquer horizonte, o que importa é a tragédia concreta em que se transforma o caminho, medida em degradação das condições de trabalho e de vida da maioria, em patamares cada vez mais baixos. É por isso que as declarações da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque são verdadeiras: com ela não havia sanções, se calhar nem ameaças, mesmo que o défice fosse ainda maior, desde que ela aplicasse toda a receita neoliberal. As sanções nunca são técnicas, são políticas. São, na perspectiva de quem usa a sua hegemonia como direito a matar a dissidência à nascença, uma forma de fazer regressar ao rebanho neoliberal qualquer ovelha tresmalhada. À paulada, se preciso for.
É desta flexibilidade na utilização dos instrumentos de coerção por si criados que a União Europeia retira grande parte da capacidade que tem demonstrado de formatar as políticas europeias, aplicadas à escala transnacional e nacional, umas vezes por governos neoliberais outras por sociais-liberais. É por isto que a decisão de aplicar ou não sanções a Portugal (e a Espanha) por incumprimento do défice em 2015 não depende tanto do resultado do défice desse ano – aliás invulgarmente baixo e só possível com uma destruição de salários, pensões e empregos nunca antes vista na história da democracia. A decisão depende da vontade de forçar à submissão o governo português, para este aceitar medidas de reposição da austeridade, idealmente ainda num orçamento rectificativo para 2016 (não vá o défice ficar mesmo abaixo dos 3% e depois não há tantos argumentos para a pressão), mas se necessário só no orçamento para 2017.
A isto a União Europeia e respectivas caixas de ressonância políticas e mediáticas chamarão qualquer coisa como «a necessidade de ter garantias por parte do governo de que actuará de forma responsável e sem pôr em risco os esforços abnegados que o povo português fez nos anos da crise». Talvez estes arautos consigam convencer alguns de que a crise já passou e de que as escolhas dos governos não são sempre políticas e ideológicas… Mas depois há sempre essa coisa desagradável que se chama realidade e que tende a ser medida, por cada um, em condições de vida.
A ameaça de sanções, concretizadas ou não, é já a Comissão a agir de forma inteligente. Faz lembrar, aliás, aqueles mísseis inteligentes que, mesmo depois de disparados, ainda podem mudar de rota, para que o impacto desejado tenha em conta os efeitos que o simples facto de terem sido accionados possam ter no comportamento do inimigo. Uns caem no mar, outros num alvo secundário, outros atingem em cheio capacidades operacionais.
Há cerca de dois meses, a Comissão iniciou esta manobra punitiva para conseguir efeitos na actuação do governo português (e nas eleições e configuração do governo em Espanha). Pelo meio, espera conseguir reforçar a direita portuguesa na sua ambição de voltar ao governo, bem como conhecer a capacidade que o governo de António Costa demonstra, ou não, de resistir a diferentes graus de pressão: abdicará do compromisso programático de reverter a austeridade e apostar numa via de emprego e crescimento ou, pelo contrário, abdicará do compromisso de cumprir as regras e metas dos tratados europeus?
Mostrará a União Europeia que estas duas vias são incompatíveis? Como, até agora, não o pode fazer exibindo uma execução orçamental de 2016 incumpridora, resta-lhe fazer a pressão necessária para que isso aconteça no ano seguinte. Para tal basta que o ambiente sancionatório faça disparar os juros da dívida e retrair o investimento, que por sua vez aumenta o défice, exige novas medidas, etc. A escalada infernal e em ciclo vicioso está sempre disponível para ser accionada. Sê-lo-á agora? Na decisão da União talvez pese a reacção portuguesa. Talvez pesem outros factores, como desviar a atenção de outros problemas – da banca alemã ao Brexit –, ou sopesar alguns ténues indícios de questionamentos internos e de alianças que podem formar-se. Mas o que depende de nós é sermos capazes, hoje, de manter uma oposição política e social firme perante qualquer tentativa de voltar à austeridade, actuando no sentido de a reverter em todos os pontos que estão ainda por levar à prática e que não podem deixar de ser aplicados por qualquer governo que se reveja na mais simples social-democracia.
Esta atitude de resistência a um projecto político que a prazo só reserva, para países como Portugal, uma crise muito prolongada, com constante perda de rendimentos, níveis insustentáveis de desemprego, défices permanentes e uma dívida impagável, é ela própria formativa dos combates futuros. Precisamos de preparar todos os cenários, fixando as linhas vermelhas nos conteúdos das políticas, e percebendo que os espaços e os meios que usamos para as levar à prática são apenas os quadros e os instrumentos em dado momento disponíveis. Nesta União em decomposição, mas determinadamente neoliberal e punitiva, as regras dos tratados e a configuração da moeda única prometem continuar, na sua aplicação inteligente, a servir a acumulação de lucros nas grandes multinacionais e no sistema financeiro, coisa que exige mais desemprego e precariedade, menores salários e pensões, menos protecção social, menos Estado social. Neste contexto, não deveríamos estar apenas a resistir a eventuais sanções: devíamos estar a exigir reparações pelos danos causados.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
"From Brexit to the Future" - Joseph E. Stiglitz
terça-feira, 5 de julho de 2016
"Lettre de Jean Cocteau à sa mère"
Ma maman chérie
Ta lettre me rend joyeux, elle est gaie, j’étais triste je ne sais pas au juste pourquoi… et c’en est peut-être la raison.
Le citoyen Boulant avait perdu mon adresse, il recevait affolé sans pouvoir y répondre mes sévères réprimandes. Il prépare à Paris son oral.
Madame Dietz est encore immobilisée mais le rire ne quitte pas la maison, nous plaisantons comme des gosses et cela me réconforte. Quant à « tante Girard »… elle se couvre de bijoux et de voiles ! empeste les chemins d’un patchouli lascif !! tire les cartes !!!! et arrive à nous révolter par la façon dont elle se tient ou plutôt dont elle ne se tient pas !!!!!!!!!!!!!!!
Mon caractère évolue, il me semble constater des résultats, et je repousse la fierté qui s’en dégage parce que c’est encore un terrible défaut.
Puisque tu me touches un mot au sujet de mon avenir… sache que je suis à ce sujet mille fois moins léger qu’on ne pourrait le croire. Récemment encore j’hésitais sur la voie à suivre mais l’avis péremptoire d’un talent et d’un génie m’a poussé définitivement vers l’idéal que je me forge.
Ne crains rien il y a sous mon apparente frivolité quelque chose de grand et de profond, que j’ai eu la volonté de masquer parce que… comme le dit Bataille, « Dans le monde il faut faire l’idiot pour ne pas avoir l’air d’un imbécile ». J’entends les flatteurs ; je ne les écoute pas… et je possède juste assez de raison pour savoir mieux que personne la valeur de ce que je fais.
Tu es ma meilleure amie… mon meilleur ami et il faut remercier le hasard d’avoir ainsi voulu les choses, car je sais bien des mères trop dures pour leurs fils… et qui pour cela n’ont plus leur confiance.
Si je me révolte quelquefois contre le devoir, c’est la jeunesse qui pointe ! Car la vie procure bien assez de douleurs par elle-même… pour ne pas y chercher ce qu’elle a de consolant.
À réfléchir je deviens meilleur… Il y a peu de temps… j’étais encore torturé de la platitude dogmatique dont la terre est pourrie… maintenant j’en souris… et la phrase charmante me revient… que m’écrivit madame Raoul-Duval : « La compréhension est chose si rare qu’on ne saurait la vouloir chez tous… car c’est presque de l’amour. »
Vois-tu, maman, le bonheur consiste en ceci : « Prendre à la minute tout le suc qu’elle contient », c’est pourquoi j’ai malgré de profondes tristesses des compensations merveilleuses.
« Zut pour les autres », j’entends par « autres » le clan indifférent ou hostile, et vivent les êtres aimés et la vie intérieure !
Après cela un baiser avec tout mon cœur.
Ton vieux
Jean
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