Ideia: representação mental; representação abstrata e geral de um objeto ou relação; conceito; juízo; noção; imagem; opinião; maneira de ver; visão; visão aproximada; plano; projeto; intenção; invenção; expediente; lembrança. Dicionário de Língua Portuguesa da Texto Editora
quarta-feira, 14 de março de 2018
terça-feira, 13 de março de 2018
"The Most Influential Images of All Time" - 27: Bradley Cooper
Oscars Selfie - Bradley Cooper
It was a moment made for the celebrity-saturated Internet age. In the middle of the 2014 Oscars, host Ellen DeGeneres waded into the crowd and corralled some of the world’s biggest stars to squeeze in for a selfie. As Bradley Cooper held the phone, Meryl Streep, Brad Pitt, Jennifer Lawrence and Kevin Spacey, among others, pressed their faces together and mugged. But it was what DeGeneres did next that turned a bit of Hollywood levity into a transformational image. After Cooper took the picture, DeGeneres immediately posted it on Twitter, where it was retweeted over 3 million times, more than any other photo in history.
It was also an enviable advertising coup for Samsung. DeGeneres used the company’s phone for the stunt, and the brand was prominently displayed in the program’s televised “selfie moment.” Samsung has been coy about the extent of the planning, but its public relations firm acknowledged its value could be as high as $1 billion. That would never have been the case were it not for the incredible speed and ease with which images can now spread around the world.
"The Nation of Kangaroos" - Peter Singer
segunda-feira, 12 de março de 2018
"When Shall We Overcome?" - Joseph E. Stiglitz
domingo, 11 de março de 2018
"Os circuitos do dinheiro na saúde" - Isabel do Carmo
O Conselho Nacional de Saúde (CNS) é uma estrutura oficial, tal como a Entidade Reguladora da Saúde, com sede no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, e tem alguma independência do Ministério da Saúde. Este Conselho foi criado para consulta do governo, mas também para tornar públicos os dados recolhidos, no sentido de autarquias, associações e público em geral tomarem conhecimento dos seus estudos, participando de um dever de cidadania.. Em Outubro de 2017, o CNS publicou um estudo sobre os "Fluxos Financeiros do Serviço Nacional de Saúde (SNS)", que analisa o estado da Saúde em Portugal. O objectivo foi observar o desenho geral da estrutura financeira, as fontes de financiamento e a verdadeira árvores de fluxos. Utilizou dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) que gere de forma central os recursos humanos dentro do Ministério da Saúde e disponibiliza ao público dados sobre os custos nas várias áreas.
Os autores recorreram à Organização Mundial de Saúde (OMS) e à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), colhendo desta última um dado que diz mais sobre a despesa em saúde do que a percentagem do produto interno bruto (PIB) geralmente usada. Esse dado é o custo "per capita" (com paridade com o poder de compra) que, pelo menos desde 2000, se tem sempre situado abaixo da média europeia: 2423,3 dólares em 2016, sendo a média europeia de 3549,4. Vistas as percentagens do PIB, a despesa aproximou-se da europeia (9 contra 8,9), mas a parte pública dessa despesa veio a distanciar-se desde 2010 até 2016, o que significa que foram as famílias a arcar com a diferença. Em 2015, a fonte financeira a partir do Orçamento Geral do Estado foi de 57,3% do total da despesa corrente em Saúde (INE, Agosto 2017). Nestes anos, as famílias participavam com 27,7% dos custos (mais do que outros países europeus), o que em período de crise pesou muito no seu sofrimento. Os subsistemas contribuíram com 5,3% como agente financiador. Embora se possa ter uma percepção pública diferente, o contributo das associações sem fins lucrativos foi apenas contributo residual.
Durante a crise, e ainda hoje, as famílias suportam a parte não comparticipada dos medicamentos e uma percentagem dos exames. Em relação aos medicamentos, aqueles de que depende imediatamente a vida, como a insulina, são gratuitos, ou largamente comparticipados, como os antibióticos, e os que se destinam a doenças crónicas, como a hipertensão arterial ou a diabetes, têm uma comparticipação grande. Os critérios são diferentes, e em alguns casos discutíveis, para os medicamentos que não se enquadram nestas categorias. Os cuidados domiciliários, indispensáveis para muitas famílias, deveriam ser todos prestados pelos cuidados ao domicílio dependentes dos cuidados primários, ou seja, centros de Saúde e Unidades de Saúde Familiar (USF), onde os enfermeiros têm um papel determinante. Mas muitas vezes a cobertura falha, o recurso às Misericórdias tem de ser feito, com o seu cariz de "solidariedade" e a articulação de base - centro de saúde, junta de freguesia, instituição de solidariedade - a funcionar mal, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Os cuidados dentários são um dos maiores problemas do SNS. O "cheque-dentista" abrangeu sobretudo crianças e jovens até aos 18 anos, mas aquilo que foi uma medida de emergência tornou-se uma das formas de fluxo do público para o privado. Em 2016, o Estado pagou em cheques-dentista 13 154 175 de euros, que incluíram crianças e jovens, grávidas, portadores de VIH-sida e projecto de intervenção do cancro oral. Em 2009 pagara menos de um terço (4 005 400 euros). As consultas hospitalares de Estomatologia têm de ser reservadas para os casos de última instância, e não as questões dentárias correntes, o que significa que os adultos ficam sem cobertura. Mesmo em consultas hospitalares, os materiais de prótese saem do bolso do utente.
De acordo com os dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), durante o primeiro semestre de 2017 o ramo doença aumentou 12,3%, face ao mesmo período do ano anterior, o que pode ser um indicador da dificuldade de acesso ao SNS. Provavelmente foi quase tudo para os prestadores privados. E as facturas que entram nos hospitais por via das seguradoras, nos casos de trabalho ou acidentes, tornam-se muitas vezes dificilmente cobráveis.
Entra no SNS e para onde é que sai?
Percebendo um pouco as fontes de financiamento do SNS, interessa saber para onde é escoado o dinheiro. Em 2015, o grande peso financeiro estava nos hospitais públicos, embora tenha havido um corte nesse sector de 300 milhões de euros durante a crise, primeiro imposto pela Troika e depois pelo governo. Este corte foi ter reflexos, que se sentirão durante anos, nos equipamentos e na sua manutenção, nas dívidas e no pessoal. Os custos nos cuidados domiciliários representavam em 2015 uns escassos 0,3% e os cuidados preventivos 1,1%, níveis que se têm mantido ao longo de anos e por vários governos, apesar dos discursos. A narrativa de que "o melhor é a prevenção" muitas vezes é só moralista e dirigida à responsabilidade individual na mudança de hábitos de vida, esquecendo que o grande factor a intervencionar de forma política é o ambiente, em sentido lato, criado pelo colectivo social. O SNS, que em Portugal todos dizem defender, evitando separar as águas em termos de conceitos de sistema de saúde, apenas dispõe de 1,1& de verbas para cuidados preventivos.
Os cortes nas despesas específicas em cuidados curativos hospitalares atingiram sobretudo os hospitais públicos, tendo o pagamento a hospitais privados vindo a crescer, ao ponto de passar de cerca de 389 milhões de euros em 2011 para cerca de 554 em 201, incluindo as PPP. Ou seja, não houve poupança quando os fornecedores de serviços foram privados. Assim se compreende a multiplicação de instituições privadas de prestação de serviços de Saúde. As instituições privadas de Saúde sobrevivem com o que lhes é pago pelo SNS em venda de serviços de saúde e com o que lhes é pago pela Assistência na Doença aos Servidores do Estado (ADSE); não com os seguros e os pagamentos das pessoas de altos rendimentos. Em 2017, o número de empresas privadas de Saúde com internamento era de 169, com 15 947 de pessoal e um valor de negócios de 1486 milhões de euros. No privado, as camas de internamento cresceram, enquanto as do sector público decresceram, o mesmo sucedendo com as consultas externas e as grandes e médias cirurgia (INE, 2017).
Em 2017, a ADSE pagou 394 milhões de euros a hospitais, clínicas e laboratórios privados. Daqui se depreende os protestos da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada quando a ADSE anunciou que ia baixar as tabelas de pagamentos. Note-se que quando os doentes beneficiários da ADSE entram na rede pública, aquela nada paga ao Estado, porque ao SNS têm direito como qualquer cidadão.
Uma das grandes facturas de pagamento de serviços externos a cargo do SNS é a da realização de hemodiálises, que em 2016 obrigou o Estado a pagar cerca de 253 milhões de euros. Também neste caso cabe aos hospitais públicos uma parte mais complexa - o estabelecimento de vias vasculares de acesso - e depois o SNS paga aos privados as sessões de hemodiálise.
Quanto à compra de serviços externos a privados, pagos pelo SNS, são sobretudo meios auxiliares de diagnóstico, sobressaindo, em 2016, as análises clínicas (cerca de 87 milhões), a radiologia (cerca de 87 milhões), a fisioterapia (cerca de 67 milhões) e as endoscopias gastroenterológicas (cerca de 32 milhões).
Quando os hospitais públicos têm uma lista de espera de cirurgia que ultrapassa o estabelecido para aquela patologia, podem fazer um cheque-cirurgia para o doente ser operado numa rede de privados estabelecida. Em 2015, os custos com os cheques-cirurgia foram de cerca de 84 milhões de euros. Quanto aos custos com medicamentos, diminuíram cerca de 500 milhões entre 2010 e 2015 (INE, 2017), o que deve ter pesado na crise sofrida pelas farmácias nesse período.
Quanto à Rede de Cuidados Continuados, em 2006, e depois em 2009, ela teve um grande impulso; decresceu em 2013 e cresceu de novo em 2016. A responsabilidade dos custos desta rede é partilhada entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, sabendo-se como faltam camas de internamento. Os cuidados primários, centros de Saúde e USF, a cargo das Administrações Regionais de Saúde (ARS), sofreram uma redução de despesa de 12,5% de 2010 para 2011, o que afectou o seu funcionamento, sobretudo ao nível pessoal. A organização em Agrupamentos, que tinha sido anterior, poderá ter reduzido a despesa, o que foi o principal objectivo da sua constituição, mas eles não têm autonomia financeira e a gestão de pessoal e de funcionamento que existia nas antigas unidades foi perdida, a favor de uma gestão vertical e mais distante.
O que entra e o que se gasta
De forma crónica, e percepcionada como quase natural, há ao longo dos anos um subfinanciamento da saúde, sabendo-se de antemão que se vai gastar mais do que se recebe. O mesmo se passa com a assinatura dos Contratos Programa, que foram um bom projecto para estabelecer o exercício anual, mas também neste caso se sabe antecipadamente que não vai haver recursos para essa produção. Em 2012 e 2013 houve orçamentos rectificativos, porque as dívidas a fornecedores já eram muitas. Em Dezembro de 2016 havia cerca de 32 milhões de euros de dívida mensal em média, sendo que cerca de 20 milhões estavam em atraso e cerca de 12 milhões eram dívida vencida. Em Agosto de 2017, o total da dívida com mais de 90 dias já estava em 1145 milhões de euros no total. Este peso, que se arrasta e ocupa as administrações, esta suborçamentação crónica, dificulta negociações de preços, impede projectos de fôlego plurianuais e planos ambiciosos em equipamento e pessoal, com rentabilidade a médio prazo. Ora, a falta de resposta nos serviços públicos provocada pela suborçamentação vai depois ter como consequência a necessidade de recurso a privados; ou seja, o que falta num lado paga-se no outro, que pela própria natureza tem de ter lucro.
A discussão no presente situa-se antes de tudo neste subfinanciamento crónico, que se agravou durante a crise e se mantém. É preciso pensar com ousadia na parte que diz respeito ao SNS dentro do Orçamento do Estado, abandonando esta hipocrisia de se fingir que se vai gastar a um nível que não é o verdadeiro, porque não pode ser. O estabelecimento dum orçamento real tem de ser discutido nos detalhes pelos vários intervenientes do SNS, sem pretensões de serem bons alunos por serem poupadores. Poderá perguntar-se a cada unidade como seria para funcionarem a pensar na eficiência, e não no peso das dívidas. O bom planeamento a este nível dá resultados a curto prazo. Por exemplo, o facto de alguns Agrupamentos de Centros de Saúde terem hoje aparelhagem para um rastreio de renitopatias diabéticas vai evitar cegueiras e/ou tratamentos com custos vultuosos, se os hospitais de referência responderem de imediato aos doentes referenciado. Os custos em equipamento e em técnicos não têm comparação com a poupança financeira e humana. Investiu-se e poupou-se, como aconteceu em 2008-2009 com o plano de cirurgia das cataratas.
Quanto à própria estrutura dos custos, é de grande evidência a necessidade de gastar mais nos cuidados primários. As USF foram um projecto de Constantino Sakellarides ainda como director-geral da Saúde no ministério de Maria de Belém Roseira, período em que chegou a haver uma unidade experimental. Correspondem a um padrão de autonomia de gestão financeira, que implica todo o pessoal; há incentivos de acordo com os resultados e os doentes são seguidos de modo a prevenir ou melhorar doenças crónicas e evitar episódios agudos.
As USF têm duas categorias, A e B, sendo que a primeira é experimental e a segunda provém da primeira e autonomiza-se. A unidade é criada por candidatura dum médico de Medicina Geral e Familiar que levará consigo a sua carteira de doentes. De 2006 a 2010, foram criadas 129 USF modelo A e, de 2008 a 2011, passaram 136 a modelo B. De 2012 a 2015, só 72 passaram a modelo B. No ano de 2016 passaram a USF modelo B 25 unidades. No total temos 479 activas, 246 modelo A e 233 modelo B. A região Norte tem mais do dobro de USF activas do que Lisboa e Vale do Tejo. Ora, após a candidatura com todos os seus passos administrativos e técnicos é necessário um despacho conjunto dos Ministérios da Saúde e das Finanças. Neste momento há 29 candidaturas do modelo A e 48 do modelo B, mas o que falhou ao longo de 2017 foi o despacho conjunto... Ora, para lá do subfinanciamento crónico, há que discutir com as Finanças, que não são técnicos em Saúde, os benefícios da abertura de USF, demonstrando os resultados com números na mão, que é o que se tem de fazer num governo em que a governação é global e deve ser um colectivo com propósitos estratégicos.
A poupança dentro do SNS tem de considerar a relação do serviço público como cliente dos privados. Os números mostram que o grande custo não são as parcerias público-privadas (PPP), mas sim a compra de serviços aos privados. O combate às PPP tem sido o maior cavalo de batalha, mas estas têm sido escrutinadas em termos qualitativos e quantitativos. Claro que têm a sua lógica de negócio e por algum lado hão-de ganhar. Mas o grande negócio para os privados é a venda de serviços e aí tem de haver uma reflexão, pois se as instituições públicas forem suficientes não terão de dar lucro a privados. Estamos a falar de meios auxiliares de diagnóstico: análises, radiologia, endoscopias. Ao nível de análises, as instituições que ousaram instalar postos de colheita nos Centros de Saúde para as análises serem feitas nos hospitais, o que foi o caso do Centro Hospitalar da Guarda e do Centro Hospitalar Lisboa Norte, foram efectivamente combatidas pela Entidade Reguladora da Saúde, que entendeu que se estava a prejudicar os privados. Interessante entendimento dum organismo criado pelo Estado, embora com funcionamento independente... Surgiram até providências cautelares em reacção à existência desses postos de colheita. Ora, os hospitais têm capacidade para responder às suas necessidades e às dos centros da sua área. Já o mesmo não se passa em relação à radiologia. Neste caso os hospitais têm excelente qualidade, mas não têm capacidade de resposta em termos quantitativos, sobretudo em Ressonâncias Magnéticas, mas também em avaliações vasculares por imagem, e os doentes não podem ficar sem fazer os exames.
Temos esperança que o projecto do Hospital de Lisboa Oriental, agora assim chamado após ter o nome de Todos-os-Santos, em evocação do antigo hospital do Rossio destruído pelo Grande Terramoto, contemple as carências dos actuais hospitais. O número de camas (875) foi calculado de acordo com as necessidades da área directa e indirecta, mas estas só podem atingir este nível se forem aumentadas as camas de convalescença e de cuidados continuados, e se os cuidados domiciliários forem garantidos.
É que alguns doentes não podem ter altas para o vazio, para famílias sem recursos de acompanhamento. No caso deste hospital, a PPP só vai funcionar para a construção, que será de 415 milhões, a pagar durante 30 anos Toda a gestão será pública. Com um espaço racionalizado dentro das modernas necessidades, o hospital ter a capacidade para todas as necessidades dos doentes, em termos de exames e tratamentos e não dependerá de compras de serviços clínicos externos. Deste modo os serviços privados não serão complementares do SNS, como se diz habitualmente, porque os serviços públicos terão resposta completa. Os serviços privados serão suplementares para quem queira fazer essa escolha, por razões de hotelaria ou outras que não tenham a ver com a qualidade clínica. Resta saber se o SNS e os seus responsáveis farão uma opção por esta tendência, de que o Hospital Oriental pode ser modelo, ou se continuarão a procurar comtemporizacões, ou os chamados consensos, em que o lucro cresce e o SNS rebenta pelas costuras.
Isabel do Carmo
quinta-feira, 8 de março de 2018
quarta-feira, 7 de março de 2018
"Oil Was Central in Decision to Shrink Bears Ears Monument, Emails Show" - Eric Lipton and Lisa Friedman
Even before President Trump officially opened his high-profile review last spring of federal lands protected as national monuments, the Department of Interior was focused on the potential for oil and gas exploration at a protected Utah site, internal agency documents show.
MESSENGERS - A Running Story of Bears Ears & Grand Staircase-Escalante from Yeehaw Donkey on Vimeo.
"Desocultar o desemprego real" - Sandra Monteiro
As estatísticas são instrumentos imprescindíveis para o conhecimento da realidade, mas criar os indicadores em que elas se baseiam não é um exercício neutro. Implica fazer escolhas. Estas construções, assentes em metodologias que devem ser transparentes, evoluem no tempo e no espaço. Se forem pouco adequadas para dar a conhecer uma realidade, devem ser abandonadas ou aperfeiçoadas. Este processo beneficia de um diálogo permanente entre os especialistas que as elaboram, em universidades, centros de investigação ou administrações, e o poder político e os cidadãos, cujas escolhas devem ser informadas pelo melhor conhecimento disponível.
As estatísticas mostram e ao mesmo tempo ocultam diferentes aspectos da realidade, contribuindo para desencadear mudanças ou consolidar permanências. Mais do que de fenómenos «naturais» de visibilidade ou invisibilidade social, elas reflectem processos de análise que criam, eles próprios, lugares de visibilização e de invisibilização. Quando os indicadores são construídos de forma sistemática e com metodologias idênticas, permitindo comparações entre os períodos e os países, como acontece com as estatísticas nacionais oficiais e as elaboradas pelo organismo europeu, o Eurostat, é fácil compreender que estamos perante um poderoso mecanismo de formatação do que sabemos, para lá das impressões individuais, e do que colectivamente decidimos fazer.
Sabendo-se que a mais recente crise financeira elegeu o mundo do trabalho como alvo preferencial das suas engenharias neoliberais, são preciosos os estudos científicos que propõem análises estatísticas do emprego, do desemprego e da precariedade que vêm completar as oficiais. Referimo-nos aos estudos que, inspirando-se em metodologias sugeridas em 2013 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), integraram nos números do desemprego situações excluídas pelos indicadores oficiais e que têm, como concluíram, um peso muito significativo.
O estudo mais recente foi efectuado no âmbito do Observatório das Desigualdades e juntou à parcela do desemprego quatro categorias de desempregados não contabilizadas pelos números oficiais: os inactivos desencorajados, os subempregados, os indisponíveis e os ocupados em programas operacionais do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). O estudo concluiu que o desemprego real no terceiro trimestre de 2017 era mais do dobro do oficial: 17,5%, em vez dos 8,5% registados [1]. Calcular esta «taxa de desemprego alargada ou redimensionada» não invalida que esteja a registar-se, com a actual solução governativa, uma diminuição do desemprego, e até um aumento do emprego. Comparar os números oficiais actuais do desemprego, que no último trimestre de 2017 eram já de 8,1%, com os números oficiais de anos anteriores (que chegaram a atingir um máximo de 17,5% em 2013) mostra uma tendência positiva, mas fica muito aquém de dar conta da realidade do desemprego. E isto mesmo que, desde Agosto de 2017, o Instituto Nacional de Estatística (INE) tenha começado a publicar também os dados da «subutilização do trabalho»: foi quanto bastou para praticamente duplicar o total da população desempregada no segundo trimestre de 2017, mas ficou apenas como indicador suplementar (sem alargar a taxa de desemprego) [2].
O que explica que continue a ser utilizado um instrumento estatístico claramente desajustado da realidade? Olhemos para a parcela agregada pelo estudo do Observatório das Desigualdades que é composta pelos desempregados ocupados em programas operacionais do IEFP. Até 2011, estas pessoas faziam parte das estatísticas oficiais do desemprego; a partir desse ano, foram retiradas. Para avaliar o impacto desta escolha basta ver como mudam os resultados em função de se integrar ou não os desempregados ocupados. Os autores do estudo indicam que o seu número pouco diminuiu desde 2015, tal como o dos desencorajados, sugerindo que o aumento do emprego ficará a dever-se mais à entrada de jovens no mercado do trabalho. Há aqui com que questionar as políticas de integração no mercado de trabalho por via dos centros de emprego, em particular no desemprego de longa duração. Mas centremo-nos no peso persistente dos ocupados pelos centros de emprego, até porque o problema é anterior a 2015.
Curiosamente, ou não, o grande crescimento destes desempregados ocupados data, justamente, da altura em que foram retirados das estatísticas oficiais. Sabemos isto desde 2015, quando um outro estudo, da autoria do Observatório sobre Crises e Alternativas, já havia decidido, em plena crise e perante uma subida histórica do desemprego, ter em conta realidades do mercado de trabalho que «os critérios oficiais, harmonizados pelos conceitos do Eurostat, não acompanham devidamente» [3]. Ao desemprego oficial, o estudo juntou os subempregados, os inactivos desencorajados, os activos migrantes (ausentes no estudo do Observatório das Desigualdades, mas particularmente relevante no período em que a emigração, grande parte dela forçada, atingiu níveis históricos) e os desempregados ocupados. Sobre estes últimos, afirmava-se então que, quer em valores absolutos, quer no peso que tinham no total de desempregados do IEFP, até 2012, «nunca o número de desempregados ocupados ultrapassou a barreira dos 40 mil (…). Após 2012 – e até ao final de 2014 – a média trimestral passou a situar-se nos 117 mil, tendo mesmo atingido, no final de 2014, um total de 171 mil desempregados. Até ao início do processo de “ajustamento”, o número de desempregados ocupados nunca foi além dos 7% do total de desempregados. Mas em apenas três anos passou a situar-se em 30%».
Em 2015, o estudo do Observatório sobre Crises e Alternativas estimou que, somadas as formas de desemprego acima referidas, «a taxa real de desemprego poderia situar-se, no segundo semestre de 2014, em 29% da população activa, caso os trabalhadores emigrados tivessem ficado no país». É curioso observar que, usando uma metodologia diferente, que não inclui os activos que emigraram, o estudo do Observatório das Desigualdades concluiu agora que no primeiro trimestre de 2013 o desemprego real ascendeu aos 28,1%, tendo ficado sempre acima dos 25% até ao primeiro trimestre de 2015 e, só depois, descido até aos 17,5% verificados no fim de 2017.
Apetece perguntar o que ficaríamos a saber sobre os dados do desemprego na Europa se em todos os países houvesse investigação científica independente, idealmente concertada nas suas metodologias para efeitos de comparação, que alargasse e redimensionasse a taxa de desemprego que depois serviria de instrumento para políticas públicas. Talvez isso contribuísse para desocultar formas de vulnerabilidade laboral e social que seriam consideradas insuportáveis em sociedades decentes. Desde logo pelo sofrimento individual que essa vulnerabilidade representa, mas também pelo que anuncia de corrosão da Segurança Social e de perpetuação das desigualdades socioeconómicas ao longo de toda uma vida, do trabalho à velhice.
terça-feira 6 de Março de 2018
Notas
[1] Natália Faria, «Desemprego real atingiu os 17,5% no final de 2017, o dobro do oficial», Público, 2 de Março de 2018.
[2] Agência Lusa, «Subutilização do trabalho corresponde a “praticamente o dobro” dos desempregados», Diário de Notícias, 9 de Agosto de 2017.
[3] Observatório sobre Crises e Alternativas, «Crise e mercado de trabalho: Menos desemprego sem mais emprego?», Barómetro das Crises n.º 13, 26 de Março de 2015.
terça-feira, 6 de março de 2018
"“It’s important not to give into panic”: how I found out my husband was being tortured by the Russian security services" - Alexandra Filinkova
segunda-feira, 5 de março de 2018
Livros, personagens e recordações de infância - "Hulla-Hoop
domingo, 4 de março de 2018
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