Texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje (via Entre as brumas da memória) - Vale a pena ler
Este artigo é um panfleto. Não acrescenta nada de novo àquilo que digo há mais de dois anos, pelo que não tem interesse mediático. Não é distanciado, nem racional, nem equilibrado, nem paciente, nem tem um átomo da imensa gravitas de Estado que enche a nossa vida pública no PS e no PSD, cheia daquilo a que já chamei redondismo e pensamento balofo. Como vêem já disse isto tudo e estou-me a repetir. Não é sequer um artigo feliz, que se faça com gosto e prazer. Prescindia bem de o fazer para falar de outras coisas, refrigérios da alma, como se dizia no passado, seja livros, seja o Inverno, seja algum momento especial, uma descoberta de amador curioso, uma coisa que se aprendeu, uma calmaria hegeliana do espírito, ou uma negatividade divertida e sagaz.
Bem pelo contrário. Não ilumina, não é feito pela curiosidade, é feito
em nome da voz que não tem voz e por isso tem muitos adjectivos e podia
ser todo escrito em calão, aqueles plebeísmos, grosserias e obscenidades
que tem nos dias de hoje a enorme vantagem de não conter hipocrisia,
porque são palavras inventadas contra a hipocrisia. Ao menos, vamos hoje
usar o esplendor das belas palavras do português contra o
abastardamento da língua como maneira de falarmos uns com os outros, de
nos entendermos na simplicidade do povo comum, ou na riqueza criativa de
uma velha fala, capaz de tudo se a deixarmos à solta, mas magoada e
ferida pelo seu uso para esconder vilezas e malfeitorias, e acima de
tudo para esconder arrogâncias ignorantes, que é a moeda falsa que para
aí circula.
Pode ser porque eu dou valor às palavras — uma sinistra manifestação da
condição suspeita de intelectual — que me repugna, enoja, irrita,
indigna, encanita, faz-me passar do sério, a sua sistemática violação
pelo governo. Violação, exactamente como as outras violações. Devia
haver uma lei não escrita para punir a violência feita com as palavras e
pelas palavras, como há com a violência doméstica, a violência contra
os mais fracos, o abuso do poder. Devia haver uma lei não escrita para
punir o envenenamento das palavras pela desfaçatez lampeira, a esperteza
saloia.
De novo, pela pecha de ser intelectual, — um estado miserável nos dias
de hoje, “treinador de bancada”, “comentador”, “opinador”, “achista”,
“inútil”, “velho do restelo”, “negativista”, ou qualquer outra variante
das palavras com que hoje o poder e os seus serviçais entendem
diabolizar o debate público que não lhes convém — é que me repugna,
enoja, irrita, indigna, encanita, faz-me passar do sério, a sistemática
tentativa de nos enganar, de nos tomar por parvos, de nos despachar com
um qualquer truque verbal destinado a dizer que uma coisa é diferente do
que o que é, porque convém que não se perceba o que é.
Os exemplos abundam. Por exemplo, chamar aos cortes “poupanças”, como
se não fosse insultuoso para quem quer que seja ver a sua vida ficar
miserável por uma ”poupança” virtuosa, cuja natural bondade não pode ser
atacada. Quem ousa ser contra poupanças? Pode-se ser contra os
despedimentos, contra a redução das despesas sociais, contra os cortes,
mas não se pode ser contra as “poupanças”. Mesmo quando elas mais não
sejam do que cortes, despedimentos, reduções de prestações, reformas
miseráveis ainda mais miseráveis, ou, como diz Bagão Félix, “diminuição
do rendimento das famílias”. Os espertos assessores de comunicação, que
se esforçam todos os dias para dar ao Governo a “política” que o
professor Marcelo diz que ele não tem e evitar assim “erros de
comunicação”, são os aprendizes de feiticeiros deste quotidiano embuste
em que vivemos. Mas estão todos bem uns para os outros.
Chamar a um novo plano de austeridade, o enésimo de há dois anos para
cá, sempre precedido da mentira de que “não vai ser necessária mais
austeridade”, mais uma vez sobre os funcionários públicos, os
pensionistas e os que precisam de serviços públicos de saúde, educação, e
outros, essa coisa obscura e neutra de “medidas contingentes”, não é
também um insulto à nossa inteligência e, pior que tudo, uma ofensa aos
que vão ser vítimas daquilo que o Governo chama “desvios na execução
orçamental”, ou seja erros? A verdade, nua, bruta, cruel, dura, pétrea, é
que cada vez que o Governo erra, há um novo plano de austeridade
destinado a garantir que a mesma receita que falhou seja tentada de
novo, com mais uns milhares de milhões retirados às pessoas, às
famílias, à economia, para pagar uma obstinação, um beco sem saída
ideológico, uma tese sem prova, uma abstracção intelectual, no fundo uma
enorme vaidade sem perdão. Sócrates deitou fora milhões e milhões mal
gastos e perdulários, Passos Coelho deita fora milhões e milhões para um
vazio de arrogância, ignorância e vaidade, sem melhorar o défice,
aumentando a dívida, sem se ver qualquer utilidade. Mas o dinheiro,
antes como agora, foi para algum sítio.
E como aceitar o supremo insulto fruto de uma displicência que acaba por
ser maldosa e arrogante, de se dizer que a recessão para este ano
“aumenta de um ponto percentual”, como se passasse de 35,4 para 36,4,
quando passa de 35,4 para 70,8, usando estes números imaginários para se
perceber a enormidade do “ponto percentual” que significa errar por
100%, duplicar por dois uma desgraça, que passa a ser o dobro do que
era, ou seja uma pequena coisa, “um pequeno ponto percentual”, como se
fosse a coisa mais natural do mundo.
Os erros agora também se chamam “ajustamentos” e podem ser tidos apenas
como a natural consequência da “dificuldade das previsões
macroeconómicas”, que se tem que ir “ajustando” mês a mês. Mas os erros
antes de serem “ajustados” acaso não foram instrumentos de combate
político, fonte de afirmação de legitimidade, atirados contra todos os
que suspeitavam da sua verdade e exequibilidade? Não tem importância,
encontra-se uma estatística qualquer que mostra que estamos no “caminho
certo”, mesmo que tudo esteja errado, e há sempre quem coma esta palha.
É tudo “ajustamento” porque os manipuladores das palavras entendem
que, lá fora da sua janela do poder, tudo é plástico que se pode moldar,
é tudo paisagem em que se pode plantar uma sebe alta para não ver o
mais de um milhão de desempregados “em linha com o que estava previsto”,
e colocar os portugueses numa jaula de ratinhos a correr para fazer
experiências. E que tal cortar metade da comida a ver se eles se
“ajustam” à “poupança” de só comer metade? Trinta morrem, quarenta ficam
doentes, vinte ainda têm gordura para aguentar. Aguentam, aguentam, diz
o tratador. Excelente, ficam dez por cento, a “selecção natural”
funcionou e deixou-nos com os mais fortes, os que se “ajustam”, os
“empreendedores”. Morreram alguns comidos pelos outros? Não há problema,
sempre há ratinhos “empreendedores” e que não são “piegas”, e que
mostram as virtudes do modelo.
No dia em que este Governo for corrido, pelo mesmo tipo de onda de
rejeição que varreu o seu antecessor, só que agora do tamanho das ondas
do Canhão da Nazaré, vai sair com a atitude daquele que diz: o último a
sair que feche a luz e a porta, porque já não é connosco, “queríamos
mudar Portugal e não nos deixaram”. E irão para os seus lugares de acolhimento confortável, já pensados e preparados, sem temor e sem tremor.
No entretanto, estragaram Portugal com a mesma sanha do filósofo de
Paris, numa situação que vai demorar décadas para ser consertada, se é
que tem remédio. Descaracterizaram o PSD como Sócrates fez ao PS,
tornaram pestíferos os políticos em democracia e as instituições da
democracia, destruíram a geração actual, a que tratam sobranceiramente
como a dos “instalados” e querem desempregar para “ajustar” o preço da
mão-de-obra, e hipotecaram a geração seguinte com a mesma antiga
maldição da baixa qualificação, do provincianismo, do quotidiano de
subsistência onde não há recursos para os bens materiais quanto mais
para os “imateriais”.
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